Úlcera gástrica: sintomas, risco de câncer, tratamento e mais

19 de setembro de 2018

|

POR Lucas Coelho

Úlcera gástrica (também chamada de úlcera no estômago ou úlcera péptica) é uma ferida que afeta a mucosa do esôfago, estômago ou duodeno devido à corrosão do revestimento interno por ácido gástrico e sucos digestivos.

Apesar de ser popularmente associada apenas à gastrite, trata-se de um problema de causas variadas e que pode, inclusive, não manifestar sintoma algum. Um quadro de úlcera que não recebe tratamento adequado facilmente resulta em complicações sérias e que podem levar à morte.

Tipos de úlcera

De maneira geral, não há grande diferença entre uma úlcera e outra. Os tipos nos quais elas são classificadas vão de acordo com o local no qual aparecem, como no caso da úlcera péptica e esofágica.

Gástrica

É a primeira das úlceras pépticas — nome dado quando a ferida acontece nas paredes internas do estômago.

Duodenal

É o segundo tipo de úlcera péptica, o qual tem relação íntima com a gástrica. Ela é chamada assim quando a ferida acontece no duodeno, que é a parte inicial do intestino delgado, ligada ao estômago.

Esofágica

Acontece no esôfago, o canal ligado à faringe que leva o alimento até o estômago. As úlceras esofágicas são mais raras e estão relacionadas com refluxo e também com estresse. São mais comuns em pacientes em estado de saúde grave por conta de outras patologias.

Causas

 

Úlcera no estômago.

Kateryna Kon/Shutterstock

“Seu aparecimento é decorrente do desequilíbrio entre a produção do ácido clorídrico e o muco protetor da mucosa, o qual pode ser ocasionado por uso de medicamentos como anti-inflamatórios, infecção por bactéria Helicobacter pylori e estresse”, afirma a endoscopista Liete Camara, coordenadora do serviço de endoscopia e colonoscopia do Hospital São Lucas de Copacabana, do Rio de Janeiro.

Entenda mais sobre cada uma das possíveis causas de úlcera:

H. pylori

A infecção por esta bactéria é a causa mais comum para o aparecimento de gastrite e úlcera. Trata-se de uma infecção bastante fácil de ser transmitida, pois o micro-organismo se encontra na saliva, nos dentes e nas fezes do infectado.

Assim, de acordo com um artigo do Dr. Nimish Vakil, médico e professor da Escola de Medicina e Saúde Pública da Universidade de Madison, nos Estados Unidos, essa bactéria é responsável por 50% a 70% dos casos de úlceras duodenais e 30% a 50% dos casos de úlcera no estômago.

Anti-Inflamatórios

Segunda causa mais comum para o aparecimento de úlceras, os medicamentos anti-inflamatórios correspondem a aproximadamente metade dos casos do problema.

Vale ressaltar que somente pequena parcela das pessoas que fazem uso deste tipo de medicamento desenvolve o problema. Por ser administrado mais comumente em crianças e idosos, estes dois grupos etários requerem cuidado especial neste sentido.

Estresse

Não é frescura ou apenas “psicológico”: níveis elevados de estresse podem causar úlceras. No artigo do Dr. Vakil, é citado, por exemplo, a observação do aumento da quantidade de úlcera nervosa em Nova York após os ataques de 11 de setembro de 2001.

Síndrome de Zollinger-Ellison

Trata-se de uma doença rara que faz com que o estômago produza nível elevado de ácido, o que gera o aparecimento recorrente de diversas úlceras pépticas.

Outras causas

Além dos casos citados acima, outras condições têm relação menos comum, mas também podem causar úlceras, tais como infecções, doença de Crohn, neoplasias (tipos específicos de cânceres, como linfoma) e distúrbios da tireoide (como hiper e hipotiroidismo).

Fatores de risco

A infecção por H. pylori é o fator de risco mais óbvio. É comum que essa bactéria infeccione diversos membros de uma mesma família, justamente por ser facilmente transmitida.

O alcoolismo também é um fator de risco para o aparecimento de úlceras pois a ingestão de álcool eleva a produção de ácido gástrico.

Além disso, fumantes também apresentam maior incidência de úlceras pépticas e respondem mais lentamente aos tratamentos.

Sintomas

“A úlcera pode não gerar sintoma algum, contudo, há quem sinta dor abdominal na parte superior, próxima à região abaixo do diafragma. Ela ainda piora com estômago vazio, causando náuseas e vômitos, inclusive com sangue”, cita a médica Liete Camara.

Muitas vezes, os sintomas são resultados de complicações de úlceras assintomáticas. Por isso, é preciso ficar atento aos fatores de risco. Além disso, crianças e idosos, podem não reclamar de desconforto algum e só perceberem o problema num estágio mais grave.

Mais especificamente falando da úlcera duodenal, pode haver um padrão de comportamento recorrente em determinados momentos do dia, como no meio da noite.

Diagnóstico

 

Endoscopia digestiva alta

Doro Guzenda/Shutterstock

Qualquer clínico geral ou médico que acompanhe o paciente pode suspeitar de úlcera, por conta dos sintomas e histórico clínico e familiar, e requerer exames para identificação.

O mais comum é a endoscopia digestiva, a qual consiste na inserção de um tubo flexível pela boca que capta imagens dos órgãos internos. Também pode ser feita biópsia para determinar se há a presença de H. pylori ou células cancerígenas.

Por fim, exames de sangue complementares podem ser prescritos para identificar causas mais raras.

Complicações

Por se tratar de uma lesão interna, a complicação mais grave é a ocorrência de hemorragia, sangramento que pode ser percebido por sangue nas fezes ou no vômito.

“Há casos profundos que podem até mesmo perfurar a parede do órgão afetado, o que é tratado com cirurgia de emergência”, atenta a endoscopista Liete. Se não tratada, a úlcera estourada pode se estender para a parede de outros órgãos próximo, como pâncreas ou fígado.

Mesmo que a úlceras se cure sozinha, a cicatrização pode obstruir o tubo digestivo, sendo mais comum no duodeno. Isso dificulta a digestão e se manifesta com vômitos corriqueiros após qualquer refeição.

Pode virar câncer?

A chance de transformação da úlcera em câncer de estômago é pequeno, mas possível.

É grave?

De acordo com um artigo publicado por especialistas da Fundação Instituto Oswaldo Cruz, Instituto Nacional do Câncer e da Fundação Cesgranrio, a prevalência de úlcera em homens e mulheres no Brasil é de respectivamente 0,2% e 0,1%.

De maneira geral, a taxa de mortalidade é de 3 a cada 100 mil habitantes. Todas as complicações citadas, se não tratadas a tempo, podem levar à morte.

Tem cura?

Úlcera tem cura, mas ela depende da origem do problema em cada paciente.

Tratamento

Medicamentos

“O tratamento da H. pylori é feito com uso de medicamentos e sua cura ocorre em 6 a 8 semanas”, afirma Camara. “São usados antibióticos e também bloqueadores dos receptores de  H2 ou inibidores da bomba de prótons (como o famoso omeprazol)”, finaliza.

Dieta

Outra parte importante do tratamento é uma dieta saudável e que não aumente a acidez do estômago.

Cirurgia

Caso a úlcera apresente sangramento, deve ser realizada uma cirurgia por endoscopia que, na maioria das vezes, consegue controlar o quadro. Também pode ser necessária a realização de cirurgia aberta em casos mais graves.

Prognóstico

Com o tratamento correto, a maioria dos casos de úlcera é completamente curada. A infecção por H. pylori precisa ser combatida também e é raro que o problema retorne se a bactéria for erradicada.

Prevenção

Além de evitar o fumo e o álcool, mantendo uma dieta equilibrada, é recomendado fazer acompanhamento médico sempre que fizer uso de medicamentos anti-inflamatórios.

Para evitar a infecção por H. pylori, é indicado manter medidas de higiene (como lavar as mãos antes de comer e não compartilhar talheres).

 

Fontes

Mayo Clinic

Manual Merck para Família

Diretrizes da Federação Brasileira de Gastroenterologia