HIV e Aids no mundo: números atualizados de 2017

30 de novembro de 2017 ● POR Vinicius de Vita Cavalheiro

A Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (Aids) é uma doença provocada pelo vírus HIV que ataca o sistema imunológico e deixa o corpo suscetível a diversos tipos de infecções.

Por não ter cura e ser sexualmente transmissível, a doença é cercada de mitos que sobreviveram aos quase 40 anos desde que o primeiro caso de Aids chegou aos noticiários. Tratada na época como um “câncer gay”, por ter acometido principalmente homens homossexuais, hoje sabe-se que a doença não faz distinção de qualquer natureza, seja sexual, de raça, gênero ou classe social.

HIV versus Aids

Antes de qualquer coisa, é preciso saber que HIV e Aids não são a mesma coisa. HIV é o vírus e Aids é a doença provocada pela ação deste vírus no organismo. Nem todas as pessoas que têm HIV vão, necessariamente, desenvolver Aids ao longo da vida.

“A sigla HIV significa Vírus da Imunodeficiência Humana, que, uma vez presente na corrente sanguínea, ataca as células responsáveis pela defesa do nosso corpo. Já a Aids é a Síndrome da Imunodeficiência Adquirida, um quadro clínico provocado pela destruição em massa dos linfócitos que protegem o organismo das doenças”, explica Regia Damous, infectologista do Hospital e Maternidade São Luiz. Ela diz, ainda, que normalmente a Aids só aparece depois de alguns anos, quando o sistema imunológico já está comprometido pela ação do HIV.

Por muitos anos, durante as décadas de 80 e 90, esta foi a realidade de milhões de pessoas que morreram em decorrência de complicações da Aids.

Incidência de HIV e Aids no mundo

A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que desde o início da epidemia, em 1981, até os dias atuais, cerca de 35 milhões de pessoas morreram de Aids. Este é quase o número atual de indivíduos que vivem com HIV — as estimativas da OMS dão conta de 36,7 milhões de soropositivos no mundo inteiro.

O HIV/Aids perdeu o rótulo de “epidemia” a partir do momento em que somente algumas regiões apresentam número crescente de novas infecções todos os anos. Hoje, a Aids é considerada uma pandemia graças à chegada dos antirretrovirais e a intensas políticas públicas de conscientização, prevenção e incentivo ao tratamento dos que já têm o vírus — que, hoje se sabe, também ajuda a evitar novos casos.

O cenário, porém, poderia ser melhor. Números da OMS mostram que, em 2016, foram identificados 1,8 milhão de novas infecções pelo vírus (um novo caso a cada 17 segundos) e um total de 1 milhão de mortes decorrentes de complicações na Aids.

A meta das Nações Unidas é bastante ambiciosa. Em 2015, a entidade fechou questão na meta 90-90-90, que diz que até 2020 o objetivo é ter:

  • 90% de todas as pessoas que têm HIV diagnosticadas e cientes disso;
  • 90% de todas as pessoas que têm HIV diagnosticadas, cientes disso e recebendo tratamento antirretroviral ininterrupto;
  • 90% de todas as pessoas que têm HIV diagnosticadas, cientes disso, recebendo tratamento antirretroviral ininterrupto e com carga viral indetectável.

Abaixo, o gráfico mostra o status de cada uma dessas metas faltando pouco mais de dois anos para que o prazo estabelecido pelas UNAIDS, o programa da ONU para o combate à Aids:

90-90-90 - tudo sobre aids

Apesar dos números ainda não estarem do jeito que as autoridades mundiais de saúde pública gostariam, hoje é perfeitamente possível ter HIV e viver normalmente, com o sistema imunológico funcionando perfeitamente.

Como é viver com HIV hoje em dia?

Isso só foi possível pelos avanços na medicina que desenvolveu medicamentos capazes de combater a multiplicação do HIV no organismo e reduzir a sua presença na corrente sanguínea — o que contribui não só para a qualidade de vida do soropositivo mas também para diminuir ainda mais as chances de transmissão.

Não há cura para HIV, pois o vírus, uma vez instalado no organismo, se esconde de tal forma que especialistas ainda não conseguiram encontrar uma forma de tirá-lo do esconderijo e eliminá-lo de vez. O que é possível fazer é justamente reduzir a carga viral do sangue, que impede o ataque do HIV às células de defesa e, por sua vez, também diminui significativamente as chances de um soropositivo transmitir o vírus para outra pessoa.

Este, inclusive, é o principal objetivo do tratamento: suprimir a carga viral até que ela fique indetectável, literalmente. Há casos de soropositivos que, após algum tempo seguindo o tratamento antirretroviral, ficaram com os níveis de HIV no sangue tão baixos que, ao refazerem o teste de sorologia, deu negativo — mesmo eles ainda tendo o vírus dentro do organismo em algum lugar.

Essa realidade é muito recente. “Há alguns anos, quem recebia o diagnóstico positivo para HIV era a mesma coisa que receber uma sentença de morte”, afirma Clícia Quadros, ginecologista e especialista em saúde sexual feminina. Ela se refere à época em que muitas vezes a pessoa só descobria que tinha o vírus quando já estava com os primeiros sintomas da doença. Às vezes, o diagnóstico vinha tarde demais.

Não era raro, por exemplo, pessoas descobrirem a sorologia e em poucos meses irem à óbito em decorrência da Aids. “Hoje em dia, porém, é possível ser soropositivo e viver bem, desde que se tome os medicamentos conforme o indicado e seguindo corretamente as recomendações médicas”, esclarece a especialista.

Só que apesar dos avanços, o HIV ainda assusta muita gente. O estigma e o preconceito permanecem mesmo nos dias de hoje e são um dos principais obstáculos para erradicar de vez a Aids do cenário internacional.

Números de HIV e Aids no mundo

Número total, novos casos, mortes e acesso a tratamentos

  • Cerca de 36,7 milhões de pessoas vivem com HIV;
    • 34,5 milhões são adultos e 2,1 milhões são crianças ou pré-adolescentes abaixo dos 15 anos;
    • 17,8 milhões são mulheres acima dos 15 anos;
  • 20,9 milhões de pessoas com HIV têm acesso à terapia antirretroviral (junho/17);
    • Aumento de 22% em relação a 2015 (17,1 milhões) e de 71% em comparação com 2010 (7,7 milhões);
  • 1,8 milhão de novos casos de HIV foram diagnosticados em 2016;
    • Desde 2010, o número de novos casos entre adultos caiu 11% (de 1,9 milhão para 1,7 milhão);
    • Desde 2010, o número de novos casos entre crianças caiu 47% (de 300 mil para 160 mil);
  • 1 milhão de pessoas morreram em decorrência da Aids em 2016;
    • Queda de 33% em relação a 2010 (1,5 milhão) e de 47% em comparação com 2005 (1,9 milhão);
  • 76% das gestantes soropositivas recebem tratamento antirretroviral para evitar transmissão vertical (de mãe para filho);
  • 60% das pessoas que vivem com HIV sabem de sua sorologia;

HIV e tuberculose

  • 1 em cada 3 mortes relacionadas à Aids foi de tuberculose em 2015;
    • 57% dos casos de tuberculose provocados por Aids não foram diagnosticados nem tratados
  • Dos 10,4 milhões de casas de tuberculose em 2016, 11% (ou 1,2 milhão) foram em pessoas que vivem com HIV;
  • O número de mortes por tuberculose relacionada à Aids caiu 33% entre 2005 e 2015;

HIV por região do mundo

Regiões sul e leste da África

  • 19,4 milhões de pessoas vivendo com HIV nas regiões sul e leste da África;
    • 59% deste total correspondem a mulheres e meninas;
  • 43% de todos os novos casos de HIV no mundo aconteceram nesta região da África (ou 790 mil, em números absolutos);
  • O número de novos casos de HIV nesta região caiu 29% entre 2010 e 2016;
  • 420 mil pessoas morreram de doenças relacionadas à Aids em 2016;
    • Entre 2010 e 2016, este número caiu 42%;
  • 60% do total de pessoas vivendo com HIV nas regiões sul e leste da África tinham acesso a tratamento em 2016 (o equivalente a 11,7 milhões de pessoas);

Regiões oeste e central da África

  • 6,1 milhões de pessoas vivem com HIV nas regiões central e oeste da África;
    • 56% deste total são mulheres;
  • Houve 370 mil novos casos nesta região em 2016;
    • Este número caiu 9% em relação aos dados de 2010;
  • 310 mil pessoas morreram de doenças relacionadas à Aids;
    • O número de mortes caiu 21% em comparação com 2010;
  • 2,1 milhões, ou 35% das pessoas que vivem com HIV nesta região têm acesso ao tratamento;

Centro-oeste e norte da África

  • 230 mil pessoas vivem com HIV nesta região superior da África;
  • Houve 18 mil novos casos do vírus em 2016;
  • 11 mil pessoas morreram em decorrência da Aids no ano passado também;
    • Houve queda de 19% neste índice em relação aos números de 2010;
  • Somente 24% das pessoas que vivem com HIV nesta região recebem tratamento;

Ásia e Pacífico

  • 5,1 milhões de pessoas vivem com HIV nas regiões da Ásia e do Pacífico;
  • Foram 270 mil novos casos em 2016;
    • Houve queda de 13% no número de novos casos entre 2010 e 2016;
  • 170 mil pessoas morreram em decorrência da Aids em 2016;
    • O número de mortes caiu 30% entre 2010 e 2016;
  • 47% das pessoas que vivem com HIV nesta região têm acesso a tratamento — ou 2,4 milhões de pessoas;

América Latina

  • Em 2016, havia 1,8 milhão de pessoas vivendo com HIV na América Latina;
  • Houve, ainda, 97 mil novos casos de HIV nesta região;
  • 36 mil pessoas morreram em decorrência da Aids em 2016;
    • Queda de 12% em comparação com 2010;
  • 58% das pessoas vivendo com HIV na América Latina têm acesso ao tratamento;

Caribe

  • 310 mil pessoas viviam com HIV na região caribenha em 2016;
  • Foram 18 mil novos casos na região em 2016;
  • 9.400 pessoas morreram em decorrência da Aids em 2016 — queda de 28% em relação a 2010;
  • 52% das pessoas que vivem com HIV no Caribe têm acesso a tratamento;

Leste europeu e Ásia central

  • 1,6 milhão de pessoas viviam com HIV nessas regiões;
  • Foram 190 mil novos casos do vírus no ano passado;
    • Houve crescimento de 60% no número de novos casos em relação a 2010;
  • 40 mil pessoas morreram em decorrência da Aids em 2016
    • Isto representa um aumento de 27% no número de óbitos provocados pela doença em relação a 2010;
  • Apenas 28% das pessoas que vivem com HIV recebem tratamento nas regiões do leste europeu e Ásia central;

Europa (oeste e centro) e América do Norte

  • 2,1 milhões de pessoas vivendo com HIV nestas regiões;
  • 73 mil novos casos de infecção por HIV em 2016;
  • 18 mil pessoas morreram por complicações da Aids em 2016;
    • Este número caiu 32% em relação a 2010;

Fonte: Organização Mundial da Saúde (OMS)

Com a colaboração de Gabriela Semionato.