Ortorexia: como identificar e tratar vício em alimentação saudável

23 de janeiro de 2019

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POR Gabriele Amorim

Ter uma alimentação equilibrada é muito importante para a saúde do organismo, porém existem limites que quando ultrapassados podem dar margem à ortorexia. Saiba o que é, como identificar e tratar.

O que é ortorexia?

A ortorexia é caracterizada pela obsessão em torno do que se come. Pessoas com este quadro apresentam uma preocupação exagerada com a qualidade da alimentação, excluindo alimentos que consideram impuros, como aqueles com agrotóxicos, conservantes, corantes, gorduras trans, açúcar, lactose e até glúten.

Sem fazer a substituição adequada dos grupos que foram excluídos, essa prática pode levar a carências nutricionais ou até a outro transtorno alimentar.

Como não está diretamente relacionada à busca pelo corpo perfeito, a ortorexia pode ser classificada como um Transtorno Alimentar Restritivo Evitativo (TARE).

Causas

Fatores culturais, sociais e psicológicos estão envolvidos nas causas da ortorexia.

Geralmente, pessoas que desenvolvem o transtorno estão em busca de uma alimentação mais saudável, mas se tornam tão radicais que o cuidado se transforma em obsessão.

Os veículos de comunicação em geral, ao propagar dietas muitas vezes sem evidências científicas, colaboram com o quadro ao incentivar pessoas a buscarem resultados rápidos e milagrosos de emagrecimento e definição, condenando ainda alguns tipos de alimentos e incentivando a busca imediata por uma vida mais saudável.

As mídias sociais são outro meio de disseminação de informações sem evidências e, ainda, espaço para leigos criarem versões distorcidas e sobre alimentação saudável, o que pode influenciar grupos mais vulneráveis. Publicações feitas por blogueiros fitness chamam seguidores com propensão a desenvolver transtornos alimentares e dão a impressão de que uma “vida perfeita” pode ser alcançada apenas pela boa alimentação.

Além disso, acontece o cyberbulling na alimentação, ou seja, pessoas que criticam ou hostilizam cruelmente a forma como o outro se alimenta.

Existe também a cybercondria, que diz respeito a indivíduos muito ansiosos que procuram informações médicas ou nutricionais na internet sem consultar um profissional da saúde e acabam comprando de forma compulsiva produtos divulgados virtualmente.

Como identificar o excesso?

Na cultura atual, quem segue dietas restritivas ou corta grupos alimentares inteiros é vangloriado. Por esta razão, muitas das pessoas que vivem com ortorexia podem ser encaradas como “saudáveis” a olhos destreinados.

Então, como diferenciar o transtorno de um estilo de vida realmente saudável? Confira os sinais mais comuns:

Fixação pela qualidade dos alimentos: quem vive com ortorexia é extremamente focado na qualidade e pureza da comida, ao invés da quantidade.

Padrões inflexíveis: quem tem o transtorno é rígido quanto a sua alimentação e dificilmente sai da linha, nem que para isso tenha de passar fome.

Turbulência emocional: caso o indivíduo acabe comendo algo que considere prejudicial à saúde, sente ansiedade, nervoso, vergonha e culpa.

Corte de grupos de alimentos inteiros: a eliminação de grupos inteiros de alimentos é uma comum para pacientes com o acometimento.

Preocupação constante com doenças: quem tem a condição acredita que ficará doente se não ingerir alimentos “completos” ou “limpos”.

Isolamento social: o indivíduo evita alimentar-se perto de outras pessoas.

Ativismo disfarçado: portadores do problema costumam fingir que não comem certos produtos, como os de origem animal, por princípios ativistas, como vegetarianismo, mas na verdade não o fazem por considerá-los impuros.

Anorexia x ortorexia

Embora os indivíduos com anorexia possam apresentar padrões similares de restrição, a ortorexia nervosa não está enraizada em obsessões sobre a aparência ou desejo de emagrecer, mas na necessidade de ser saudável.

Sintomas

A alimentação inadequada pode gerar graves déficits alimentares, que por sua vez resultam em sintomas como:

  • Deficiência de nutrientes, vitaminas e minerais no organismo
  • Anemia
  • Queda de cabelo e unhas quebradiças
  • Dificuldade de concentração
  • Falta de memória
  • Desmaios
  • Emagrecimento
  • Aborto

Fatores de risco

  • Comportamento alimentar de risco na adolescência
  • Outros casos de transtorno alimentar, como bulimia
  • Comportamentos obsessivos ou compulsivos
  • Profissionais da área da saúde ou com exposição pública, como artistas e atletas

Diagnóstico

É de extrema importância realizar o diagnóstico precoce da doença, que é clínico, já que isso evita complicações e acelera a recuperação.

Qual profissional procurar?

Como em todos os transtornos alimentares, o ideal é contar com uma equipe multidisciplinar para avaliar, diagnosticar e tratar todas as áreas afetadas, incluindo psiquiatras, nutrólogos, nutricionistas e psicólogos.

Tem cura?

Como qualquer outro distúrbio alimentar, a ortorexia tem cura. O grande problema é que a maioria dos afetados não procura ajuda pois acredita ter uma alimentação exemplar.

É um processo que requer tempo, dedicação, apoio e, principalmente, acompanhamento médico especializado.

Tratamento para ortorexia

 

Homem em consulta com médico.

Chinnapong/ShutterStock

Cada profissional deve desempenhar um papel no tratamento do paciente.

O nutrólogo deve indicar suplementos alimentares e medicamentos para as complicações.

O psicólogo entra com sessões de psicoterapia para mudar comportamentos prejudiciais e ajudar a pessoa a aceitar o problema.

O psiquiatra pode prescrever medicamentos para ansiedade, compulsão ou depressão.

Já o nutricionista pode recomendar cardápio e hábitos alimentares saudáveis, porém não danosos à saúde.

Existem relatos de casos da doença que precisaram de internação pela gravidade das complicações apresentadas. De qualquer modo, vale reforçar que o tratamento para a ortorexia deve ser individualizado, levando em conta as particularidades de cada paciente.

Prognóstico

Quanto mais cedo o problema for identificado, melhor é o prognóstico e o tratamento.

Além disso, a determinação do paciente em melhorar e se reabilitar é fundamental.

Complicações

Os riscos apresentados por quadros de ortorexia não tratados adequadamente podem ser muito graves.

Psiquiátricas

Depressão e ansiedade são frequentemente diagnosticadas por psiquiatras que acompanham os ortoréxicos.

Alimentares

As restrições alimentares também podem causar uma série de doenças, como anemia, osteopenia, déficit de nutrientes e intolerâncias alimentares, as quais prejudicam o funcionamento do organismo como um todo.

Prevenção

A ortorexia é um quadro bastante delicado, visto que há uma linha tênue entre as vantagens de se ter hábitos saudáveis e a preocupação excessiva e obsessiva em se alimentar bem.

Por isso, ao notar qualquer sinal deste comportamento obsessivo em si mesmo ou em alguém ao redor, procure ajuda o mais rápido possível.

 

Fonte

Maria Del Rosário Zariategui, médica nutróloga e diretora do Departamento de Transtornos Alimentares da Associação Brasileira de Nutrologia (ABRAN) – CRM 6594 / RQE 2035