Doença de Crohn: o que é, sintomas, causas e tratamentos

Atualizado em 08 de março de 2019

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Um quadro ainda sem cura definitiva ou causa definida que gera sintomas que podem ser desgastantes: assim é a doença de Crohn, acometimento digestivo cuja incidência está aumentando, como mostram estudos feitos no Brasil e no mundo.

Este tipo de processo inflamatório está intimamente relacionado a distúrbios dos intestinos grosso e delgado, gerando sintomas como diarreia e perda de peso, mas pode atingir também outras partes do sistema digestivo e até pele e articulações.

Atualmente, quem tem Crohn pode ter uma vida perfeitamente normal e ativa, mas é preciso estar sempre vigilante aos fatores desencadeadores e aos primeiros sintomas de uma crise.

O que é doença de Crohn?

Classificada como uma Doença Inflamatória Intestinal (DII), Crohn afeta, principalmente, a parte inferior do intestino delgado (íleo) e o cólon do intestino grosso.

Nesses locais, ocorre uma inflamação profunda em todas as camadas do tecido do órgão, que, com o tempo, pode causar lesões e alterações graves.

De acordo com a Sociedade Brasileira de Coloproctologia, o quadro pode acometer também outras partes do sistema digestivo, desde a boca até o ânus, e até regiões distintas, como pele, articulações, olhos, fígado e vasos sanguíneos.

Comprovadamente não-contagiosa, a inflamação afeta homens e mulheres e crianças e adultos, mas é mais comum que seja diagnosticada em jovens com menos de 30 anos.

Estágios

Apesar de intercalar períodos de manifestação intensa de sintomas com outros sem quaisquer sinais de inflamação, a doença de Crohn pode progredir com o tempo.

Além disso, os sintomas de doença de Crohn aparecem com intensidades diferentes para cada pessoa. Por esses fatores, ela pode ser classificada como leve, moderada ou severa.

Na doença de Crohn leve, a inflamação pode causar diarreia e dor abdominal, mas sintomas como febre, desidratação e perda de peso não estão presentes.

No quadro moderado, além de diarreia e dor abdominal, pode haver perda de peso, febre e anemia.

Quando há doença de Crohn severa, os sintomas podem persistir, apesar do tratamento, e incluir sinais de abscesso (acúmulo de pus), obstrução intestinal (bloqueio no órgão) e outras complicações.

Tipos de doença de Crohn

De acordo com a Crohns and Colitis Foundation, existem cinco tipos mais comuns da doença, a depender da região gastrointestinal afetada:

Ileocolite

O tipo mais comum, afeta a parte final do intestino delgado (íleo) e o cólon do intestino grosso. Causa diarreia, perda de peso cólicas e dores na porção inferior direita do abdômen.

Ileíte

Afeta apenas o íleo e está ligada a fístulas – infecção do túnel entre a pele e o ânus – e abscessos intestinais.

Doença de Crohn gastroduodenal

Atinge estômago e início do intestino delgado. Perda de apetite, perda de peso inexplicada, náusea e vômitos são sintomas comuns.

Jejunoileíte

Esse tipo de doença de Crohn afeta as partes iniciais do intestino e causa dor abdominal forte após refeições.

Colite

Afeta os a camada mais superficial do cólon e está relacionada a sangramento retal e fístula anal.

Causas

Não se sabe exatamente qual é a causa da doença de Crohn, mas a incidência é maior em pessoas do mesmo círculo familiar, o que revela o envolvimento de um componente genético.

Segundo a Crohn’s and Colitis UK, instituição britânica de luta contra a doença, está envolvida também uma reação anormal do sistema imunológico a determinadas bactérias intestinais e vírus, uma vez que, ao tentar combatê-los, o sistema imunológico atacaria as células do trato digestivo.

Alimentação, tabagismo e estresse também seriam agravantes.

Fatores de risco

Entre os fatores de risco da doença de Crohn estão:

Idade: a maior parte das pessoas é diagnosticada antes dos 30 anos.

Etnia: descendentes de judeus e caucasianos têm mais chances de desenvolver Crohn.

Histórico familiar: uma em cada cinco pessoas com Crohn tem mais alguém na família com a doença.

Tabagismo: o fumo gera a forma mais severa da doença e maior risco de cirurgia para tratar a inflamação intestinal.

Remédios anti-inflamatórios não-hormonais: ibuprofeno, diclofenaco e outros medicamentos do tipo, apesar de não causarem a doença, estariam ligados à forma mais grave.

Morar em áreas urbanas: não se sabe ao certo como se dá essa relação, mas fatores ambientais de grandes cidades, como consumo de comidas industrializadas e poluição, aumentam o risco de ter Crohn.

Sinais e sintomas de doença de Crohn

Dor intestinal.
BlurryMe/Shutterstock

A doença de Crohn pode afetar diferentes partes do sistema gastrointestinal e, por isso, seus sintomas são muito variáveis. Entre os principais, estão:

  • Diarreia persistente
  • Estomatite (inflamações na boca)
  • Dor abdominal
  • Cansaço ou fadiga
  • Febre
  • Constipação (caso haja bloqueio intestinal)
  • Vômitos
  • Presença de sangue nas fezes
  • Anemia
  • Perda de apetite
  • Perda de peso

Diagnóstico

A Sociedade Brasileira de Coloproctologia explica que o melhor recurso diagnóstico para doença de Crohn é a colonoscopia com biópsia. Neste exame, o médico introduz um tubo fino e flexível, que porta uma pequena câmera, no ânus, realiza a observação do intestino e retira uma amostra de tecido para análise. A presença de granulomas, um grupo específico de células relacionado à inflamação, pode indicar a presença da doença.

A tomografia e a ressonância magnética também podem ser pedidas pois permitem a observação de complicações, como a presença de fístulas entre as alças intestinais.

Testes de sangue podem ser solicitados para detectar anemia, uma complicação da doença, ou infecções. Exames de fezes podem indicar a presença de sangue oculto gerado por lesões no sistema gastrointestinal.

Outros dois exames podem ajudar no diagnóstico do acometimento: a cápsula endoscópica (uma cápsula que possui uma câmera que “tira fotos” do sistema digestivo) e a enteroscopia de duplo balão (nada mais é que a introdução de um tubo que permite a observação de lugares nos quais um endoscópio normal não chega).

Qual profissional devo procurar?

Caso perceba manifestações incomuns do sistema gastrointestinal, procure um médico gastroenterologista ou coloproctologista.

Se houver sintomas que indiquem a necessidade de cuidado imediato, como impossibilidade de se alimentar ou dor abdominal intensa, procure uma emergência médica.

Complicações

Bloqueio intestinal

De acordo com o The National Institute of Diabetes and Digestive and Kidney Diseases, órgão de saúde dos Estados Unidos, uma das principais complicações da doença de Crohn é o bloqueio intestinal.

Esse quadro se instala quando a inflamação causa engrossamento da parede do órgão a ponto de impedir parcialmente ou por completo a passagem do conteúdo intestinal.

Fístula

A doença de Crohn pode ainda levar à formação de fístula, uma espécie de túnel comunicante entre uma alça do órgão e outra, ou ainda entre intestino e outro órgão, como a bexiga, por exemplo.

Abscessos

A formação de abscessos (acúmulo de pus) decorrente da inflamação causa dor e inchaço.

Fissuras anais

Fissuras anais, que podem causar dor e sangramento na região, também são complicações comuns.

Úlceras

O processo inflamatório pode causar úlceras e feridas abertas em qualquer ponto do tubo digestivo, como boca, intestino e ânus, e, em casos graves, em outras partes do corpo, como articulações, pele e olhos.

Desnutrição e deficiência nutricional

Por fim, a desnutrição pode ser causada por diarreias, dores e cólicas, que não só dificultam a alimentação, como impedem a adequada absorção de nutrientes pelo intestino, resultando em quadros de deficiência nutricional.

Pode matar?

A doença de Crohn apresenta baixa mortalidade, a qual está mais relacionada às complicações e cirurgias para tratá-la do que à condição em si.

De acordo com um estudo publicado no periódico científico Gut, a maior parte dos óbitos relacionados à Doença Inflamatória Intestinal é registrada após complicações como sepse (infecção generalizada) pós-operatória, infarto intestinal (bloqueio de artéria que leva sangue ao órgão) e megacólon tóxico (dilatação e inflamação extremas do intestino grosso.

A mesma pesquisa estima que, enquanto a mortalidade por ano para a população em geral é de 1%, esse índice é de 1,6% para pessoas da mesma idade e gênero que possuem Crohn.

Pode virar câncer?

A doença de Crohn aumenta o risco para câncer no cólon, caso a doença atinja essa parte do intestino. Por isso, essas pessoas devem fazer colonoscopias com mais frequência do que a população em geral.

Tem cura?

A doença de Crohn é crônica e não tem cura, mas os sintomas podem ser controlados com os cuidados adequados.

Tratamento de doença de Crohn

Tratamento para dor intestinal.
BlurryMe/Shutterstock

O tratamento para doença de Crohn visa, principalmente, a redução da inflamação e, com isso, a remissão dos sintomas. Esse efeito também pode melhorar a evolução em longo prazo, reduzindo a incidência de complicações.

Alimentação e dieta

Dada a dificuldade em absorver nutrientes, é fundamental que a pessoa que tem doença de Crohn mantenha uma alimentação diversa e rica em nutrientes, evitando assim quadros de deficiência nutricional.

É indicado também o consumo de alimentos leves, pouco condimentados, não-refinados e com pouca gordura, já que os extremamente processados e gordurosos causam mais desconforto intestinal. Álcool e cafeína também devem ser consumidos de maneira bem controlada.

O ideal é que indivíduos com doença de Crohn mantenham uma dieta cuidadosa e elaborada com a orientação de médicos e nutricionistas.

Medicamentos

O uso de remédios para doença de Crohn é base do tratamento, entre eles estão os anti-inflamatórios.

Os corticoides, como a prednisona, costumam ser prescritos por curtos períodos – de três a quatro meses – para que os sintomas de doença de Crohn entrem em remissão. Também podem ser utilizados anti-inflamatórios aminossalicilatos para manifestações mais leves.

São prescritas ainda drogas imunossupressoras que objetivam diminuir a produção de substâncias causadoras de inflamação pelo sistema imunológico.

Antibióticos ajudam em casos de complicações da doença de Crohn, como fístulas e abscessos, prevenindo e tratando infecções. Há especialistas que indicam essas drogas para controlar bactérias intestinais que estariam relacionadas ao processo infeccioso.

Podem ser usados, de acordo com indicação do especialistas, medicamentos para lidar com os sintomas, como analgésicos, remédios para diarreia e suplementos nutricionais.

Cirurgia

Além de operações para tratar complicações, como fístulas, abscessos e bloqueios intestinais, pode ser feito um procedimento para retirada da porção intestinal acometida pela doença, seguida de conexão da parte anterior à porção posterior ao trecho removido.

No entanto, esta técnica não cura a doença de Crohn, posto que a inflamação retorna e o benefício tende a ser temporário.

Prognóstico

A doença de Crohn não tem cura, mas o tratamento adequado pode ajudar a melhorar a convivência e o prognóstico, reduzindo manifestações e complicações.

Não fumar, alimentar-se adequadamente e manter uma rotina pouco estressante são atitudes complementares e fundamentais para evitar gatilhos da doença e incômodos gerados por ela, como diarreias e cólicas.

É perfeitamente possível ter boa qualidade de vida mesmo tendo doença de Crohn. O acometimento não impede o trabalho, o estudo, a prática de exercícios, a vida social e as demais características de uma vida completamente normal.

Prevenção

Os fatores conhecidos que podem causar doença de Crohn estão, em sua maioria, fora do controle do indivíduo, como é o caso da genética e das bactérias que compõem a microbiota intestinal e podem estar relacionadas à inflamação.

No entanto, uma vez que o tabagismo é um fator de risco, não fumar pode ser uma boa atitude para evitar a doença de Crohn.

Fontes

Sociedade Brasileira de Coloproctologia – Folhetos informativos

Mayo Clinic – Crohn’s disease. Disponível em: www.mayoclinic.org/diseases-conditions/crohns-disease/symptoms-causes

Crohns and Colitis Foundation. Disponível em: www.crohnscolitisfoundation.org

Crohn’s and Colitis UK. Disponível em: www.crohnsandcolitis.org.uk

Repositório Institucional UNESP,  Incidência e Prevalência de Doenças Inflamatórias Intestinais no Estado de São Paulo – Brasil – Doença de Crohn.