Vigorexia: o que é e como identificar a obsessão pelo corpo perfeito

22 de janeiro de 2019

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POR Gabriele Amorim

Querer definir o corpo ou deixá-lo mais atraente não é uma atitude negativa. Contudo, quando o limite entre o saudável e a obsessão é ultrapassado, surgem consequências. Saiba o que é vigorexia, sintomas e o que fazer caso aconteça.

O que é vigorexia?

Vigorexia ou dismorfia muscular é um transtorno relacionado com a busca por uma aparência “perfeita”. É caracterizada pela preocupação excessiva em ter um corpo forte e com grande volume muscular, levando a pessoa afetada a passar muitas horas praticando atividades físicas e a evitar atividades sociais e profissionais caso não alcance o ideal desejado.

Dessa forma, o indivíduo se dedica de forma compulsiva aos exercícios e normalmente abusa de suplementos alimentares, proteínas, dietas hiperproteicas e, até mesmo, esteroides anabolizantes, o que pode causar diversos riscos à saúde.

Causas

As causas do transtorno dismórfico muscular são multifatoriais e incluem:

  • Socioambientais: influência da mídia sobre a satisfação com a aparência por meio do processo de comparação social;
  • Psicológicos: insatisfação corporal, internalização de uma imagem ideal, baixa autoestima, distorção da imagem e perfeccionismo;
  • Fisiológicos: uso de esteroides anabolizantes e outras substâncias.

Sinais e sintomas de vigorexia

A principal característica da pessoa com vigorexia é que, mesmo em ótima forma física, continua infeliz com sua aparência, tem pensamentos obsessivos de não ser suficientemente grande e se sente fraca ou pequena.

Além disso, pode ocorrer:

  • Insônia;
  • Irritabilidade;
  • Cansaço constante;
  • Fraqueza;
  • Dificuldade de concentração;
  • Desperdício de tempo e dinheiro fugindo de uma alimentação saudável;
  • Comportamentos repetitivos, como olhar fotos de si mesmo várias vezes e compará-las com as de outras pessoas.

O vício em academia ainda pode levar à adoção de dietas restritivas, muitas vezes baseadas no consumo exagerado de proteínas, e também ao uso de esteroides anabolizantes, acarretando diversos riscos para a saúde.

Grupos de risco

  • Pessoas que já tiveram algum transtorno alimentar anteriormente, como anorexia ou bulimia;
  • Esportistas no geral;
  • Fisiculturistas;
  • Lutadores.

Qual profissional devo procurar?

O médico psiquiatra é capaz de diagnosticar o quadro, especialmente em casos de complicações, como depressão ou comportamento suicida.

O médico nutrólogo também pode identificar e tratar o transtorno. Muitas vezes, ele atende o paciente a partir de um familiar que está preocupado com a sua forma de alimentação e o excesso de exercícios físicos. Dessa forma, por meio de exames laboratoriais, identifica-se carências ou excessos de nutrientes.

Diagnóstico

A suspeita do quadro normalmente surge em consultas devido às lesões adquiridas pelo excesso de treino e sobrecarga dos músculos.

Já o diagnóstico é baseado em avaliação psicológica que analisa os fatores de risco, pensamentos, comportamentos e sentimentos relatados à dismorfia, além do histórico familiar e pessoal do paciente.

É bastante provável que os profissionais de saúde em maior contato com esses pacientes sejam os ligados à prática de exercícios físicos, como médicos especialistas e educadores físicos. Ou seja, esses são os profissionais com maior possibilidade de se deparar com o transtorno e identificá-lo ainda em sua fase inicial.

Tem cura?

Sim. Para isso, é preciso melhorar o estilo de vida do indivíduo e fazê-lo se concentrar em atividades além das físicas, como trabalho, estudo, relacionamentos, entre outras.

Ou seja, cuidar da mente e de como o indivíduo se enxerga partir das influências externas é de extrema importância.

Em quadros graves, a cura pode demora mais tempo e existe riscos de recaídas.

Tratamento para vigorexia

 

Mulher olhando a barriga no espelho.

ronstik/ShutterStock

A maior dificuldade dos pacientes com vigorexia é admitir que apresentam o transtorno, já que acreditam que não há nada de errado com seu comportamento.

O tratamento é multidisciplinar e inclui psiquiatra, psicólogo, nutrólogo e nutricionista, que devem trabalhar em equipe.

No início, o paciente pode precisar fazer uso de medicamentos, especialmente se tiver alguma comorbidade psiquiátrica – existência de duas ou mais doenças simultaneamente –, por exemplo, transtorno obsessivo-compulsivo.

Deve-se realizar a correção das alterações laboratoriais do paciente com suplementação indicada pelo nutrólogo e, se necessário, com a readequação da alimentação e da frequência dos treinos.

O tratamento psicológico também é muito importante e é realizado por meio da terapia, especialmente a cognitivo comportamental, eficaz em transtornos de imagem distorcida.

Prognóstico

O prognóstico é bastante delicado. Portanto, para que o tratamento seja efetivo, é preciso muita determinação do paciente.

Muitos apresentam recaídas, por isso o acompanhamento médico e até mesmo emocional por parte da família e amigos é de extrema importância.

Riscos

Os riscos apresentados por um quadro de vigorexia não tratado adequadamente são muito graves:

  • Depressão;
  • Comportamento suicida;
  • Agressividade;
  • Deficiência de nutrientes;
  • Insuficiência renal e hepática;
  • Problemas cardiovasculares;
  • Lesões nos músculos, articulações e ligamentos;
  • Diminuição da atividade reprodutiva;
  • Alterações hormonais.

Apesar de sua incidência ser mais frequente em homens, a vigorexia também pode atingir mulheres.

Prevenção

A melhor e mais eficaz forma de se prevenir contra a vigorexia é a informação correta. Acompanhamento especializado e adequado na hora do exercício físico é muito importante para que o problema seja evitado.

É preciso esclarecer que nem todos os fisiculturistas ou as pessoas com músculos muito proeminentes são vigoréxicos. Pelo contrário, é possível alcançar um corpo extremamente definido sem fazer uso de substâncias prejudiciais e treinando com frequência saudável.

Portanto, é preciso ficar atento aos sinais e buscar ajuda profissional se observar o vício em si mesmo ou em alguma pessoa conhecida.

 

Fonte

Maria Del Rosário Zariategui, médica nutróloga e diretora do Departamento de Transtornos Alimentares da Associação Brasileira de Nutrologia (ABRAN) – CRM 6594 / RQE 2035

American Psychiatric Association. Body dysmorphic disorder. Disponível em: Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders DSM-5. 5th ed. Arlington. www.psychiatryonline.org

Anxiety and Depression Association of America. Body dysmorphic disorder. Disponível em: www.adaa.org/understanding-anxiety/related-illnesses/other-related-conditions/body-dysmorphic-disorder-bdd