Sexônia: o que é e riscos do distúrbio que leva ao sexo durante o sono

Atualizado em 10 de setembro de 2019

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POR Bruno Botelho dos Santos

O sonambulismo envolve, basicamente, uma série de comportamentos que não são esperados durante o sono, como se levantar e falar. E se, durante o descanso, a pessoa ter relações sexuais e não se lembrar de nada? Por mais estranho que possa parecer, a alteração existe e é chamada de sexônia ou sexonambulismo.

Além de polêmico, o problema pode ser perigoso tanto para a pessoa que o sofre quanto para seus familiares e companheiros.

Conversamos com o neurologista Lucio Huebra, membro da Academia Brasileira de Neurologia e da equipe DFV Neuro, para esclarecer este tipo de distúrbio do sono.

O que é a sexônia?

o que é sexônia
Realstock/Shutterstock

Sexônia é um distúrbio do sono que faz com que a pessoa pratique algum ato sexual enquanto dorme de forma inconsciente. Ele afeta cerca de 7% da população mundial.

É um tipo de parassonia, ou seja, um comportamento anormal durante o sono que atualmente é dividido em dois grupos:

  • Parassonias do sono REM (período em que acontecem os sonhos)
  • Parassonias não-REM, que também são chamadas de parassonias do despertar: se caracterizam por despertar parcial associado a comportamentos como falar durante o sono (sonilóquios), andar e utilizar objetos (sonambulismo), além da paralisia do sono e o despertar confuso.

Segundo o neurologista, “o sonambulismo sexual é um episódio de despertar parcial em que o paciente tem uma atividade sexual não motivada por sonhos e sem plena consciência do ato, o que explica porque ele não se lembra do fato no dia seguinte”.

A condição pode incluir:

  • Masturbação
  • Emissão de sons e vozes de cunho sexual
  • Tentativa e/ou consumação da relação sexual

Em geral, o ato de transar durante o sono é diferente do comum, já que o indivíduo pode ser mais gentil ou rude, ter orientação sexual diferente (homo ou heterossexual) ou inapropriada, como a destinada a familiares ou menores de idade.

Apesar de ser mais comum em homens (predomínio de 67 a 81% dos casos), também acontece com as mulheres. Seu início é mais comum em adultos, com média de idade de 26 a 33 anos.

Como acontece o sexonambulismo?

A sexônia é um ato automático ligado à uma falha no sistema nervoso que se manifesta durante a transição do sono superficial para o profundo por meio de um despertar parcial.

Neste caso, o lobo frontal do cérebro (responsável pelos pensamentos, emoções e juízos de valores) fica “fechado”, impedindo que as memórias do momento sejam processadas.

Quem tem sexonambulismo fica de olhos abertos, consegue visualizar, interpretar e interagir com o ambiente, porém sem o julgamento crítico adequado e, neste caso, com comportamento sexual exacerbado. Como não há lembranças do ocorrido, frequentemente os indivíduos se sentem constrangidos quando lhes é contado o que aconteceu.

“Pode ocorrer em diferentes formas e frequência, como em um único episódio na vida ou várias vezes na semana”, explica o neurologista Lúcio Huebra.

Quem pode ter?

Geralmente, quem transa dormindo têm história de outros tipos de parassonia durante a infância, seja o sonambulismo ou a paralisia do sono.

É comum ter algum fator que perturba e fragmenta o descanso, como estresse ou ansiedade, consumo de álcool naquela noite, má higiene do sono, trabalho com turno noturno, apneia do sono ou outros distúrbios associados.

Quais são os perigos? Estupro, pedofilia e mais

Como é um comportamento sexual anormal e sem plena consciência, pode haver consequências físicas graves, que podem ser:

  • Ter relações sexuais com quem não deseja, como uma pessoa que não é o seu parceiro (ato que pode ser considerado infidelidade);
  • Correr o risco de contrair ISTs (Infeções Sexualmente Transmissíveis);
  • Cometer crimes, como estupro e pedofilia.

Carlos Schenck, um famoso psiquiatra norte-americano em medicina do sono, revelou que cerca de 40% dos casos de quem faz sexo e não se lembra vem acompanhados de agressões e violência.

“São comuns problemas conjugais pela incompreensão do parceiro sobre o ocorrido e transtornos psicológicos graves, inclusive há a descrição de uma tentativa de suicídio por uma paciente que se sentiu envergonhada pelos atos durante o sono”, conta Lúcio Huebra.

Em casos de sexônia violenta ou destinada a menores de idade, podem haver consequências jurídicas, ainda mais quando o diagnóstico não é compreendido.

Sexônia tem cura?

Até agora, o sexonambulismo não tem cura, mas felizmente pode ser controlado por meio de tratamento adequado.

O que fazer?

O tratamento para sexônia envolve medicamentos – como antidepressivos e benzodiazepínicos – que eliminam os sintomas.

É importante procurar ajuda o quanto antes pois o transtorno prejudica a qualidade de vida do indivíduo e de seus companheiros.

Se o assunto lhe soou familiar, procure um neurologista ou um psiquiatra o mais rápido possível. Já caso você conheça alguém que pode apresentar sexônia, o aconselhe a buscar ajuda também. Apoio psicológico e familiar, além de cuidados com a qualidade do sono, são fundamentais

Casos famosos de sexônia

casos de tribunal
MR.Yanukit/Shutterstock

A primeira descrição do distúrbio é recente, datada em 1986 e, desde então a sexônia é considerada uma condição médica rara, tendo sido contabilizados pelo menos 112 casos na literatura médica até 2017.

Em um estudo populacional na Noruega, publicado em 2010, com 1000 indivíduos, 7,1% destes já apresentaram pelo menos um episódio de sexonambulismo ao longo da vida.

Em 2011, o britânico Stephen Lee Davies, 43, foi acusado de estuprar uma adolescente de 16 anos que se hospedou por uma noite em sua casa em setembro de 2009. Porém, ele acabou sendo absolvido por sofrer do problema.

O tribunal de Swansea, no País de Gales, o liberou após ele alegar que não consegue conter seu ímpeto sexual quando está dormindo. Sua esposa e uma conhecida confirmaram que ele mantinha relações sexuais sem estar consciente, acordando no dia seguinte sem se lembrar de nada.