Estrabismo: o que é, causas, tipos, tratamento e cirurgia

Atualizado em 20 de fevereiro de 2019

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Olhos virados para dentro, para fora, para baixo ou para cima. O estrabismo, chamado por muitos de vesguice, olho torto, entre outros termos que beiram o pejorativo, é uma alteração visual que pode ser estigmatizada e causar sérios impactos emocionais.

O que poucos sabem, no entanto, é que estrabismo tem cura e, apesar de o tratamento precoce ser sempre a melhor opção, é possível tratá-lo mesmo após muitos anos convivendo com ele.

O que é estrabismo?

De acordo com o oftalmologista Ian Curi, professor de pós-graduação em Oftalmologia da Sociedade Brasileira de Oftalmologia e chefe dos Setores de Estrabismo e Oftalmologia Pediátrica do Hospital Federal dos Servidores do Estado, os olhos, para o adequado funcionamento, precisam apontar para o mesmo objeto de interesse simultaneamente.

Assim, qualquer perda deste alinhamento é denominada “estrabismo”, alteração que acomete 2% a 4% da população, sendo, portanto, uma condição comum.

Tipos

O especialista explica que, de forma geral, podemos dividir os estrabismos em convergente, divergente ou vertical. Mas ressalva: “Essa é uma classificação simplista, que leva em conta o sentido do desvio dos olhos. No entanto, cada um desses grupos apresenta muitos subtipos”.

Estrabismo convergente: um ou ambos os olhos estão desviados para dentro, em direção ao nariz.

Estrabismo divergente: trata-se do desvio do olhar para fora.

Estrabismo vertical: desalinhamento no eixo vertical, com um olho “mais para cima” que o outro.

Ian Curi destaca ainda três tipos frequentes nas crianças:

Esotropia acomodativa

“É um tipo de estrabismo convergente que costuma aparecer por volta dos 2 anos de idade e está associado a graus moderados a elevados de hipermetropia”, explica o médico.

Em geral a criança começa a ter um desvio de modo eventual, principalmente ao tentar focar em objetos próximos ou na TV, por exemplo.

A colocação dos óculos com grau adequado costuma ser suficiente para controlá-lo.

Esotropia precoce

Este tipo de estrabismo convergente costuma aparecer antes dos 6 meses de vida.

Nesse momento inicia-se o tratamento com oclusão (tampão) e óculos, se necessário. “A maior parte dos especialistas, entre os quais eu me incluo, opta por realizar a cirurgia com aproximadamente 12 meses de vida”, diz Ian Curi.

Exotropia intermitente

Nela, os pais observam que um dos olhos da criança começa a desviar em direção ao canto externo, principalmente quando ela está distraída ou cansada. “Alguns instantes depois, observam que o olho se alinha novamente, daí o nome intermitente”, conta o especialista.

Com o passar dos anos, é comum que os episódios de desvio se tornem mais frequentes. Neste caso o tratamento inicial costuma incluir o uso de tampão, óculos e eventualmente exercícios. Após os 4 ou 5 anos, se o estrabismo não está bem compensado, pode ser indicado o procedimento cirúrgico.

Causas

O estrabismo é uma alteração da habilidade neuromuscular – ou seja, envolve cérebro, nervos e músculos da visão – em realizar o correto movimento dos olhos. Existem diversos fatores que podem causá-lo.

Genética

O médico explica que desde Hipócrates, o pai da Medicina, há 2.400 anos, já se sabe que os filhos de pais estrábicos têm uma chance maior de serem estrábicos, determinando uma causa genética para o acometimento.

“No entanto, apesar de a existência deste padrão hereditário, a Medicina ainda está avançando no reconhecimento dos genes que causam cada tipo de estrabismo”.

Ele chama a atenção para a ocorrência de estrabismos em gêmeos idênticos: quando um é acometido, a chance de o outro também ser chega a 80%, mostrando a importância do fator genético.

Mas há muitos casos nos quais não há nenhum outro membro da família acometido, o que mostra que existem casos de estrabismos que acontecem por herança genética e outros de modo esporádico.

Erros de refração

Doenças dos olhos relacionadas a erros de refração, como miopia e astigmatismo, podem contribuir para o aparecimento do estrabismo.

Desequilíbrio na força dos músculos oculares

Se os músculos oculares, que “indicam” para qual direção os olhos devem se virar, não tiverem suas forças equilibradas, a visão poderá desviar-se.

Doenças e síndromes neurológicas

O comando da posição e movimentação dos olhos vem do cérebro, portanto, doenças neurológicas podem interferir e gerar estrabismo. Além disso, é preciso lembrar que crianças com paralisia cerebral e síndrome de Down frequentemente apresentam erros refrativos que contribuem para o aparecimento do acometimento.

Quando consideradas as crianças com síndrome de Down, os dados epidemiológicos mostram que a prevalência dos estrabismos varia de 20% a 50%.

Estrabismo no adulto

A alteração que aparece na vida adulta tem causas muito variadas e acende um sinal de alerta. “O primeiro passo é sempre descartar que o estrabismo seja secundário a uma doença sistêmica”. Alguns exemplos:

Paralisias dos nervos cranianos: há três nervos que controlam a movimentação ocular e podem ser acometidos em casos de diabetes, aneurismas, tumores, entre outras doenças do sistema nervoso central, levando a uma deficiência da movimentação ocular.

Estrabismo secundário a doença de Graves (doença autoimune da tireoide): nesse caso, os anticorpos envolvidos na doença geram um “inchaço” da musculatura ocular externa. Muitas vezes é necessário um procedimento cirúrgico para aliviar os sintomas.

Miastenia gravis: um tipo de doença neuromuscular em que anticorpos bloqueiam a “comunicação” entre os nervos e os músculos.

Pelo envelhecimento: o especialista conta ainda que recentemente foi descoberto um novo tipo de estrabismo convergente que ocorre em pessoas idosas por conta do envelhecimento dos tecidos de sustentação que existem ao redor dos olhos e seus músculos.

Fatores de risco

Dadas as causas, é possível entender que entre os fatores de risco para estrabismo estão:

  • Casos na família
  • Erros refrativos
  • Síndromes ou doenças neurológicas
  • Acometimentos que afetam os nervos oculares, como diabetes e aneurisma
  • Envelhecimento

Sintomas

Além do desvio do olhar, podem surgir outras evidências de estrabismo, entre as quais estão:

  • Fechamento de um olho ou adequação da posição da cabeça como forma de compensar o desvio
  • Visão dupla (enxergar a mesma coisa duplicada)
  • Dor de cabeça
  • Imagens instáveis
  • Fadiga ocular
  • Sentir o olho “vagar”

Diagnóstico

Exame de visão.
bluecinema/Istock

O primeiro passo é realizar exame físico com um oftalmologista para detectar o desvio do olhar.

Caso desconfie-se de que haja alguma causa específica por trás do acometimento, é indicado fazer exames de imagem, como tomografia e ressonância magnética.

No caso do estrabismo no adulto, o diagnóstico é feito principalmente com o exame de sangue e a eletroneuromiografia (que analisa o estado da transmissão dos impulsos nervosos) para descartar acometimentos mais amplos que possam originar o problema.

Qual profissional devo procurar?

Se suspeitar de estrabismo, procure um médico oftalmologista, profissional apto a fazer o correto diagnóstico, identificar a causa e indicar o melhor tratamento.

Complicações

Ambliopia

Uma das principais complicações do estrabismo é a ambliopia, conhecida popularmente como “olho preguiçoso”.

Ela acontece porque o cérebro deixa de processar as imagens vindas do olho desviado e, em consequência, as áreas cerebrais responsáveis por isso não se desenvolvem. Como consequência, a ambliopia pode evoluir para perda de visão definitiva.

Impacto emocional e social

Crianças e adolescentes que apresentam o olhar desviado podem sofrer bullying de colegas da mesma faixa etária, o que resulta em impactos emocionais e sociais.

É importante que pais estejam atentos, dialoguem com seus filhos e, quando necessário, busquem aconselhamento de médicos e psicólogos.

Complicações da cirurgia

As complicações da cirurgia para corrigir o olho torto são raras, mas podem acontecer.

De acordo com estudo do The Royal College of Ophthalmologists, as mais comuns são perfuração do globo ocular (ocorre em 0,13% a 1% dos casos), infecções e erros na sutura do músculo, o que gera hipercorreção ou perda de mobilidade.

Estrabismo tem cura?

A resposta ao tratamento dependerá do tipo de estrabismo e da sua causa. Nos casos em que o diagnóstico é feito precocemente e o tratamento com oclusão é adequadamente realizado, as chances de normalização da visão são enormes.

Já quando se trata do alinhamento ocular, as chances de bom resultado com o procedimento cirúrgico são altas, assim como a satisfação dos pacientes.

Em alguns casos, no entanto, o estrabismo pode voltar com o tempo, mas nada impede que seja novamente corrigido, quantas vezes se fizerem necessárias.

Tratamento

As bases do tratamento dependerão do tipo de estrabismo.

Tampão e óculos na infância

Na infância, o estrabismo pode levar ao desenvolvimento de ambliopia de um dos olhos, popularmente conhecida como olho preguiçoso.

Por isso, se faz necessário o uso do tampão sobre o outro olho para permitir o desenvolvimento do atrasado e, com isso, igualar a visão.

Os óculos também pode ser usado para ajudar na focalização das imagens e tratar erros de refração associados, como hipermetropia.

Cirurgia de estrabismo

Em seguida, quando os problemas da visão estiverem resolvidos, faz-se o tratamento cirúrgico, que visa reposicionar os olhos adequadamente.

É importante destacar que os tratamentos citados não são excludentes. O tampão trata a assimetria da visão e a cirurgia realinha os olhos, portanto são complementares.

Toxina botulínica

Em alguns casos, o tratamento do estrabismo ainda pode ser feito com aplicação de toxina botulínica, apesar de a maior parte necessitar de cirurgia.

Esse tratamento paralisa pastes do músculo ocular, permitindo o reequilíbrio muscular e o alinhamento do olhar.

Óculos com prismas

Nos estrabismos de aparecimento na vida adulta existe a queixa de diplopia (visão dupla), um sintoma bastante perturbador, mas que pode ser eliminado com óculos especiais com prismas.

Esse acessório age desviando a luz que incidirá sobre o olho e reduzindo o sintoma.

No entanto, na maioria dos casos esta correção é cirúrgica.

Prognóstico

O estrabismo não corrigido traz grande impacto funcional e social na vida de seus portadores, portanto o tratamento precoce é ideal.

“Mas existe uma lenda que propaga a informação de que se o estrabismo não foi corrigido na infância, não poderá mais ser tratado. Essa informação não procede. E muitos pacientes vivem a angústia de um estrabismo sem tratamento ao acreditarem nesta informação”.

Portanto, o acometimento pode e deve ser tratado em qualquer faixa etária.

Prevenção

Não existe uma forma de prevenir que o estrabismo surja, mas exames periódicos com o oftalmologista, principalmente na infância, são capazes de o detectar precocemente e aumentar as chances de normalização completa do quadro.

Fontes

Oftalmologista Ian Curi. CRM/RJ 5292767-8

Childrens Eye Foundation. What are the Signs and Symptoms of Strabismus? Disponível em: www.childrenseyefoundation.org/S/vision-facts/signs-and-symptoms-of-strabismus