Tétano: o que é, sintomas, vacina e como tratar

Atualizado em 22 de outubro de 2018

|

POR Manuela Sampaio

Com o advento da vacina, o tétano passou a ser cada vez menos frequente. Hoje, é considerado um acometimento raro, mas ainda existe: segundo o Ministério da Saúde, foram 230 casos no Brasil durante o ano de 2017.

A imunização é crucial, já que o tétano tem alta letalidade e pode ser fisicamente e psicologicamente muito desgastante para quem o contrai. Veja mais detalhes a seguir.

O que é tétano?

O tétano é uma infecção aguda e potencialmente grave causada por esporos que penetram o organismo por meio de lesões na pele e dão origem ao bacilo tetânico: a bactéria Clostridium tetani.

No organismo, o agente passa por um período de incubação médio de sete dias e, em seguida, gera sintomas relacionados a hiperexcitabilidade do sistema nervoso e intensa tensão muscular.

Tipos

De acordo com o infectologista Roberto Focaccia, consultor da Sociedade Brasileira de Infectologia e Livre-Docente pela Universidade de São Paulo (USP), o tétano pode ser leve, moderado ou grave, a depender de fatores como falta de oxigênio local (a bactéria é anaeróbica, ou seja, se reproduz em ambiente sem o gás) e estado imunológico do paciente.

Tétano generalizado

Tipo mais comum da doença, afeta o corpo todo.

Tétano localizado

Gera sintomas apenas nos locais próximos à lesão na pele

Mal de Sete Dias (Tétano neonatal)

Começa por causa da higienização inadequada do coto umbilical, com fumo, folha de bananeira e outros itens impróprios.

O tétano neonatal, inclusive, é sinônimo de tétano umbilical e passou a ser popularmente chamado de “mal de sete dias”, como mostrou análise feita por pesquisadores da Universidade de São Paulo.

De acordo com o Departamento de Saúde do Governo do Estado de São Paulo, o nome é proveniente do tempo de incubação da doença – ou seja, até que haja a manifestação dos primeiros sintomas – que é de justamente uma semana.

Tétano odontológico

Causado por má conservação dos dentes.

Tétano obstétrico

Acontece por infecções durante aborto e más práticas obstétricas, como veremos a seguir.

Causas

O tétano é causado pela bactéria Clostridium tetani que libera uma toxina chamada tetanospasmina. Essa substância age inicialmente sobre as terminações nervosas periféricas e, por meio delas, chega ao Sistema Nervoso Central, onde bloqueia a inibição das terminações nervosas, gerando um estado de hiperexcitabilidade do sistema nervoso.

Há diferentes formas de contágio. Segundo o infectologista, os meios de infecção mais comuns atualmente são:

  • Por ferimento contaminado com esporos tetânicos (arame, latas, facões, espinhos, pregos enferrujados que encontrando condições teciduais sem oxigênio e se transformam em bacilos tetânicos produtores de toxinas que causam a doença);
  • No recém-nascido, devido à colocação de substâncias contaminadas no coto umbilical;
  • Por meio de dentição malconservada (“tétano odontológico”) por onde os esporos penetram;
  • Por aborto provocado com a introdução de itens contaminados ou más práticas obstétricas (“tétano obstétrico”) .

Mais raramente, podem provocar tétano, queimaduras, injeções não esterilizadas, fraturas expostas, perfuração de orelhas, entre outros.

Vale lembrar que materiais enferrujados facilitam a transmissão da doença porque a oxidação que ocorre neles é um bom “abrigo” para a bactéria anaeróbica, mas outros materiais, como fezes de animais, também podem contê-la.

Fatores de risco

Os dois fatores de risco para o tétano são:

  • Ter sido exposto aos esporos do bacilo tetânico por meio de material contaminado
  • Não ter recebido a vacina contra a doença

Sintomas

Roberto Focaccia explica que o tétano se manifesta com sintomas neuromusculares (contraturas musculares locais ou generalizadas mantidas) e espasmos súbitos generalizados (abalos, contraturas, convulsões) desencadeados por estímulos sensitivos como corrente de ar, alteração de temperatura, manipulação táctil e estímulos sonoros. “A presença desses dois sintomas fecha o diagnóstico de tétano”, diz o especialista.

No recém-nascido, além desses sintomas, o bebê adota uma postura característica com as costas arqueadas e cabeça jogada para trás.

Nas formas leves, não ocorrem as contrações súbitas. Nas formas moderadas, o paciente apresenta dificuldades de deglutir (contratura muscular da faringe) e rigidez de nuca. Nas formas graves, podem haver alterações cardiocirculatórias causadas pelo estímulo da toxina sobre a glândula suprarrenal, que libera catecolaminas, substâncias que agem sobre os vasos sanguíneos.

O paciente com tétano não tem febre e está consciente apesar de ficar extremamente ansioso. “Hipócrates dizia que ‘o tetânico assiste ao próprio drama’”, explica Focaccia.

A doença dura em média 10 dias e pode ser fatal por asfixia devido à contratura dos músculos da mecânica respiratória.

Diagnóstico

O infectologista explica que o diagnóstico é essencialmente clínico e que não há exames rotineiros disponíveis. “A superposição da contratura muscular generalizada e mantida associada às contraturas subentrantes em pacientes com histórico de ferimento, consciente, orientado e sem febre fecham o diagnóstico de tétano”, diz.

Qual profissional devo procurar?

Caso note sintomas de tétano, procure o serviço médico mais próximo imediatamente. O especialista ideal para tratar a doença é o infectologista.

Tem cura?

O especialista explica que o tétano pode ser totalmente curado. Os principais desafios são as intercorrências, potencialmente fatais, que ocorrem no processo.

Tratamento

Isolamento

Diagnosticado o tétano, o paciente deve ser mantido em quarto isolado do meio ambiente até que cessem as contraturas súbitas para evitar estímulos sensitivos que desencadeiem contrações. A manipulação destas pessoas também deve ser feita com muito cuidado.

Medicações e cuidados intensivos

O médico explica que são usadas medicações do tipo benzodiazepínicos (diazepan, medicamento geralmente usado para tensão e ansiedade, é o mais utilizado) para controlar as contraturas. Caso seja suficiente, associa-se a clorpromazina, medicamento que combate agitação.

“Ainda assim, se não responder, deve ser curarizado com pancurônio [estado profundo de relaxamento muscular e sedação] e ligado a um respirador artificial até cessar as contraturas”, explica o médico.

Nos casos graves, é feita a traqueostomia preventiva, visto que, caso o paciente precise do respirador artificial, pode não tolerá-lo durante as contrações. “Deve-se fazer fisioterapia respiratória para evitar pneumonia”, conta Focaccia.

Tratamento da ferida

O tratamento do tétano inclui ainda limpeza e remoção de tecidos contaminados, já que eles podem favorecer o crescimento das bactérias.

Antibióticos

Podem, ainda, ser usados antibióticos para eliminar as bactérias do foco da infecção, que é o ferimento.

Prognóstico

A letalidade da doença é alta. De acordo com o Ministério da Saúde, de cada 100 pessoas que adoecem, 30 morrerão.

Apesar de a doença ser extremamente extenuante, tanto do ponto de vista físico quanto do psicológico, o infectologista Roberto Focaccia explica que dificilmente haverá sequelas.

Complicações

Fraturas

A força das contraturas causadas pelo tétano pode causar fraturas nas vértebras da coluna. Outros ossos do corpo também podem ficar frágeis e quebradiços devido aos espasmos.

Asfixia

As contrações também podem ser fortes a ponto de impedir a respiração e causar asfixia fatal.

Pneumonia e sepse

Como o paciente com tétano precisa de internação hospitalar e pode necessitar de assistência para respirar, além de inúmeros procedimentos invasivos, tem risco aumentado para pneumonia, sepse e outras infecções.

Arritmias cardíacas

A ação do bacilo tetânico sobre o sistema nervoso pode gerar consequências cardíacas, como arritmia e taquicardia.

Prevenção: vacina contra tétano

A melhor forma de prevenir o tétano é por meio da vacinação.

O esquema de imunização começa na infância pela vacina pentavalente aos dois, quatro e seis meses. Depois disso, os reforços devem ser feitos com a vacina dT (contra difteria e tétano) de 10 em 10 anos.

Imunoglobulina antitetânica

Caso a pessoa sofra um ferimento com alto risco para desenvolvimento do tétano, ela poderá receber a imunoglobulina antitetânica, que nada mais é que uma vacina que impede o crescimento da bactéria.

Fontes

Infectologista Roberto Focaccia, consultor da Sociedade Brasileira de Infectologia e Livre-Docente pela Universidade de São Paulo (USP).

Ministério da Saúde. Situação Epidemiológica – Dados. Disponível em: portalms.saude.gov.br/saude-de-a-z/tetano-acidental/11473-situacao-epidemiologica-dados

Departamento de Saúde do Governo do Estado de São Paulo. SOBRE TÉTANO NEONATAL. Disponível em: www.saude.sp.gov.br/resources/cve-centro-de-vigilancia-epidemiologica/areas-de-vigilancia/doencas-de-transmissao-por-vetores-e-zoonoses/tetanoneo.html