Intolerância ao glúten: como identificar e tratar

09 de janeiro de 2018

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POR Bruno Botelho dos Santos

A intolerância ao glúten é um problema extremamente comum que afeta milhões de brasileiros. A ocorrência é tão grande que diversas marcas de produtos alimentícios, cientes da enorme demanda, passaram a comercializar variedades livres de glúten — e até de lactose, neste caso para quem sofre deste tipo específico de intolerância.

Retirar a substância de alguns alimentos que tradicionalmente têm glúten na composição foi uma medida importante e que ajuda muito quem já não consegue comer pães, massas, biscoitos e até pizzas sem submeter o próprio organismo a diversos riscos e problemas de saúde.

Mas muitas pessoas que sofrem com intolerância ao glúten e manifestam os sintomas não sabem que é este o problema. Isso porque ele pode ser confundido facilmente com alergias alimentares ou, dependendo, até com outros problemas de saúde que nada têm a ver com alimentação.

Então, é fundamental entender o que é este tipo de intolerância alimentar e entender quais são os seus sintomas mais frequentes para evitar os efeitos colaterais da ingestão de glúten.

Intolerância ao glúten: o que é?

A intolerância ao glúten nada mais é do que uma reação negativa do organismo a esse componente, que é bastante comum em alimentos tradicionais da mesa do brasileiro.

O glúten é uma combinação de dois grupos de proteínas, a gliadina e a glutenina, que podem ser encontradas dentro dos grãos de trigo, cevada e centeio. Ele não é uma substância natural dos alimentos. Na realidade ele é muito usado para “melhorar” a qualidade de algumas comidas e deixá-las mais resistentes.

No caso das massas, por exemplo, o glúten ajuda a torná-la mais elástica, o que a impede de arrebentar quando esticada durante o preparo.

Dois diagnósticos possíveis

Existem dois diagnósticos com alterações gastrointestinais diferentes para a intolerância ao glúten: a doença celíaca ou a sensibilidade ao glúten não celíaca.

A doença celíaca é uma doença autoimune crônica e que afeta o intestino delgado, causada por uma reação adversa ao glúten em pessoas que apresentam uma predisposição genética. Neste quadro, um componente do sistema imunológico faz com que a mucosa do intestino se inflame, causando uma série de problemas ao organismo.

No caso da sensibilidade ao glúten não celíaca, o alimento que contém glúten também não é bem aceito pelo organismo, mas nela não ocorre um impacto tão grande como no caso da doença celíaca.

Essa sensibilidade é mais um desconforto, sendo que os sintomas estão basicamente relacionados ao processo de digestão. Ela prejudica a qualidade de vida em razão das dores e incômodos que provoca, mas não se trata de um problema autoimune e não acarreta em distúrbios nutricionais.

Sintomas da intolerância ao glúten

Problemas de digestão

Um dos principais sintomas da intolerância ao glúten são os problemas na digestão, como irritação no intestino, dor de estômago, inchaço e gases. Tudo isso é causado porque o corpo não consegue digerir o glúten, o que acaba provocando diversos problemas no sistema digestivo.

Problemas na atividade do cérebro

A ingestão de glúten em quem tem intolerância pode atrapalhar a atividade do cérebro. A pessoa pode sentir tonturas, confusão, desorientação e até mesmo sensação de cansaço após a refeição.

Mal-estar abdominal e dor muscular

Quando há intolerância, pode aparecerem sintomas como excesso de gases, barriga inchada, diarreia e prisão de ventre. Além do mal-estar abdominal, as células do intestino também ficam danificadas, causando má absorção de vitaminas e minerais.

Em alguns casos, o quadro pode se agravar e levar à fibromialgia, uma doença caracterizada por dores intensas na musculatura, articulações e tendões. Os inchaços também são comuns, principalmente nas articulações dos dedos, dos joelhos e do quadril.

Dores de cabeça

Dores de cabeça após a refeição — cerca de 30 a 60 minutos — também podem ser um sintoma de intolerância ao glúten. A razão para isso é que o glúten pode desencadear uma série de processos inflamatórios no organismo, causando algumas reações no sistema nervoso. As dores variam de intensidade, podendo ser leves e até enxaquecas.

Intolerância à lactose

As duas intolerâncias mais comuns, de glúten e de lactose, podem aparecer juntas. Não à toa, pessoas que já têm o diagnóstico de intolerância à lactose costumam ter mais chances de apresentar intolerância a alimentos que levem trigo, cevada e centeio.

Problemas de pele

O corpo pode ainda manifestar alguns sintomas específicos na pele, como coceira, irritações, ressecamento, erupções cutâneas, eczema e queratose pilar. Os locais mais comuns em que ocorrem essas reações são nas coxas, rosto e braços. Dependendo do caso e do organismo de cada um, esses sintomas podem se agravar levando a quadros de psoríase e lúpus — sendo esta última uma condição autoimune.

Mudanças no humor

Por causa do mal-estar e da indisposição intestinal provocados pela reação do organismo ao glúten, é normal que as pessoas que sofrem do problema apresentem mudanças de humor, tendo episódios de irritação, ansiedade e tristeza. Isso tende a ocorrer mais após as refeições.

Cansaço e fadiga também acabam aparecendo justamente por causa disso, já que o corpo que não recebe bem o glúten tenta combater a inflamação no intestino, elevando o gasto de energia.

Mas como sei que tenho intolerância ao glúten?

Não existe somente um exame capaz de identificar a intolerância ao glúten. Além da análise clínica feita pelo próprio médico, que costuma ser um gastroenterologista, é necessário realizar uma série de exames de sangue, que são:

  • Anti-endomisio;
  • Trasglutaminase tecidual;
  • Gliadina;
  • Estudo molecular DQ2;
  • Estudo molecular DQ8.

Cada caso é um caso, mas esses costumam ser pedidos com frequência a quem chega no consultório com os sintomas descritos acima. Eles medem a resposta do organismo do paciente a níveis controlados de glúten e são feitos com acompanhamento médico.

Todos os exames devem ser feitos em jejum leve ou normal.

Alimentos que contém glúten

O ingrediente mais comum e perigoso, e que portanto precisa ser cortado da alimentação, é a farinha de trigo. Ela é usada no preparo de massas, pães, bolos e biscoitos, entre outros.

A opção para quem precisa mudar a dieta e se adaptar a uma rotina alimentar sem esses itens, que são bastante comuns na mesa do brasileiro, é ingerir alimentos em que o trigo possa ser substituído por outros tipos de farinhas e cereais sem glúten.

É o caso de pães ou bolos feitos com farinha de mandioca, pães de batata e macarrão de milho. Ingredientes como fubá, polvilho doce ou azedo, arroz, batata e mandioca.

Como a oferta de produtos que contém glúten é enorme, é sempre válido checar a embalagem para ter certeza de que o produto em questão é de fato o que costumam chamar de  gluten free.

Da mesma forma, quando for comer fora, é interessante também saber a procedência dos ingredientes utilizados no prato.

Tratamento para intolerância

O tratamento para este problema consiste principalmente em cortar os alimentos que contém glúten em sua composição e mudar de vez os hábitos alimentares.

Na nova dieta, é preciso eliminar trigo, cevada, centeio e outros grãos que contêm glúten. Mas é bom ressaltar que hoje há cada vez mais produtos disponíveis para quem não pode consumir os tradicionais — com alterações mais significativas na textura do alimento do que no sabor em si.

Em todo caso, você pode sempre consultar um nutricionista para que ele indique os melhores alimentos para você, levando em conta não só as suas necessidades nutricionais, mas também os seus gostos pessoais.