Gravidez ectópica: sintomas, causas e tratamentos da gestação fora do útero

Atualizado em 14 de maio de 2019

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POR Manuela Sampaio

Quando o espermatozoide fertiliza o óvulo, o caminho natural é que essa nova estrutura se fixe na parede da cavidade uterina, onde se desenvolverá e, mais tarde, se tornará um bebê. Em alguns casos, no entanto, o embrião se fixa fora do útero, quadro que é chamado de gravidez ectópica.

Neste acometimento, a instalação costuma ocorrer nas trompas de falópio, mas também pode se apresentar em outros lugares, como ovários, na parte baixa do útero e até mesmo na cavidade abdominal.

A gestação ectópica oferece riscos e precisa ser interrompida. Caso contrário, as estruturas do corpo da mulher podem sofrer danos seríssimos que podem resultar em graves hemorragias e até morte. Entenda:

O que é gravidez ectópica?

Gravidez nas trompas.
Veronika Zakharova/Shutterstock

A gravidez ectópica acontece quando o óvulo da mulher, fertilizado pelo espermatozoide, se fixa em um lugar que não é o interior do útero.

De acordo com o The American College of Obstetricians and Gynecologists, em 90% dos casos a implantação ectópica acontece nas trompas de Falópio, gerando a chamada gravidez nas trompas.

Também chamadas de tubas uterinas, essas estruturas possuem cerca de 10 centímetros de comprimento, são contráteis e se projetam do útero para as laterais da pelve, onde estão os ovários. Elas são responsáveis por levar os óvulos provenientes dos ovários em direção à cavidade uterina. No sentido oposto, vêm os espermatozoides e, por isso, as tubas costumam ser o ponto de encontro entre os gametas. Após a fecundação, as tubas transportam o embrião até a cavidade uterina. Porém, nos casos de gravidez ectópica, ele se consolida ali mesmo.

Ainda há casos mais raros em que o embrião migra para outros locais e se fixa na parte baixa do útero, chamada de cérvix, nos ovários ou na cavidade abdominal.

Causas

Existem algumas causas de gravidez ectópica bem conhecidas pela ciência, porém, muitas mulheres ainda as desconhecem. Veja quais:

Inflamação ou infecção das tubas

De acordo com a The American Pregnancy Association, associação norte-americana para pesquisa do quadro, acometimentos que causem a inflamação ou infecção das tubas, como gonorreia ou sífilis, podem causar gravidez tubária.

Isso acontece porque a contratilidade das tubas pode ficar reduzida, impedindo que o embrião volte ao útero adequadamente.

Cirurgia tubária

Procedimentos prévios na tuba podem causar gravidez ectópica por gerar aderências, cicatrizes e outras alterações na estrutura que impedem a ideal movimentação do embrião.

Tabagismo

O cigarro está intimamente relacionado à gravidez ectópica e, apesar de ainda não haver uma resposta definitiva, acredita-se que o fumo cause mudanças estruturais e celulares nas tubas, predispondo a fixação do embrião fora do útero, como descobriu um estudo realizado pela Universidade de Edinburgh, no Reino Unido.

Tratamentos para fertilidade

Alguns estudos apontam que mulheres que passam por procedimentos para fertilidade, como fertilização in vitro (FIV), têm mais chances de desenvolver gravidez fora do útero.

De acordo com uma pesquisa realizada na Universidade McGill, no Canadá, a chance em mulheres que fizeram FIV é maior entre aquelas cuja alteração de fertilidade era causada por fatores tubários ou que passaram por cirurgia para tratar endometriose.

Gravidez ectópica prévia

Segundo a organização britânica Ectopic Pregnancy Foundation, as mulheres que já tiveram gravidez ectópica prévia têm chances 10% maiores de tê-la novamente.

DIU e ligação das trompas

A gravidez em mulheres que usam Dispositivo Intrauterino (DIU) ou fizeram laqueadura não é comum, mas caso haja fecundação acidental, as chances de gestação ectópica são maiores.

Gravidez ectópica e pílula do dia seguinte

Muito se fala sobre a relação entre pílulas contraceptivas emergenciais e gravidez ectópica. A conexão estaria nos efeitos do medicamento sobre o sistema reprodutor feminino.

Substâncias presente nesses remédios, como o levonorgestrel, agem de diversas maneiras. Uma dessas ações é a diminuição da mobilidade nas trompas de Falópio, o que atrasa o transporte do óvulo fecundado e aumenta as chances de gravidez nas tubas.

Apesar de casos deste tipo já terem sido descritos em periódicos – como fez o estudo publicado em 2010 pelo Journal Of The Turkish-German Gynecological Association -, a pesquisa mais ampla sobre o tema não foi capaz de confirmar a relação.

A análise ampla, realizada por pesquisadores da Universidade de Princeton, nos Estados Unidos, fez uma revisão da literatura médica já publicada sobre a associação de pílulas do dia seguinte e gravidez ectópica e não encontrou uma relação significativa entre os dois fatores.

Sintomas de gravidez ectópica

sintomas gravidez ectópica
Zetar Infinity/Shutterstock

Assim como uma gravidez normal, a ectópica pode demorar um pouco para dar sinais.

Muitas vezes, os primeiros sintomas são os mesmos decorrentes de uma implantação adequada do embrião: atraso menstrual, mamas densas ao toque e náuseas. Pode haver também sangramento vaginal leve e dor pélvica.

Caso a gravidez ectópica progrida, outros sintomas, cada vez mais graves, serão sentidos, entre eles:

  • Dor pélvica forte, geralmente com início em um dos lados do abdômen
  • Sangramento vaginal
  • Dor no sexo
  • Hemorragia causada pelo rompimento de estruturas internas
  • Tonturas e desmaios causados pela hemorragia
  • Dor no ombro, causada por hemorragia sob o diafragma
  • Choque hipovolêmico – em que há baixo nível de plasma no sangue

Menstrua?

Apesar da gestação não ser viável, a mulher sofre alterações hormonais típicas e deixa de menstruar. É preciso atenção, no entanto, para não confundir o possível sangramento gerado pelo processo na trompa com o fluxo normal.

Dá positivo no teste de farmácia?

Como dito, a gestação ectópica causa as mesmas alterações hormonais da gravidez usual e, por isso, o teste de farmácia a detecta.

Dura quanto tempo?

O acometimento não tem um tempo específico de duração, mas sabe-se que após 12 semanas há risco elevado para a mãe.

Diagnóstico

O exame físico, assim como a descrição dos sintomas, pode fazer o médico desconfiar de uma gravidez ectópica. No entanto, apenas exames laboratoriais e de imagem serão capazes de confirmar o quadro.

O primeiro teste a se fazer é o Beta-hCG, o exame de sangue que detecta gravidez. Caso ele dê positivo, é indicado realizar um ultrassom, que poderá dizer exatamente onde está localizado o embrião.

Qual profissional devo procurar?

No início, quando os sintomas ainda não deixam claro se existe gravidez ectópica, a mulher deve buscar um ginecologista, especialista apto a diagnosticar e tratar a condição.

Caso você tenha sintomas mais graves, como dor intensa no abdômen ou sangramento vaginal incessante, vá direto à emergência.

Tem cura?

A gravidez ectópica oferece grandes riscos à mulher, inclusive de morte em decorrência da ruptura de estruturas internas, como as trompas, e consequente hemorragia. Por isso, a recomendação absoluta é interromper a gestação.

Tratamento da gravidez ectópica

tratamento para gravidez ectópica
Shidlovski/Shutterstock

É fundamental, para que a vida da mulher seja preservada, que o tecido ectópico seja eliminado. Existem diferentes formas de fazê-lo, a depender dos sintomas e do estágio da gestação:

Medicamentos

Uma gravidez nas trompas inicial, com a paciente estável e sem sinais de ruptura, pode ser interrompida pelo uso de medicação, como o metotrexato, que atua impedindo a formação de novas células embrionárias e eliminando as já existentes.

De acordo com o Ministério da Saúde, a administração do remédio é realizada por injeção intramuscular em dose única e, além de a mulher ter que estar livre de complicações, é preciso que a dosagem de beta-hCG seja inferior a 5.000 mUI/ml e que a massa ectópica seja inferior a 4 cm.

Cirurgias

Em casos mais avançados, é necessário fazer uma cirurgia laparoscópica. Através de uma pequena incisão abdominal, é removido o material ectópico e, caso haja necessidade, é feita a reparação da tuba.

Em situações de hemorragia, é necessária uma cirurgia laparoscópica emergencial para estancar o sangramento. Quando não é possível reparar a lesão, se torna necessário remover a tuba. Este procedimento se chama salpingectomia.

Complicações

Se a gestação ectópica não for identificada logo no início e o embrião crescer em local impróprio, as estruturas próximas, como as tubas de falópio, podem se romper e causar sangramentos abundantes.

A perda de sangue gera o chamado choque hipovolêmico, ou seja, carência de volume de sangue no sistema circulatório, o que dificulta a distribuição de oxigênio pelo corpo e pode levar à falência de tecidos e órgãos e, caso não seja revertido, à morte.

Além disso, há casos de gravidez ectópica em que é necessário remover uma das tubas. O procedimento dificulta gestações posteriores, pois essa parte do sistema reprodutor fica inutilizada.

Por fim, é importante lembrar que a mulher que passa por esse processo pode sofrer consequências emocionais e até traumas. Por isso, é importante que as pessoas ao redor ofereçam apoio e cogitem a procura por psicólogos e psiquiatras.

Prognóstico

A gravidez ectópica é inviável, por isso, são necessários tratamentos para interrompê-la. Ela não impede, no entanto, que a mulher engravide novamente.

Apesar de as mulheres que passaram pela gestação fora do útero apresentarem risco 10% maior de terem isso novamente, há grandes chances de uma gestação normal.

Prevenção

Nem sempre a gestação ectópica é prevenível, mas algumas das medidas que as mulheres podem tomar para reduzir suas chances são:

  • Sempre utilizar preservativos nas relações sexuais, evitando a contaminação por DSTs que predisponham a gravidez ectópica, como a clamídia;
  • Não fumar, o que pode causar alterações nas trompas de Falópio.

Fontes

The American College of Obstetricians and Gynecologists. Tubal pregnancy. Disponível em: www.acog.org/Clinical-Guidance-and-Publications/Practice-Bulletins/Committee-on-Practice-Bulletins-Gynecology/Tubal-Ectopic-Pregnancy?IsMobileSet=false

The American Pregnancy Association. Ectopic Pregnancy. Disponível em: americanpregnancy.org/pregnancy-complications/ectopic-pregnancy

Ministério da Saúde. Manual de Gestação de alto risco. Disponível em: bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/gestacao_alto_risco.pdf