Laqueadura: como é feita, tipos e eficácia da cirurgia que impede a gravidez

Atualizado em 27 de setembro de 2018

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POR Manuela Sampaio

Tomar pílulas todo dia, usar DIU, confiar na camisinha ou fazer a tabelinha: todos esses são métodos para impedir a gravidez. Para quem já cansou deles, há outra opção da qual muitas vezes não lembramos: a laqueadura. Antes de optar por ela, no entanto, é preciso ter absoluta certeza de que não há desejo de ter filhos no futuro.

Entenda como ela é feita e todos os efeitos a seguir.

O que é laqueadura?

A laqueadura é uma cirurgia que bloqueia, liga ou corta as tubas uterinas (também chamadas de trompas), prolongamentos que conectam o útero aos ovários.

O procedimento, portanto, impede que espermatozoides (provenientes do canal vaginal e útero) e óvulos (liberados pelos ovários) se encontrem e gerem o embrião. De acordo com a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), sua eficácia é de 99%.

A partir de que idade a cirurgia é indicada?

De acordo com a lei brasileira, mulheres com 25 anos ou mais ou pelo menos dois filhos podem se submeter à laqueadura. Caso seja casada, é necessário que haja consentimento do marido. O mesmo vale para a vasectomia, que é a cirurgia de esterilização masculina.

A decisão de passar pela esterilização cirúrgica deve ser tomada somente depois de uma ampla conversa com o médico e de ter certeza absoluta de que não há o desejo de ter filhos no futuro, uma vez que a reversão do procedimento é um complexa.

Tipos de laqueadura

Existem diferentes tipos de laqueadura, sendo que todos visam bloquear a passagem entre útero e ovário a fim de evitar que óvulo e espermatozoide se encontrem.

De acordo com o National Health Service (NHS), do Reino Unido, há laqueaduras feitas por meio de clipagem, oclusão ou amarração (junto com corte e remoção) das trompas.

Como é a cirurgia?

De acordo com o The American College of Obstetricians and Gynecologists, há três maneiras de realizar laqueadura nas trompas:

Minilaparotomia

Esse método é o mais usado nos Estados Unidos após partos, segundo estudo publicado no periódico Reviews in Obstetrics and Gynecology e feito por pesquisadores da Universidade de Harvard.

Ele é realizado por pequenas incisões no abdômen. Depois disso, as tubas são trazidas para cima para serem visualizadas e é removida uma pequena parte ou toda a extensão de cada uma delas. Menos frequentemente, são usados clipes para bloqueá-las.

Laparoscopia

Nesse tipo de cirurgia, é usado um laparoscópico para visualizar os órgãos abdominais e, então, é feito o bloqueio das tubas.

A introdução dos aparelhos pode ser feita através do umbigo e de um ou dois cortes em outros pontos do abdômen. Umas vez visualizadas as trompas, elas podem ser ocluídas com técnicas eletrocirúrgicas ou mecânicas (com clipes).

As pacientes levam de 48 a 72 horas para se recuperar e podem ter dor na região da incisão.

Histeroscopia

Sem incisões na pele, é feita em consultório médico com anestesia local. É colocado um pequeno implante através da vagina até a abertura das trompas. Esse dispositivo forma uma cicatriz no tecido local que é capaz de bloquear a passagem de espermatozoides e óvulos.

A infertilidade demora três meses para se instalar e deve ser confirmada por exames.

É importante lembrar que o Essure, o implante utilizado com essa finalidade, chegou a ser proibido pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) após serem identificados efeitos colaterais, como alteração do sangramento menstrual, gravidez, dor crônica e perfuração e migração do dispositivo. Alguns meses depois, ele foi novamente liberado.

Como é a recuperação?

Geralmente, a mulher recebe alta e pode ir para casa assim que passarem os efeitos anestésicos, o que em geral acontece no mesmo dia, mas deve estar acompanhada e evitar tarefas que exijam muita coordenação, como dirigir.

De acordo com o NHS, nos primeiros cinco dias é indicado repousar e evitar tarefas que envolvam pegar peso ou fazer muito esforço.

Durante a primeira semana é normal sentir dor abdominal, como uma cólica, e ter sangramento vaginal discreto por conta da manipulação cirúrgica. As relações sexuais podem ser retomadas assim que a mulher se sentir confortável para tal.

Contraindicações

Mulheres com menos de 25 anos e com menos de dois filhos não podem realizar o procedimento.

Caso haja dúvidas sobre o desejo de ser mãe também não é recomendado passar pela laqueadura.

Além disso, caso haja qualquer infecção ou inflamação na região é indicado saná-la para então realizar a cirurgia.

Riscos

De acordo com a The Family Planning Association (FPA), instituição de saúde do Reino Unido, há riscos após a laqueadura relacionados à manipulação cirúrgica, como sangramentos, reações à anestesia, infecções e dor nas incisões.

Além disso, caso o método falhe e a mulher venha engravidar, há riscos elevados de gravidez ectópica, que é a fixação do embrião fora da cavidade uterina, geralmente nas trompas.

Diminui a libido?

Apesar de a mulher normalmente não se sentir propensa às relações sexuais nos primeiros dias, a laqueadura tubária não altera em nada o desejo sexual ou a ovulação – os óvulos passam a ser absorvidos pelo corpo.

Continuo menstruando?

A laqueadura também não impede o acúmulo de tecido endometrial e sua eliminação sob a forma de menstruação. A alteração nas trompas em nada afeta esse processo.

Engorda?

Não há mudança na produção hormonal da mulher em decorrência da laqueadura, portanto, ela não propicia o ganho peso.

Em quanto tempo fará “efeito”?

A maior parte das ligações tubárias tem efeito imediato, apesar disso, alguns serviços de saúde recomendam uso de outro método contraceptivo por sete dias, até que a cicatrização esteja completa.

ale lembrar que o procedimento não previne Doenças Sexualmente Transmissíveis (DSTs), como HIV e sífilis, por isso a camisinha deve continuar sendo usada.

Nos casos de colocação de implante tubário, a infertilidade demora três meses para se instalar e deve ser confirmada por exames.

Gravidez após laqueadura: dados de segurança do método

A eficácia da laqueadura é de cerca de 99%. Segundo a The American College of Obstetricians and Gynecologists, as chances de ter uma gravidez em 10 anos após o procedimento é de 18 a 37 a cada mil mulheres, o que torna o método altamente eficaz.

O que acontece com os óvulos?

A mulher não deixa de ovular após a laqueadura. De acordo com a FPA, eles passam a ser reabsorvidos pelo próprio organismo.

Posso fazer pelo SUS? E pelo convênio médico?

A laqueadura pode ser feita pelo SUS por mulheres com mais de 25 anos ou com ao menos dois filhos.

Pelo plano de saúde, a laqueadura também está coberta.

Reversão de laqueadura: é possível e voltar a ter filhos?

De acordo com o setor de Reprodução Humana do Hospital São Paulo, a reversão da laqueadura é feita por meio da reconstrução microcirúrgica das trompas com ajuda de um microscópio cirúrgico e instrumentos especiais.

A operação deve ser feita por um cirurgião especialista em microcirurgia.

Há boas chances (80%) de gravidez após a reversão da laqueadura, mas isso depende do potencial fértil da mulher (que diminui com o avançar da idade, por exemplo), do local em que foi feita a cirurgia e da parcela que foi removida das tubas.

Fontes

Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo).
Contraceptivos cirúrgicos: uma escolha definitiva.
https://www.febrasgo.org.br/pt/noticias/item/38-contraceptivos-cirurgicos-uma-escolha-definitiva

National Health Service (NHS). Female sterilisation. https://www.nhs.uk/conditions/contraception/female-sterilisation/#how-sterilisation-is-carried-out

The American College of Obstetricians and Gynecologists. Sterilization for Women and Men. https://www.acog.org/Patients/FAQs/Sterilization-for-Women-and-Men

Ministério da Saúde. PORTARIA Nº 48, DE 11 DE FEVEREIRO DE 1999. http://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/sas/1999/prt0048_11_02_1999.html