Malária: incidência, sintomas e tratamentos da doença

22 de junho de 2018

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POR Lucas Coelho

Há várias décadas a malária não é uma doença predominante no território brasileiro. Mais restrita à região amazônica, os casos da infecção vinham caindo continuamente nos últimos anos, mas entre 2016 e 2017 o número de pessoas infectadas no Brasil aumentou de maneira significativa, gerando preocupação sobre o futuro de uma doença que está basicamente erradicada na maioria dos estados.

É uma infecção causada por um protozoário chamado de Plasmodium. Esses protozoários são transmitidos para os humanos através da picada dos mosquitos fêmeas da espécie Anopheles, que no Brasil também é conhecido como mosquito-prego. De forma mais rara, também é possível contrair através de transfusão de sangue feita com um sangue contaminado.

O primeiro lugar que o protozoário se instala no corpo humano é no fígado, onde ele se reproduz dentro das células hepáticas até elas serem destruídas. Então, os protozoários liberados parasitam os nossos glóbulos vermelhos, novamente repetindo o processo de reprodução assexuada até que a célula sanguínea seja destruída também e o ciclo recomece.

Incidência no Brasil e no mundo

“A malária é uma doença que causa centenas de milhões de casos e cerca de meio milhão de mortes anualmente em países da zona tropical ao redor do mundo”, afirma o infectologista do Hospital Santa Paula, de São Paulo, Dr. Marcelo Mendonça. “No Brasil, temos cerca de 300 mil casos ao ano, mais de 99% deles na Amazônia.”

Segundo a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), o Brasil registrou entre 2016 e 2017 um aumento de 48% nos casos. Isso é alarmante, especialmente se for considerado que na última década o número apresentava consecutivas quedas. O estado mais afetado foi o Amazonas (74 mil casos), seguido por Pará (33 mil casos), Acre (32 mil casos) e Tocantins (apenas 71 casos). No total, o número em território nacional saltou de 117.832 para 174.522.

Esse aumento tem sido a tendência do continente americano, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS). Mesmo assim, a grande maioria dos casos de ao redor do globo se concentram na África (90%) e sul da Ásia (7%). Entre 2010 e 2016, a instituição afirma que houve uma diminuição de 18% no número de casos anuais, caindo de 76 para 63 infectados a cada mil pessoas no mundo.

A OMS reporta que, em 2016, a malária matou 445 mil pessoas, com 97% destas mortes acontecendo na África e na Ásia. No entanto, a mortalidade aumentou nas Américas e na região do oeste mediterrâneo, que engloba também alguns países do nordeste africano, como Egito, Sudão e Líbia.

Mais de um parasita

Existem quatro tipos de Plasmodium que podem infectar os humanos com malária. No Brasil e em toda a região amazônica, o mais predominante deles é chamado de Plasmodium vivax, enquanto na África, por exemplo, predominam o P. falciparum e P. Ovale. Além deles, existe o protozoário chamado P. malariae.

Sintomas da malária

De maneira geral, ela não evoluiu para a forma cerebral. “O sintoma clássico da malária são os ataques paroxísticos, a ocorrência cíclica de uma sensação súbita de calafrios seguida por febre e sudorese (transpiração) intensa”, diz Mendonça.

A recorrência destes sintomas varia conforme o tipo da doença. “Estes sintomas ocorrem a cada dois dias em infecções por Plasmodium vivax e Plasmodium ovale e a cada três dias em infecções por Plasmodium malariae”, explica o médico. Já a infecção pelo P. falciparum por provocar febre recorrente a cada 36 ou 48 horas, ou até uma febre menos aguda, porém contínua.

Além da febre característica, os pacientes sofrem com:

Complicações

Cada um dos protozoários age de maneira diferente, podendo desenvolver também versões diferentes da doença. O mais preocupante deles é o Plasmodium falciparum, que pode causar o que é chamado de malária cerebral.

Conforme explica o Dr. Marcelo, “os indivíduos com malária cerebral apresentam diversos sintomas neurológicos, entre eles convulsões e coma, podendo levar à morte.”

O paciente também pode desenvolver a chamada Síndrome do Desconforte Respiratório. Isso se caracteriza por uma dificuldade cada vez maior em respirar, requerendo mais e mais esforço por parte do doente. Além do estresse psicológico, o paciente também pode desenvolver pneumonia, anemia, edemas pulmonares e aumento da acidez no sangue.

Por fim, também pode desenvolver a chamada Febre da Água Negra. Isso acontece porque quando os glóbulos vermelhos arrebentam, a hemoglobina que eles continham é liberada diretamente na urina. Com isso, os rins ficam sobrecarregados, pois precisam filtrar a hemoglobina em excesso, o que pode causar insuficiência renal.

Relação com a gravidez

O primeiro perigo de uma gestante infectada é que a doença pode ser passada ao feto através da placenta. Além disso, também pode provocar lesões na placenta, o que pode criar uma maior dificuldade no transporte de nutrientes e oxigênio entre a gestante e o bebê.

As grávidas precisam ter atenção redobrada nestes casos porque tudo pode afetar significativamente a gestação. As consequências podem ser o aborto, o parto prematuro e recém-nascidos com peso baixo. “Em casos mais severos, a doença pode mesmo levar à morte da gestante”, alerta Mendonça.

Diagnóstico

A recorrência de febres, especialmente por quem acabou de visitar áreas endêmicas, e alguns outros sinais – no caso da cerebral, por exemplo, por vezes ocorrer o branqueamento da retina – podem indicar a doença, mas o diagnóstico só pode ser confirmado através de uma análise laboratorial.

O processo é bem simples, através da coleta de sangue com uma picada na ponta do dedo do paciente. O exame procura a presença do protozoário no sangue, e assim define-se o diagnóstico.

Prevenção

Como o mosquito-prego vive basicamente em zonas tropicais e subtropicais, populações que habitam estas regiões já tem no seu ambiente um fator de risco. A doença é mais predominante em populações de baixa renda, que têm condições precárias de residência e vivem em localizações próximas a ambientes mais naturais das espécies do Anopheles.

Diversas medidas simples que servem para evitar a reprodução de qualquer mosquito e evitá-lo de entrar em casa são recomendadas. Acabar com água parada, colocar telas nas janelas e portas e utilizar repelentes são formas importantes de combate.

O problema maior é que o controle da população dos mosquitos pelos órgãos de saúde pública ocorre de maneira eficaz apenas em áreas urbanas. Nas áreas de floresta, este controle torna-se impossível. Logo, quem vive nestas áreas ou for viajar para regiões endêmicas deve consultar um médico que fornecerá as informações necessárias para a prevenção.

Tratamento

“Existem inúmeros esquemas de tratamento”, diz o Dr. Marcelo. “Para o Plasmodium vivax, usa-se a Cloroquina, um fármaco, associada à Tetraciclina, um antibiótico. Para o Plasmodium falciparum podem ser utilizados esquemas à base de Quinino, Mefloquina, Artemisina, Clindamicina etc.”

Essa lista de medicamentos é fundamental. Ao contrário do que muitos acreditam, malária tem cura, mas é preciso seguir o tratamento indicado pelo médico.

O tratamento geralmente é longo, continuando mesmo após os sintomas terem desaparecido, pois o protozoário seguirá dentro do corpo.