Narcolepsia: entenda a doença que causa sonolência excessiva

19 de março de 2019

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POR Bruno Botelho dos Santos

Sentir sono depois de uma noite mal dormida é perfeitamente normal, contudo o aparecimento excessivo da sensação na maioria dos dias pode ser sinal de narcolepsia. Saiba tudo sobre a doença:

O que é narcolepsia?

Narcolepsia é uma doença neurológica caracterizada principalmente por sonolência excessiva durante o dia, mesmo quando há adequadas qualidade e quantidade de sono durante a noite, o que prejudica diversas atividades rotineiras.

O neurologista Lúcio Huebra, especialista em sono, explica que é considerada uma doença rara, acometendo de 2 a 18 pessoas a cada 10 mil habitantes.

Quais suas causas?

Ainda não se sabe o mecanismo exato que leva ao desenvolvimento da narcolepsia. Porém, existem evidências que sugerem que seja causada ​​pela falta da hipocretina no cérebro, hormônio que promove o despertar e mantém a estabilidade das fases do sono.

A carência ocorre quando o sistema imunológico desenvolve células de defesa contra o grupo de neurônios do hipotálamo lateral que é responsável pela produção da substância.

Com sua queda, a pessoa fica suscetível à maior sonolência e instabilidade do sono, sobretudo do período REM.

Possíveis gatilhos para a carência de hipocretina incluem:

  • Alterações hormonais, que podem ocorrer durante a puberdade ou a menopausa
  • Estresse psicológico
  • Pacientes com predisposição genética, quando expostos a algum gatilho ambiental (por exemplo, infecção ou vacinação)
  • Doenças neurológicas, sobretudo quando há lesão – tumoral ou inflamatória – no hipotálamo lateral

Tipos de narcolepsia

Narcolepsia tipo 1

Na narcolepsia tipo 1 a causa é melhor documentada pela observação de níveis baixos da hipocretina no líquor. Nela também acontece a cataplexia, que é a fraqueza muscular transitória.

Narcolepsia tipo 2

No tipo 2 a causa ainda permanece pouco definida, já que a pessoa apresenta quantidades normais de hipocretina, apesar da sonolência excessiva. Ela ocorre sem cataplexia.

Fatores de risco

Ainda não foram identificados fatores de riscos claros e evitáveis.

Todavia, sabe-se que certas características ambientais podem ser gatilhos para o início do quadro em pessoas suscetíveis, dentre elas:

  • Infecções por alguns vírus
  • Infecções por bactérias do tipo streptococcus beta-hemolítico
  • Traumatismo craniano
  • Tipo de vacina contra gripe H1N1 usada anteriormente.

Sintomas da narcolepsia

O problema afeta ambos os sexos de forma similar, com leve preferência pelo masculino. Seu início é mais comum em jovens, com dois picos de incidência, por volta dos 15 anos e dos 35 anos de idade.

mulher com narcolepsia bocejando
fizkes/Shutterstock

Na narcolepsia o cérebro é incapaz de regular os padrões de sono, o que pode resultar em:

Sonolência durante o dia

Esse é o primeiro e mais comum sintoma. A sonolência é importante e, em geral, pode se apresentar na forma de ataques de sono súbitos e irresistíveis, principalmente em situações monótonas. Esta ocorrência pode acontecer em situações inapropriadas, como numa reunião de trabalho, prova, entrevista de emprego, etc.

A crise é difícil de resistir. Por outro lado, há sensação de descanso completo após pequenos cochilos, de cerca de 10 a 15 minutos, até o momento em que ocorra outro ataque do sono.

Fraqueza muscular transitória

Outro sintoma é a fraqueza muscular transitória (cataplexia) que, segundo Lúcio Huebra, está presente em 65% dos pacientes. Ela ocorre após uma emoção forte, mais comumente depois de riso intenso ou gargalhadas.

O paciente pode perder a força do corpo como um todo ou só de uma parte específica, como pescoço, braço, perna ou mandíbula.

Na cataplexia o paciente continua consciente e percebe toda a situação, porém sem conseguir se mexer. Dura em geral poucos minutos e melhora espontaneamente.

Fragmentação do sono

Com a evolução do quadro pode surgir fragmentação do sono, ou seja, diversos despertares ao longo da noite e sono noturno de má qualidade.

Alucinações visuais

As alucinações visuais são frequentes próximas ao horário de dormir ou ao acordar. As pessoas podem ter visões de animais e monstros que se aproximam da cama.

Paralisia do sono

Um sintoma que perturba muito quem sofre com narcolepsia é a paralisia do sono. Ela deixa o paciente com total incapacidade de se mover.

Costuma ser muito breve, durando segundos ou poucos minutos. Alguns pacientes apresentam a paralisia em conjunto com alucinações visuais.

Diagnóstico

O diagnóstico da narcolepsia é definido por meio de uma história clínica compatível, associado à exclusão de fatores confundidores, como privação do sono, apneia do sono e trabalho de turno.

Exames

A confirmação é feita por um exame de monitoração do sono durante a noite, a polissonografia, seguida de outro exame no dia seguinte, chamado teste de múltiplas latências do sono.

Este exame determina a facilidade de iniciar o sono em cinco horários diferentes ao longo do dia (8h, 10h, 12h, 14h e 16 horas) e o surgimento precoce da fase do sono REM.

A análise do líquor através de punção lombar com dosagem de hipocretina, apesar de também ser um teste comprobatório, ainda é pouco utilizada na prática clínica.

Na suspeita da doença, a partir de sintomas compatíveis, um neurologista especialista em sono deve ser consultado para seguir a investigação e orientar o início do tratamento.

Narcolepsia tem cura?

modafinil, remédio para narcolepsia
Robert David Hart/Shutterstock

Até o momento ainda não foi descoberta a cura para narcolepsia. Porém, o tratamento é direcionado para os sintomas.

Como tratar?

Medicamentos estimulantes

Para melhorar a sonolência excessiva durante o dia, o especialista pode prescrever o uso de medicamentos estimulantes (metilfenidato e modafinil).

Eles são remédios de uso controlado que levam a um maior estado de alerta, evitando os ataques de sono.

Medicamentos antidepressivos

Para os demais sintomas, como cataplexia, paralisia do sono e alucinações relacionadas ao sono, é necessário o uso de medicações da classe dos antidepressivos.

Eles não são usados por seu efeito no humor, mas pela ação direta no sono, de modo a evitar que tais fenômenos aconteçam.

Medidas comportamentais

Medidas comportamentais também auxiliam no tratamento de narcolepsia.

Cochilos programados curtos, de duração de cerca de 15 minutos, distribuídos ao longo do dia, contribuem para que os pacientes não adormeçam em situações inapropriadas.

Quais as consequências da narcolepsia?

Quando não tratada, a narcolepsia causa importante impacto social e profissional, bem como isolamento afetivo.

Sonolência

A sonolência pode ser um fator impeditivo para o estudo, trabalho ou até mesmo a socialização.

Além da possibilidade de acidentes graves devido a sonolência excessiva durante direção automobilística, trabalho com máquinas pesadas, esportes e outras situações de risco.

Cataplexia

A cataplexia é também um sintoma que traz impacto importante. Costuma acontecer em situação de emoção forte – como risos e gargalhadas –, o que pode levar a evitá-la.

Prevenção

Ainda não existe prevenção para narcolepsia.

Portanto, o importante é buscar auxílio médico ao notar os primeiros sintomas para, deste modo, firmar o diagnóstico e tratar a narcolepsia adequadamente.

Fontes

Neurologista Lúcio Huebra, especialista em sono, membro da Academia Brasileira de Neurologia e da equipe DFV Neuro – CRM 171037

Mayo Clinic. Narcolepsy. Disponível em: www.mayoclinic.org/diseases-conditions/narcolepsy/symptoms-causes/syc-20375497

NHS. Narcolepsy. Disponível em: www.nhs.uk/conditions/narcolepsy/