Cirrose hepática: sintomas, cura e tratamentos

Atualizado em 04 de janeiro de 2019

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Cirrose é um problema de saúde grave que comumente é associado apenas ao alcoolismo, embora diversas outras condições podem causá-lo. Algumas delas, inclusive, agem silenciosamente durante décadas. Entenda:

O que é exatamente?

“A cirrose hepática é a consequência final da inflamação crônica do fígado, que leva à atrofia e perda das funções do órgão. Este processo de destruição tem início silencioso e pode levar pelo menos 10 anos para se manifestar”, explica o médico.

Em determinados casos, pode demorar até mais de 30 anos para chegar às consequências finais, que seriam a insuficiência hepática, o câncer de fígado e, até mesmo, a morte.

Causas

Diversos processos inflamatórios crônicos deixam o fígado com cirrose, sendo que o mais famoso, a hepatite alcoólica, é apenas um deles.

Entre estes processos estão:

  • Hepatites virais crônicas
  • Esteato-hepatite não alcoólica
  • Doenças metabólicas
  • Doenças genéticas
  • Hepatites e colangites autoimunes
  • Doenças vasculares

“Todas são enfermidades que podem levar a um mesmo denominador comum, que é a cirrose, tornando o fígado duro, fibrosado, cheio de nódulos, pequeno e com mau funcionamento”, ressalta o profissional.

Quais os fatores de risco para a cirrose?

O hepatologista Henrique listou os quatro principais fatores de risco para o aparecimento de cirrose.

Álcool

O primeiro deles é também o mais conhecido popularmente: o uso abusivo de álcool. De acordo com o hepatologista, a ingestão constante de ao menos 280 g por semana para os homens e de 140 g por semana para as mulheres pode causar cirrose alcoólica num período entre 10 e 20 anos.

Hepatite B e C

Caso se mantenham ativos no organismo por 20 a 30 anos, os vírus das hepatites B e C podem evoluir para a cirrose. “O da hepatite C ainda é a principal causa de cirrose no Brasil, também sendo o principal motivo para o câncer de fígado e indicação de transplante hepático”, destaca.

Esteato-hepatite não alcoólica

A obesidade e a diabetes são causas comuns de gordura no fígado. Esse acúmulo no órgão pode levar a uma doença conhecida por esteato-hepatite não alcoólica. Segundo Coelho, cerca de 10% dos casos evoluem para cirrose em 10 a 20 anos.

Outras doenças

Por fim, portadores de doenças biliares obstrutivas crônicas, doenças autoimunes que afetam as funções hepáticas, acúmulo de ferro e cobre no fígado – que pode ser causado por alterações genéticas – e mal formações hepatobiliares congênitas também fazem parte do grupo de risco para cirrose.

Sintomas de cirrose hepática

 

Homem com ascite.

donikz/Shutterstock

No início, nos primeiros dois a três anos, a cirrose é assintomática. Porém, posteriormente surgem sintomas gerais, como:

  • Cansaço
  • Fraqueza muscular
  • Edemas nos membros inferiores
  • Emagrecimento
  • Olhos e pele amarelados
  • Aumento do abdômen por acúmulo de líquidos (ascite)
  • Distúrbios endócrinos
  • Anemia
  • Baixa nas plaquetas sanguíneas
  • Mudança da cor da urina

“No homem, costuma haver sinais de feminilização, como aumento das mamas, queda de pelos e atrofia dos testículos”, acrescenta o profissional da saúde.

Diagnóstico

O primeiro atendimento pode ser feito por um clínico geral. Eventualmente, porém, o problema deverá ser acompanhado por um hepatologista ou gastroenterologista, além de quaisquer outros especialistas necessários.

“O diagnóstico é clínico, laboratorial e por exames complementares. Observa-se se o paciente está desnutrido, emagrecido, com perda de massa muscular, com olhos e pele amarelada (icterícia) e/ou com sinais vasculares na pele e vermelhidão nas palmas das mãos”, explica.

Além disso, pessoas com cirrose costumam ter o abdômen inchado,o fígado palpável e duro, e o baço crescido. Observa também se há edema nas pernas e ruptura dos vasos.

Exames

“Os exames de laboratório mostram se há anemia, baixa das plaquetas, queda nos valores da albumina e dos fatores de coagulação. Ele também avalia se há aumento das bilirrubinas e das transaminases, que são enzimas hepáticas”, diz o hepatologista Henrique Sérgio Coelho.

Já no exame de imagem, no caso a elastografia hepática ultrassônica, mede-se a dureza do fígado por meio de um método não invasivo que permite o diagnóstico da cirrose sem necessidade da biópsia.

“Outros exames de imagem, como a ultrassonografia abdominal e a ressonância magnética, mostram alterações da forma do fígado, aumento do baço e a presença de liquido na cavidade abdominal. Eventualmente, podem ainda revelar lesões focais  que podem corresponder a pequenos tumores”, conta o médico.

Qual complicações podem acontecer?

Pode ocorrer ruptura de varizes no esôfago, além de sangramento no estômago e no intestino. O acúmulo de líquido pode tornar-se intratável apenas por diuréticos, requerendo uma punção (paracentese abdominal).

O paciente ainda pode apresentar infecções na pele, urina, pulmões e abdômen, além de alterações neuropsiquiátricas denominadas encefalopatia hepática.

Pode virar câncer?

A cada ano, cerca de 3 a 5 % dos pacientes com cirrose desenvolvem tumores no fígado, por isso, é importante a realização de ultrassonografia abdominal a cada seis meses para detectar possíveis tumores.

Se tratados precocemente, esses cânceres têm chance de cura de 90%. Nos casos avançados, o transplante hepático é recomendado e tem sobrevida de 80% em 5 anos na dependência da disponibilidade de órgãos.

Cirrose tem cura?

Na fase inicial e intermediária da doença, se a causa primária for tratada – por exemplo, o paciente suspende o uso do álcool ou trata a hepatite C – a cirrose regride, mas deixa sequelas anatômicas no fígado, ainda que sejam compatíveis com uma vida normal.

Vale ressaltar que o uso de álcool deve ser banido sempre, independentemente da causa que originou a cirrose.

Se a doença já estiver bastante avançada, porém – com ascite severa, perda da capacidade hepática e renal e encefalopatia hepática – é muito provável que não haja mais cura. Neste caso, apenas o transplante de fígado pode ser a solução.

Como é feito o tratamento?

 

Fígado doente.

aslysun/Shutterstock

Mudança de hábitos

Em primeiro lugar, é preciso evitar ou tratar os fatores desencadeantes, tais como álcool, obesidade e diabetes mellitus.

Medicamentos

Se a origem da cirrose for hepatite viral ou autoimune, serão necessários antivirais ou imunossupressores, respectivamente.

Para prevenir complicações, como hemorragia digestiva por varizes, é necessário o uso de uma substância chamada Propranolol ou um tratamento endoscópico chamado ligadura elástica das varizes.

Já o uso de laxativos e antibióticos orais pode controlar a encefalopatia. Os diuréticos e a dieta com pouco sal combatem a ascite. “Há também uma série de drogas antifibróticas que estão sendo experimentadas, mas provavelmente só serão úteis nas fases iniciais da doença”, ressalta o hepatologista.

Cirurgia

Em alguns casos, pode ser necessário transplante de fígado, ablação percutânea ou cirurgia para retirada de câncer de fígado.

Como conviver com a cirrose?

O paciente necessita de cuidados médicos contínuos, acompanhamento de especialistas e exames rotineiros.

A doença impacta a qualidade de vida, pois implica em uma série de mudanças de hábitos, como dieta, abstenção de álcool, alguma restrição a atividade física e uso contínuo de medicamentos.

Como prevenir?

O primeiro grande passo para evitar a cirrose é tomar as vacinas contra a hepatite B. Ainda, caso fique doente, o tratamento das hepatites virais crônicas nas fases iniciais é fundamental.

É importante buscar uma dieta saudável que evite a obesidade, trabalhar na prevenção da diabetes e consumir álcool moderadamente. Além disso, é recomendado fazer os exames de saúde rotineiros, incluindo os de função hepática.

 

Fontes

Hepatologista Henrique Sérgio Coelho, do Hospital São Lucas Copacabana.  CRM: 52.18147-3