Micoses podem atingir pele, unhas, couro cabeludo e até a virilha

05 de dezembro de 2017 ● POR Lucas Coelho

Conforme a temporada de calor se aproxima, os comerciais de cerveja e protetores solar tomam conta da televisão, vêm as pancadas de chuva nos finais de tarde e permanecer dentro de um escritório enquanto o sol brilha lá fora fica ainda mais difícil. Mas algo chato também acontece em nossos pés, mãos, couro cabeludo e unhas nessa época mais quente e úmida: as micoses.

Não é exclusividade da primavera e do verão, mas as micoses aparecem mais nessas estações porque são doenças causadas por diversos tipos de fungos que encontram alguma forma de invadir o nosso corpo e se reproduzirem. E, de maneira geral, os ambientes ideais para reprodução dos fungos são justamente os quentes e úmidos.

Por isso, quando no verão nossos pés passam o dia suados, enfurnados dentro de sapatos e meias, é comum que a micose apareça. Aliás, o pé é o local mais comum de ser afetado, com aquela coceira danada entre os dedos que nada mais é do que uma micose menos agressiva que chamados de frieira ou pé-de-atleta.

O que é micose, então? Basicamente, são doenças produzidas por diferentes fungos que afetam a pele, o couro cabeludo ou as unhas e que começam a se reproduzir na região, causando uma espécie de infecção. Em casos mais graves e raros, ela pode se espalhar também para dentro do corpo, chegando até aos nossos órgãos internos.

Tipos e sintomas

As micoses podem ser superficiais (quando estão na epiderme), subcutâneas (quando atingem a derme e a hipoderme) ou sistêmicas (quanto atingem órgãos internos). Dependendo do tipo de fungo e de onde ele se estabelece, é dado um nome diferente à infecção, e os sintomas também irão variar.

Candidíase

Uma das micoses mais comuns é candidíase, ou candidose, causada por um fungo chamado Cândida. Ela aparece bastante em bebês e crianças, mas também afeta vaginas e pênis de mulheres e homens adultos, respectivamente

Em bebês, a candidíase pode ser encontrada na língua e na mucosa da boca, na presença de bolinhas brancas. Trata-se do famoso “sapinho”.

Tinha

A tinha é uma micose extremamente corriqueira em pessoas de todas as idades, que pode afetar a pele ou o couro cabeludo.

Traz coceira, descamação e até rachaduras na pele, e aparece bastante na região das virilhas ou entre os dedos dos pés — neste caso sendo chamada de pé-de-atleta ou frieira.

Se a micose acontecer no couro cabeludo ou em locais com bastante pelos, como a barba, pode causar queda dos fios.

Pitiríase Versicolor

A pitiríase versicolor é aquela micose observada como pequenas manchas em alguma região do corpo — geralmente nas costas por causa da oleosidade da pele. Essas manchas são resultado de descamações leves na pele e podem não causar qualquer reação, mas também devem ser tratadas.

Se a micose afetar a unha, ela é chamada de onicomicose, e existem diversas variações para ela. Tudo depende de qual o dermatófito (fungo) que infectou a unha e qual estrutura da unha foi afetada (matriz, cutícula e lâmina, entre outras). A onicomicose também pode ser resultado da ação de leveduras ou de outros organismos, mas estes são casos mais raros.

Os principais sinais de que algo está errado numa unha são fáceis de perceber. É possível que ela fique completamente amarelada, rachada, quebradiça, meio descolada da pele, deformada ou com manchas brancas.

Em casos graves, o paciente pode sentir dores ou perceber um cheiro ruim na unha, e ela pode ficar com um aspecto completamente escuro, como se estivesse podre.

Sobre as micoses subcutâneas, a coordenadora do Departamento de Micologia da Sociedade Brasileira de Dermatologia, Regina Schechtman, explica que elas tendem a surgir como abscessos na pele. Dependendo do agente causador, podem aparecer lesões e ocorrer a proliferação de verrugas, além de degenerações graves da epiderme em condições mais raras.

“Já as micoses sistêmicas são capazes de causar quadros de infecções pulmonares, cerebrais e até mesmo meningite e osteomielite — principalmente em pacientes debilitados”, completa a dermatologista.

Transmissão e causas das micoses

Juntamos os dois conceitos de transmissão e causa, pois o aparecimento da micose depende tanto do simples contato com um fungo como da saúde de cada pessoa.

Esses fungos geralmente não causam reação alguma quando vivem na camadas externas da pele, composta de células mortas, mas conforme se estabelecem mais profundamente, começam a causar problemas mais sérios.

A maioria dos casos de micose é superficial e deve-se ao contágio que pode vir de outra pessoa, de animais, do solo, tecidos ou de vários outras lugares.

De acordo com a especialista Regina Schechtman, também existem as micoses subcutâneas e sistêmicas. “Elas se diferenciam basicamente pela via de penetração do fungo”, explica.

“Nas micoses subcutâneas, o trauma desempenha um papel fundamental, e a contaminação ocorre por contiguidade (proximidade dos tecidos e da área contaminada) ou por disseminação linfática (por meio do sistema linfático)”, diz a especialista.

Ou seja, o fungo penetra através de cortes causados por superfícies contaminadas – geralmente espinhos, plantas, madeira ou animais.

“Já nas micoses sistêmicas, o contágio se faz por inalação de esporos e a propagação das partículas do fungo, que ocorre pela linfa e pelo sangue”, completa Regina. O perigo, assim, é ela se espalhar para os órgãos, causando graves infecções.

Principais grupos de risco

Não é fácil de destacar grupos de risco para micoses superficiais, pois tudo depende do contato com fungo, que pode acontecer em quase todos os ambientes. No entanto, trabalhadores rurais, ou que mexam com terras e vegetais, e crianças que brincam em ambientes abertos estão mais expostos à doença.

As micoses subcutâneas e sistêmicas têm suas particularidades porque dependem mais da resposta imunológica de cada paciente. Segundo explica Regina Schechtman, pacientes com diabetes que fazem uso de corticoides por via oral durante logos períodos, pacientes transplantados (que passaram por transplante de órgãos), pessoas com Aids ou que estejam tratando câncer são os mais susceptíveis a essas micoses — justamente porque estão com a imunidade comprometida.

Diagnóstico

A cultura de fungos analisa o material da mucosa, da pele, pelos, unhas, linfa ou sangue — de acordo com o quadro clínico e a área afetada. Somente assim é possível descobrir exatamente qual micose está acometendo o indivíduo.

Tratamento

Diante de tantas variações, os tratamentos também devem se adequar de acordo com cada caso, fungo, levedura ou outro organismo específico que tenha provocado a micose.

Como explica Regina Schechtman, o tratamento das micoses pode ser dividido em duas modalidades: tópico e sistêmico. “A maioria das micoses superficiais é tratada com medicações de uso local, como cremes, pomadas ou loções que contém um agente antifúngico específico.”

“Os antifúngicos são substâncias antibióticas ou quimioterápicas que agem direta ou indiretamente contra os fungos e, por consequência, são empregadas no tratamento das micoses”, explica ela.

Os tratamentos podem variar de uma semana a mais de um mês, dependendo da localização e extensão do problema. “O tratamento das unhas pode ser mais demorado e exigir medicação sistêmica por via oral”, completa.

Já as micoses subcutâneas e sistêmicas requerem abordagens mais agressivas, que podem ser feitas tanto por medicamentos orais ou até por via endovenosa.

Como se prevenir das micoses?

As formas de fugir das micoses mais corriqueiras são bastante simples.

Primeiramente, deve-se evitar ficar com a pele molhada por tempo demais. Não só literalmente molhada, mas úmida também. Tire aquela meia, cueca, calcinha ou camiseta suada assim que chegar em casa.

Depois do banho, procure secar bem as regiões que logo serão cobertas por alguma peça de roupa ou acessório, como a virilha e os pés.

De modo geral, manter a pele seca é muito importante. Mas atenção: mantê-la seca é diferente de deixá-la ressecada, assim como úmida/molhada é diferente de hidratada. Para isso existem cremes e loções específicas que ajudam, além dos talcos.

Com crianças pequenas, os cuidados devem ser dos pais. Na praia, por exemplo, a areia pode estar cheia de fungos, e deixar o bebê sem fraldas ou até descalço é um risco. Ao mesmo tempo, passar o dia inteiro com um calçado fechado também ajuda na proliferação dos fungos, então é importante deixar o pé “respirar” e preferir meias de algodão às de outros materiais.

De maneira geral, a higiene é o fator mais importante, e seguindo essas simples recomendações você já consegue se livrar da coceira incômodo provocada pelas micoses.