Epilepsia: o que é e como se manifesta o quadro marcado por convulsões

Atualizado em 31 de maio de 2019

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Convulsão, crises de ausência e outras manifestações da epilepsia ainda fazem dela um tabu, mas não deveria ser assim. É possível ter uma vida perfeitamente normal com esse acometimento. Aliás, cerca de 70% do casos respondem muito bem ao primeiro tratamento, o medicamentoso.

A seguir, entenda o que é, como se manifesta e como conviver com a epilepsia.

O que é?

De acordo com a neurologista Maria Luiza Manreza, da Associação Brasileira de Neurologia, crise epiléptica é a resposta a uma descarga anormal, excessiva e síncrona de um grupo de neurônios (células nervosas) no cérebro.

A epilepsia, por sua vez, é definida como uma doença cerebral que predispõe o cérebro a gerar crises epilépticas e tem consequências neurobiológicas, cognitivas, psicológicas e sociais.

Tipos

As crises epilépticas são classificadas em focais ou generalizadas.

Focais

As crises focais se devem a descargas localizadas em uma área de um hemisfério cerebral e podem ser motoras ou não motoras, ou seja, causar ou não movimentos típicos. “Elas podem ainda causar alteração da percepção que o indivíduo tem de si e do ambiente”, explica a médica.

Generalizadas

As crises epilépticas generalizadas, por sua vez, são aquelas que se originam em algum ponto de uma rede neuronal e rapidamente se distribuem para todo o cérebro, nos dois hemisférios.

Existem diversos tipos desta manifestação, sendo a mais comum e conhecida a chamada crise convulsiva, em que a pessoa cai ao solo, fica inicialmente dura (tônica) e depois passa a ter contrações (clonias). “Nesta crise o paciente pode babar e urinar”, comenta Maria Luiza.

Ao contrário do que muitos pensam, epilepsia e convulsão não são a mesma coisa. Convulsão é um tipo de crise epiléptica, que pode se manifestar ainda de outras formas.

Causas

A epilepsia pode ter diversas causas, entre elas estão:

  • Predisposição genética
  • Traumas de cabeça, resultante de um acidente automobilístico, por exemplo
  • Condições neurológicas, como tumores
  • Doenças infecciosas, entre elas as congênitas, como a causada pelo vírus zika e a rubéola
  • Falta de oxigênio após o parto
  • AVC
  • Malformação do Sistema Nervoso

É hereditária?

“A causa mais comum da epilepsia é a genética, embora não seja sempre possível determinar qual o gene ou genes que são os responsáveis pela doença”, explica a especialista. No entanto, a maioria das epilepsias não é hereditária, ou seja, passada de pai ou mãe para filho.

“A ocorrência da doença em famílias e gêmeos fala a favor que seja genética, ou seja, determinada por alterações em genes, porém estes não foram determinados ainda e não se observa a ocorrência em filhos de pessoas com a doença”, diz a neurologista.

É contagiosa?

Crises epilépticas ou epilepsia não são contagiosas, ou seja, o contato com pessoas com o acometimento não representa risco algum.

Fatores de risco

Os fatores que aumentam as chances de ter epilepsia são idade (é mais comum em criança e idosos), falta de oxigenação cerebral durante o parto e histórico familiar de demência senil e acometimentos neurológicos, como tumores e AVC.

Sintomas

O local do cérebro em que ocorre a descarga nervosa cerebral define os sintomas da crise epiléptica.

“Se esta descarga ocorre na área motora da face, teremos contrações involuntárias no rosto”, explica Maria Luiza. “Se ocorre na área responsável pela sensibilidade do braço, haverá uma crise epiléptica com sintomas sensitivos, como formigamento no braço, e assim por diante”.

Entre outros sintomas comuns, estão:

  • Crise de ausência (como se a pessoa se “desligasse” por alguns instantes)
  • Distorção da percepção
  • Movimentos descontrolados de uma parte do corpo
  • Medo repentino
  • Confusão
  • Perda de consciência
  • Déficit de memória

Diagnóstico

Mulher fazendo encefalograma.
KellyJHall/IStock

O diagnóstico da epilepsia é clínico e baseado nos fatos relatado pelo paciente ou seus familiares.

No entanto, alguns exames podem ajudar na confirmação do tipo da doença, como o eletroencefalograma –que analisa a atividade elétrica do cérebro. Os exames de neuroimagem, como a tomografia e a ressonância magnética, podem ser úteis para mostrar a causa da epilepsia, como lesões cerebrais.

Qual profissional devo procurar?

A epilepsia é uma doença neurológica, portanto o neurologista é o profissional mais apto a tratá-la.

Segundo a Liga Brasileira de Epilepsia, caso alguém sabidamente epiléptico tenha uma crise de menos de cinco minutos, não é necessário buscar ajuda médica. Contudo, requisite um serviço de emergência se a doença não for sabida ou se a crise for mais longa.

Tem cura?

“Em epilepsia evitamos falar em cura pois não temos como ter certeza de que a pessoa nunca mais terá uma crise”, explica a neurologista. “A consideramos resolvida somente nos pacientes que estão há dez anos sem crises e há cinco sem medicação”.

Tratamento

Medicamentos

O primeiro e principal tratamento da epilepsia é medicamentoso com fármacos antiepilépticos. Esta abordagem é capaz de controlar as crises em 70% dos pacientes.

Alimentação

Em casos que não respondem ao tratamento, a dieta cetogênica surge como uma nova proposta terapêutica. Nesse tipo de alimentação, é aumentado o consumo de gorduras e diminuído o de carboidratos com o objetivo de deixar o corpo em um estado de cetose.

Ainda não se sabe ao certo por que a geração dos corpos cetônicos por meio do metabolismo da gordura diminui as crises, mas especula-se que isso ocorra por deixar o organismo mais ácido, como o que acontece quando estamos em jejum, ou pela propriedade sedativa destas substâncias.

Estimulador do nervo vago

Esta terapia é realizada pela estimulação do nervo vago, um importante canal de comunicação entre o sistema nervoso e o resto do corpo, o que ajuda a manter o cérebro eletricamente organizado e prevenir crises. Nesse caso, é realizada uma pequena cirurgia para implantar o gerador e os eletrodos que darão o estímulo.

Cirurgia

Caso o paciente não responda ao tratamento medicamentoso, as cirurgias podem ser uma alternativa. Existem diferentes técnicas cirúrgicas para tratar a epilepsia, algumas delas fazem uma ressecção da região que dá origem às crises, ajudando a controlá-las.

Como ajudar em uma crise de epilepsia?

Crise de epilepsia.
LCOSMO/IStock

Esqueça o mito de que é importante segurar a língua da pessoa que está em crise. As contrações musculares são muito fortes e podem machucar gravemente quem tentar abrir a boca do acometido.

De acordo com a Associação Brasileira de Epilepsia, o melhor é manter-se calmo e acomodar a pessoa de forma que ela não se machuque, afastando os objetos ao redor, por exemplo.

Use um travesseiro ou casaco dobrado para apoiar a cabeça da pessoa e posicione-a de lado para que vômito ou saliva escorram para fora da boca. Não impeça seus movimentos.

Ao fim da crise, explique o que aconteceu e ofereça-se para chamar um familiar. Caso a crise dure mais de 5 minutos sem sinal de melhora, busque ajuda médica imediata.

Prognóstico

É possível viver normalmente tendo epilepsia. De acordo com a Liga Brasileira de Epilepsia, cerca de 70% dos casos são de fácil controle com o uso de medicação adequada. Os 30% restantes precisarão de outras medidas para que sejam tratados.

Complicações e riscos

Quedas e machucados

Para a neurologista Maria Luiza, o principal risco da crise epiléptica é físico, já que a pessoa pode cair ou bater em objetos ao redor.

Por isso, se recomenda que no início do tratamento ou quando as crises epilépticas não estão totalmente controladas se evite situações em que a pessoa possa se machucar ou mesmo correr risco de vida, como nadar, dirigir, praticar atividades em locais altos sem proteção, entre outros.

Outro risco da epilepsia é o Sudep (ou morte súbita em epilepsia). Embora não se saiba exatamente a sua fisiopatologia, citam-se alguns fatores de risco como crises convulsivas especialmente noturnas, deficiência intelectual e refratariedade ao tratamento”, explica a especialista.

Epilepsia na gravidez

As crises epilépticas na gravidez, assim como alguns medicamentos para tratá-la, podem representar risco para mãe e bebê. Por isso, é importante conversar com o médico antes de engravidar.

Status epilepticus

Acontece quando a crise dura mais do que 5 minutos ou é recorrente, aumentando as chances de dano cerebral.

Prevenção

É difícil prevenir a epilepsia, já que os fatores que a causam não são facilmente controláveis, como sofrer um traumatismo craniano ou ter um AVC.

No entanto, é possível evitar crises mantendo uma rotina saudável, evitando o consumo excessivo de álcool, a privação de sono e o jejum e seguindo o tratamento medicamentoso à risca.

Fontes

Neurologista Maria Luiza Manreza, da Associação Brasileira de Neurologia – CRM/SP 17097

Associação Brasileira de Epilepsia. Você sabe como ajudar durante uma crise convulsiva? Disponível em: www.epilepsiabrasil.org.br/noticias/voce-sabe-como-ajudar-durante-uma-crise-convulsiva

Liga Brasileira de Epilepsia. Tudo sobre Epilepsia. Disponível em: www.epilepsia.org.br/o-que-e-epilepsia