Anorexia nervosa: como lidar, sinais frequentes e tratamentos

16 de fevereiro de 2018

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POR Amanda Grecco

A anorexia nervosa é uma disfunção alimentar que decorre da obsessão do paciente por seguir uma dieta extremamente restrita, a fim de alcançar a perda excessiva de peso.

Além da desnutrição e do baixo peso corporal, a doença causa uma distorção da realidade que impede a pessoa de compreender o verdadeiro estado de seu corpo e, por isso, ela tende a desejar emagrecer mesmo já sendo extremamente magra.

O Instituto Nacional de Saúde Mental dos Estados Unidos (NIMH) declarou que 70 milhões de pessoas no mundo sofrem com algum tipo de transtorno relacionado à alimentação, sendo os principais: anorexia, bulimia e compulsão alimentar, e que o índice de mortes provocadas por esses problemas é de 20%.

Anorexia ou anorexia nervosa?

Anorexia e anorexia nervosa são estritamente a mesma coisa, mas anorexia nervosa é a denominação médica correta.

Mas o fato de ter a palavra “nervosa” no nome da doença não significa nenhuma relação com o nervosismo. É muito comum que o paciente com anorexia tenha sintomas de bulimia ou outra disfunção alimentar, já elas estão todas relacionadas.

“Os distúrbios alimentares têm muito em comum. Não é muito clara a limitação de onde termina um e começa outro. A anorexia está num espectro e as pessoas estão em muitos pontos dessa linha”, explica a psicóloga Ana Carolina Arruda.

Quais os sinais?

  • ​Prática de exercícios físicos de forma compulsiva;
  • Distorção da imagem corporal;
  • Distorção da quantidade de alimento no prato;
  • Emagrecimento constante;
  • Restrição alimentar severa;
  • Fala excessiva sobre peso e dietas;
  • Hábito de contagem de calorias;
  • Irregularidade menstrual;
  • Isolamento social;
  • Desejo de se mover o tempo todo;
  • Falta aos momentos de confraternização que envolvam refeições;
  • Medição de peso diária ou constante;
  • Uso de roupas largas para esconder o corpo.

O que provoca a anorexia nervosa?

A mídia exerce uma grande influencia em casos de transtornos alimentares, impondo padrões de beleza que não são alcançáveis para o biotipo da maioria da população.

Entretanto, para a psicóloga e psicanalista Elaine Lobeiro, é importante destacar que existem sintomas que ultrapassam a pura obsessão pela imagem.

“O corpo anoréxico não sente dor em decorrência da fome, de exercícios pesados, não sente prazer pela comida e é extremamente autodestrutivo. É necessário aprofundar a relação que o paciente estabeleceu com seu corpo, sua imagem, seus vínculos e com a comida”, explica ela.

“O quadro é complexo e precisa ser investigado levando em conta todas as particularidades de cada pessoa”, opina.

Quem é mais afetado?

O grupo de risco é caracterizado por mulheres — 90% dos casos –, que geralmente estão passando por uma mudança corporal ou pela puberdade.

Aliás, segundo Ana Carolina, este é o período para os familiares ficarem mais atentos com a alimentação e hábitos dos jovens, incentivando que a consciência do corpo e da alimentação sejam práticas saudáveis e até mesmo prazerosas.

De acordo com Clariely Stele, nutricionista especialista em fitoterapia na prática clínica e saúde da mulher, é muito comum no consultório a presença de mulheres jovens que são verdadeiras tabelas nutricionais e desejam a todo custo evitar o consumo de carboidratos e gorduras.

Este, porém, é um pensamento extremamente equivocado e inconsistente quando falamos em termos de nutrição e boa alimentação. Clariely explica que esses padrões de consumo alimentar normalmente estão associados ao comportamento da família como um todo, e por isso é necessário mudar a lógica de toda a alimentação em conjunto.

Consequências para a saúde

  • Surgimento de cáries;
  • Desnutrição e desidratação;
  • Crescimento lento ou interrompido;
  • Pressão baixa;
  • Pele, unhas e cabelos fracos e quebradiços;
  • Menstruação irregular ou inexistente;
  • Temperatura corporal abaixo do normal;
  • Redução da massa óssea;
  • Distúrbios metabólicos.

Tratamento da anorexia nervosa

Os tratamentos que existem para anorexia são conduzidos geralmente por uma equipe multidisciplinar, pois o paciente eventualmente pode estar correndo risco de vida e precisa ser ajudado em diversas frentes.

Segundo a psicóloga Ana Carolina, o ideal é que exista um acompanhamento intenso terapêutico para entender qual a origem da anorexia e como é o relacionamento da pessoa com a doença.

“É necessário entender que este é um problema social que reflete o padrão de beleza midiático, sendo importante explorar o que a paciente entende como bonito e como ideal. A família pode ser envolvida nas sessões de terapia também”, explica ela.

A alimentação e a dieta têm um importante papel no desenvolvimento e manutenção dos transtornos alimentares. O nutricionista também exerce um papel fundamental no tratamento dos transtornos alimentares.

A American Dietetic Association (ADA) preconiza que a intervenção e educação nutricional sejam incorporadas ao tratamento, porém ele deve ser multidisciplinar.

A ADA propõe uma “terapia nutricional” para os transtornos alimentares e que este deve ser um processo integrado, no qual o nutricionista e a equipe trabalham juntos para modificar os comportamentos relacionados ao peso e à alimentação do paciente.

O nutricionista precisa desenvolver habilidades psicoterapêuticas e, mesmo assim, trabalhar em rede com psicólogos ou psicanalistas.

De acordo com Clariely, as principais condutas do nutricionista devem ser: um amplo conhecimento da ciência da nutrição, habilidade no aconselhamento educacional e comportamental e uma atitude empática e de não julgamento.

A nutricionista diz que o profissional precisa estabelecer uma empatia com o paciente, pois isso será o grande progresso do tratamento. Qualquer indicação de dieta vai depender desse processo.

A ADA recomenda ainda duas fases no tratamento:

  • A fase educacional tem objetivos relacionados à coleta e transmissão de informações: a história alimentar do paciente, o estabelecimento de uma relação de colaboração, a definição de conceitos relevantes sobre alimentos, a apresentação de exemplos de padrões de fome e de consumo alimentar e a orientação básica para a família.
  • Já a fase experimental tem objetivos mais terapêuticos, que incluem separar comportamentos relacionados a alimentos e peso de sentimentos e questões psicológicas; incrementar as mudanças de comportamento alimentar; aumentar ou diminuir o peso gradativamente; orientar a manutenção de um peso adequado e o comportamento com o alimento em ocasiões sociais.

Atenção aos familiares

Por vezes, os familiares acreditam que conseguirão reverter o quadro do paciente sem intervenção profissional.

“Isso é um pouco complicado porque pode piorar a doença sem a percepção de quem está ao redor. É necessário estudar, se informar, procurar ajuda, saber como lidar e cuidar. Toda a família precisa de ajuda. É um trabalho complexo que requer paciência”, explica Ana Carolina.