Como a violência contra crianças afeta o desempenho escolar?

06 de outubro de 2017

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POR Bruno Botelho dos Santos

Vários estudos já comprovaram que a violência contra crianças causa diversos impactos negativos ao longo da vida. Em 2014, por exemplo, o Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad) mostrou que aproximadamente um em cada cinco adultos que usam ou já usaram drogas lícitas ou ilícitas sofreu algum tipo de agressão na infância.

Desta vez, dois pesquisadores da Universidade Estadual da Pensilvânia, nos Estados Unidos, fizeram uma nova descoberta: a violência contra crianças pode, também, afetar o desempenho escolar.

Por mais óbvio que possa parecer, o novo estudo mostra que as consequências de castigos severos dentro de casa podem prejudicar não só a performance da criança na escola, como também pode impactar negativamente no desenvolvimento de suas habilidades sociais, levando-a ao isolamento.

Mais sobre a pesquisa

Publicado na revista científica Elsevier, o estudo analisou mais de 650 crianças e seus respectivos responsáveis. Por meio de relatos pessoais, cada uma delas foi enquadrado em um cenário: punição corporal leve, castigo corporal e violência física mais grave. A partir disso, os cientistas Sarah Font e Jamie Cage, que conduziram o estudo, mensuraram os resultados cognitivos, o engajamento nos estudos e outras características, como isolamento e sintomas depressivos.

Consequências da violência contra crianças

As conclusões obtidas no estudo mostram que não importa o grau da punição: a violência contra crianças afetou as habilidades sociais de todas as crianças participantes. Por outro lado, somente os castigos corporais mais severos foram associados a quadros de isolamento.

Os pesquisadores também entenderam que os castigos podem até não resultar em lesões físicas graves ou irreversíveis, mas deixam marcas no psicológico, levando muitas crianças e adolescentes a manifestarem sintomas de medo e angústia que os acompanham por toda a juventude.

Um estudo da Unicef já mostrou que esses danos psicológicos, sim, podem ser irreversíveis.

Mas, para Sarah Font, que também é professora de sociologia e membro da Child Maltreatmeent Solutions Network, que contribui para a prevenção da violência contra crianças e trata jovens maltratados, afirma que o castigo é muitas vezes usado pelos pais para mostrar aos filhos que um determinado comportamento é errado e que eles devem mudar suas atitudes. Mas, segundo os resultados da pesquisa, castigos físicos, independentemente do grau, impedem que as crianças entendam de fato a diferença entre o que é certo e o que é errado.

A melhor maneira de educar seria explicando, por meio de um raciocínio lógico e prático, por que alguns comportamentos precisam mudar.

Violência contra crianças no Brasil

Em junho de 2014, foi sancionada a Lei Menino Bernardo, que estabelece o direito da criança e do adolescente de serem educados e cuidados sem o uso de castigos físicos ou de tratamento cruel ou degradante. Esta é uma lei preventiva, que busca romper com a aceitação e/ou banalização do uso de castigos físicos e humilhantes.

A lei leva esse nome devido ao caso de Bernardo Boldrini, um menino de 11 anos que foi assassinado em 2014, em Três Passos (RS), onde morava e era vítima de violências provocadas pelo pai e a madrasta.