Antidepressivos só devem ser prescritos por psiquiatras de confiança

12 de dezembro de 2017

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POR Lucas Coelho

A depressão não é uma doença nova. O ser humano vem buscando formas de tratar esse problema já faz alguns séculos, e a lista de tentativas é extensa, indo do ópio ao álcool. Conforme o conhecimento sobre a doença foi evoluindo, definiu-se pelo nome que usamos hoje, e assim ganharam nome também os remédios usados para tratá-la, chamados de antidepressivos.

A psiquiatria tem em sua história uma parcela considerável de polêmicas, abusos e discussões, especialmente ao longo do século XX, mas é uma especialidade da medicina importante e que não deve ser desdenhada. Foi a partir do estudo da mente que pôde-se criar tratamentos efetivos para diversos sofrimentos mentais.

O que são antidepressivos?

Os antidepressivos correspondem a uma gama de diferentes tipos de medicamentos. O propósito primordial deles está no nome e é justamente tratar a depressão. No entanto, a partir do momento em que a psiquiatria conseguiu diferenciar e diagnosticar os mais variados distúrbios mentais, os antidepressivos se tornaram um grupo de remédios que podem cuidar também de outras doenças.

Neste texto, vamos discutir um pouco sobre estes medicamentos, suas utilidades e os cuidados que todos devemos ter em relação a eles. Antes de tudo, lembre-se que você nunca deve se automedicar. Antidepressivos precisam ser comprados com receita médica e tentar lidar com problemas psíquicos sem a ajuda de um especialista pode agravar a situação.

Depressão ou tristeza?

Antes de tudo, vamos discutir sobre a doença que impulsionou a criação dos antidepressivos: a depressão. Estamos falando de uma patologia que aflige o cérebro e não somente de uma sensação de tristeza.

Por mais que algo grave e infeliz aconteça em nossa vida, a simples sensação de tristeza não caracteriza depressão. Um sujeito deprimido sofre de uma disfunção no funcionamento químico de seu cérebro, que afeta principalmente os neurotransmissores. Por isso, é tão difícil estimular alguém com depressão, pois a mente não consegue fazer as ligações que geram a sensação de prazer, por exemplo.

Entre os sintomas da depressão, além da tristeza e da melancolia profunda, estão também a indiferença ao seu redor, cansaço, distúrbios de sono e de apetite, indisposição, desânimo e tantos outros.

Os antidepressivos

Fossem apenas sintomáticos, portanto, os antidepressivos teriam uma quantidade enorme de situações para cuidar e provavelmente não surtiriam efeito. O objetivo destes remédios é atuar diretamente no cérebro, melhorando a sua composição química e, por consequência, o funcionamento da mente.

Os antidepressivos, porém, não devem ser encarados como resposta única para os problemas mentais. Eles auxiliam a psicoterapia, que é fundamental em todo tratamento. Como explica a psiquiatra do Hospital Pequeno Príncipe de Curitiba, Maria Carolina Serafim, “a medicação é parte de um plano terapêutico amplo de qualquer atendimento”.

Especializada em cuidar de crianças e adolescentes, ela lembra que há outros elementos que precisam ser levados em conta. “Em geral, o paciente sofre efeitos de diversos fatores ambientais, como familiar, escolar e outros âmbitos sociais. Então, o tratamento muitas vezes envolve abordagens intersetoriais”.

Segundo ela, a primeira opção de tratamento para crianças é a psicoterapia.

Além da depressão

A funcionalidade da psiquiatria é inegável, mas ainda está longe do fim a discussão sobre como entender a importância, o papel e a influência das diversas substâncias químicas presentes no cérebro.

Hoje, existe um entendimento de que, mais do que tentar lidar pontualmente com a falta ou a abundância de determinados elementos, é fundamental diminuir o nível de estresse do cérebro. “O direcionamento dos novos antidepressivos é justamente produzir um nível maior de proteção à elevação do estresse”, afirma Maria Carolina.

Desta forma, diversas outras doenças e condições mentais podem ser tratadas por meio do uso de antidepressivos. Ansiedade, transtornos obsessivos-compulsivos, fobia social, pânico e estresse pós-traumático são alguns dos exemplos.

Alguns casos de bulimia e transtorno disfórico pré-menstrual (espécie de super TPM, com sintomas muito mais fortes) também respondem a estes medicamentos.

Os tipos de antidepressivos

Atualmente, é possível encontrar uma variedade enorme de antidepressivos. Alguns dos nomes mais famosos são Prozac, Zolof, Daforin e Eufor, entre outros. À vista disso, o médico tem diversas opções que funcionam e são mais indicadas para cada caso.

“Os inibidores da recaptação da serotonina e da noradrenalina são os mais utilizados atualmente”, conta Serafim. Os conhecidos Zolof e Prozac, por exemplo, são drogas de composição completamente diferentes, mas que atuam com essa mesma função de recaptação da serotonina.

Há também fármacos chamados tricíclicos, que são um pouco mais antigos, mas ainda bastante utilizados. Sua aplicação, contudo, é bem delicada e feita com restrições, pois os tricíclicos têm efeitos colaterais preocupantes.

É a partir da avaliação clínica do paciente, com exames físicos e laboratoriais, que será possível para o psiquiatra definir qual o melhor antidepressivo para o caso dele. No tratamento de uma criança, por exemplo, é preciso observar ainda mais os efeitos colaterais, sempre ajustando de acordo com a idade e as condições físicas e psíquicas.

Efeitos colaterais

Vamos, então, falar sobre os efeitos que podem vir com do uso de antidepressivos. A lista é extensa, justamente porque os efeitos variam para cada tipo de remédio. Além disso, cada paciente também pode manifestar condições distintas.

De maneira geral, os efeitos colaterais incluem náuseas, vômitos, dor de cabeça, insônia, tonturas, boca seca e também secura das mucosas, diarreias e perda de libido. Não há como garantir o que vai ou não vai ocorrer.

É fundamental ouvir do médico os efeitos possíveis e ficar de olho, pois caso se tornem insuportáveis, o tratamento pode ser revisto.

É interessante notar que os efeitos colaterais provavelmente irão aparecer antes de o remédio dar resultado. Então, como se trata de um tratamento longo (durando no mínimo um semestre e que pode se estender para muito mais do que isso), é fundamental entender se essa é a única possibilidade e se realmente vale a pena se submeter aos efeitos secundários do antidepressivo indicado.

Há perigo de dependência?

Essa dúvida aflige muita gente, mas, de acordo com Maria Carolina, é uma ideia errada. Não há risco de alguém ficar viciado, mas é possível passar por uma crise de abstinência se o paciente simplesmente parar de tomar os antidepressivos. A “retirada”, ou seja, o fim do tratamento, deve ser gradual, com as doses diminuindo pouco a pouco.

O que existe, na visão de parte dos especialistas, é que hoje há prescrição generalizada de antidepressivos, mesmo para quem em tese não precisa do remédio para aliviar os sintomas. Por isso é tão importante consultar um psiquiatra de confiança, que não receite medicamentos a torto e a direito.

A eficácia de antidepressivos é garantida?

Segundo alerta a especialista, a eficácia dos antidepressivos depende de diversos fatores. “É preciso considerar a forma como são estabelecidos os planos terapêuticos, pois o tratamento não pode ficar centrado apenas no uso da medicação”, diz a psiquiatra.

“É importante escolher a medicação de acordo com os sintomas, mas tudo deve estar associado à psicoterapia e ao trabalho terapêutico. Em geral, esse trabalho interdisciplinar auxilia na eficácia e também na redução do tempo de uso das medicações”, completa.

O tratamento com antidepressivos sempre pode ser ajustado, especialmente se o paciente não conseguir se adaptar aos efeitos colaterais. Isso é comum, mas muitas vezes as pessoas simplesmente diminuem as doses por conta própria ou não tomam da maneira correta — o que inevitavelmente acaba prejudicando a eficácia do tratamento.