Câncer de mama: 14 perguntas e respostas sobre a doença

25 de setembro de 2017

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POR Marina Zyrianoff

Os números do câncer de mama no Brasil e no mundo assustam. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), este é o tipo mais comum e o que mais mata mulheres no mundo. Para se ter uma ideia, todos os anos 1,5 milhão de novos casos são diagnosticados e, só em 2015, 570 mil mulheres morreram em decorrência do câncer de mama.

No Brasil, o cenário não é muito melhor. A estimativa do Instituto Nacional do Câncer (INCA) para 2016 era de quase 58 mil novos casos de câncer de mama por aqui, sendo que mais da metade costuma acontecer somente na região sudeste do país.

Os dados alarmantes levantam muitas dúvidas a respeito da doença, e ter informação sobre câncer de mama ajuda — e muito — na prevenção e no diagnóstico precoce, vistos pela comunidade médica internacional como a saída mais eficaz para reduzir o números de mortes decorrentes do câncer.

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Pensando nisso, elaboramos um Q&A com 14 perguntas e respostas sobre câncer de mama. Confira abaixo:

1. Qual a idade mais comum para o desenvolvimento do câncer de mama?

O câncer de mama ocorre predominantemente em mulheres depois da menopausa. Porém, apesar da incidência ser baixa, pode acontecer também em mulheres jovens antes dos 40 anos — idade em que é recomendado o início da mamografia anual.

Há estudos, inclusive, que mostram que o número de casos de câncer de mama entre mulheres na faixa de 25 aos 35 anos têm aumentado nas últimas décadas, ainda que não se saiba exatamente por quê.

Especula-se que mudanças no estilo de vida da mulher têm levado mais facilmente ao desenvolvimento precoce da doença. Isso porque o câncer de mama está diretamente ligado à exposição da mulher aos níveis de estrogênio produzidos pelo próprio organismo.

Com a inclusão da mulher no mercado de trabalho e com as mudanças nos hábitos sociais, muitas mulheres têm a primeira menstruação ainda na pré-adolescência, casam mais tarde, têm poucos filhos (ou ainda optam por não engravidarem) e amamentam menos do que suas mães e avós.

Tudo isso expõe a mulher a índices de estrogênio às vezes dez vezes maior do que antigamente, o que pode explicar o aumento no número de casos de câncer de mama entre as mais jovens.

Por isso, é sempre bom ficar atenta e consultar com frequência um mastologista.

2. Usar desodorantes antitranspirantes e/ou os sutiãs com arame causam câncer de mama?

Não. O câncer de mama não tem relação com lesões na pele, com o tipo de sutiã ou o uso de desodorantes. O que muitas vezes ocorre e que acaba gerando essa confusão é que as mulheres, ao sofrerem um trauma qualquer na região da mama, ao apalparem o local da batida percebem nódulos que nunca haviam percebido, mas que já estavam lá.

3. Dor nas mamas pode ser câncer?

Em geral, câncer de mama não dói — somente em estágios mais avançados e quando apresenta quadro inflamatório, o que é raro.

A dor nas mamas costuma ser comum durante o período pré-menstrual, de ovulação e até durante a prática de atividade física, como corrida.

Dores sentidas com batidas ou lesões também são normais. Fora isso, sentir dor nas mamas também pode ser sinal de alterações benignas causadas por oscilações hormonais e costuma variar de intensidade de mulher para mulher.

Por isso, dor não é um sintoma que necessariamente indique algum problema de saúde mais grave, como câncer. O que deve ser investigado de fato são os nódulos que podem aparecer nas mamas e que costumam ser indolores.

Porém, é sempre bom ficar atenta. Se você sentir dores na mama com frequência, e se notar que a dor vem acompanhada de vermelhidão ou outro sinal de inflamação, é bom procurar um mastologista para ver o que pode ser.

4. Silicone causa câncer de mama?

Não. Colocar silicone tem nenhuma relação com o câncer de mama, mas a cirurgia provoca cicatrizes nas mamas que podem dificultar a visualização de alterações que, em alguns casos, podem ser sinais de câncer, como retração na pele, que mudam a textura e a forma do seio, e um aspecto granuloso ou rugoso na pele das mamas.

Por isso, se você já colocou silicones ou se você tem qualquer tipo de cicatriz nas mamas, é bom ficar ainda mais atenta aos sintomas da doença.

5. Anticoncepcional pode causar câncer de mama?

Ainda não há uma resposta definitiva para essa pergunta.

Um estudo do Instituto Nacional do Câncer dos Estados Unidos já apontou que o uso de alguns tipos de pílula anticoncepcional pode aumentar as chances de desenvolver o câncer de mama — em geral os que apresentam maior quantidade de estrogênio em sua composição –, mas ainda é muito cedo para afirmar com 100% de certeza.

Por outro lado, uma pesquisa da Universidade de Aberdeen, no Reino Unido, dá conta de que o uso de anticoncepcional reduz o risco de outros tipos de câncer, como o de ovário, endométrio e intestino.

Outro estudo, iniciado em 1968 por pesquisadores da Royal College of General Practitioners e concluído somente na década passada, tinha como objetivo monitorar a ocorrência de câncer em mulheres que tomam pílula por muitos anos.

Os resultados mostraram que anticoncepcionais não aumentaram o número de casos da doença e nem as chances de mulheres desenvolverem câncer.

Pelo contrário: de acordo com o estudo, publicado no American Journal of Obstetrics and Gynecology, o uso de pílula provocou um efeito protetor contra o surgimento de alguns tumores específicos, e esse benefício ainda tem a possibilidade de se estender por cerca de 30 anos.

Na dúvida, porém, sempre consulte seu médico.

6. Como saber se tenho chances de desenvolver câncer de mama?

Atualmente, não existe tecnologias capazes de prevenir o câncer, mas existem formas de estimar o risco de uma pessoa vir a desenvolver um tipo específico da doença.

É o caso da avaliação de risco ao câncer de mama, que costuma ser feita por meio de ferramentas e análises de dados para saber quais as chances que uma mulher com histórico genético para a doença tem de desenvolver o tumor no futuro.

Alguns métodos, como Gail e Claus, fornecem estimativas aproximadas com base em diferentes fatores e conjunto de dados, como idade atual, idade do primeiro período menstrual, histórico de biópsias e histórico de câncer de mama em parentes de primeiro grau.

A ideia é que, de posse dessas informações, mulheres com chances elevadas de terem câncer de mama possam tomar medidas que evitem o desenvolvimento do tumor ou que permaneçam atentas para detectarem a doença precocemente.

Mas atenção: o uso das ferramentas ou dos dados e seus resultados deve sempre ser discutido com um médico especialista no assunto.

7. Exercícios podem prevenir câncer de mama?

Se ainda não é possível saber ao certo o que causa alguns tipos de câncer, como o de mama, já é unanimidade entre oncologistas que fatores como sedentarismo e obesidade contribuem para o desenvolvimento da doença.

Por isso, a prática de atividade física é fortemente recomendada por especialistas como método de prevenção — embora não seja possível afirmar que somente levar uma vida ativa seja suficiente para evitar o câncer.

Isso acontece porque, segundo um estudo da Universidade de Minnesota, nos Estados Unidos, o exercício afeta a decomposição do estrogênio no organismo — o que contribui para um risco menor de câncer principalmente em mulheres na pós-menopausa.

Os pesquisadores afirmam que mulheres que fazem uma hora de caminhada por dia têm cerca de 14% menos chances de desenvolver câncer de mama do que aquelas que fazem somente três horas por semana de exercícios aeróbicos.

E se você for adepta de atividade física mais intensa, melhor ainda. O estudo também sugere que pelo menos 10 horas semanais de natação e corrida, por exemplo, têm efeito ainda mais eficaz para prevenir a doença — cerca de 25% em comparação com mulheres sedentárias.

8. Após o diagnóstico de câncer de mama, é possível praticar exercícios?

Sim. Diversos estudos dão conta de que a prática de atividade física também ajuda a aliviar dores e outros efeitos colaterais da quimioterapia, além de fortalecerem o sistema imunológico e proteger o corpo de infecções.

No entanto, uma paciente com câncer de mama deve sempre consultar um profissional para que ele prepare treinos que foquem num melhor condicionamento físico, mesclando musculação com exercícios aeróbicos.

9. Quais os hábitos de alguém que já tratou o câncer de mama?

Após o tratamento do câncer de mama, é necessário mudar alguns hábitos para seguir um estilo de vida saudável e evitar a recidiva da doença.

Muitas mulheres, por exemplo, precisam tomar medicamentos que bloqueiam a ação do hormônio feminino no organismo, especialmente nas células mamárias.

Essa prática tem efeito positivo no pós-tratamento, mas pode desencadear sintomas clássicos da menopausa, como calor intenso, secura vaginal e alterações osteoarticulares.

Esses problemas podem ser diminuídos por meio de exercícios físicos e do uso de medicamentos específicos para cada um deles.

Manter um peso saudável também ajuda a prevenir a volta do câncer. Isso porque o tecido gorduroso produz mais estrogênio e progesterona durante a pós-menopausa. Neste sentido, praticar atividade física também pode ser muito positivo, principalmente para combater a obesidade e o sobrepeso.

Outros hábitos também são recomendados. Não fumar, evitar o consumo exagero de bebidas alcoólicas e seguir uma dieta saudável e balanceada são hábitos que ajudam a evitar a recidiva do câncer de mama e o surgimento de tumores em outras partes do corpo.

10. O autoexame previne o câncer de mama?

O autoexame da mama não previne o câncer de mama, mas ele pode ser muito útil para identificar a doença ainda em seu estágio inicial.

Quando a mulher toca e conhece as próprias mamas, fica muito fácil encontrar sinais de que alguma coisa está errada. Nódulos, caroços e outros sintomas físicos são comuns no câncer de mama, e o autoexame é ótimo para perceber essas alterações.

Ele sozinho, porém, não é capaz de fechar um diagnóstico definitivo. Muitos nódulos existentes nas mamas costumam ser benignos, e somente exames clínicos laboratoriais podem afirmar com certeza se trata-se de câncer de mama ou não.

11. Como é realizado o tratamento do câncer de mama?

O tratamento do câncer de mama depende muito do tipo e do estágio da doença. Os tratamentos locais, por exemplo, consistem em tratar um tumor localmente, sem afetar outras partes do corpo.

Eles costumam ser feitos por meio de cirurgias ou radioterapias.

Já o tratamento sistêmico é feito por meio do uso de medicamentos que podem ser administrados por via oral ou via venosa para atingir diretamente as células cancerígenas em qualquer parte do corpo.

Dependendo do tipo, as opções de terapia sistêmica são a quimioterapia e a terapia hormonal.

Muitos casos de câncer exigem a retirada da mama por meio de cirurgia, mas cada caso é um caso, e todas as opções de tratamento devem ser discutidas com um médico para que ele, em conjunto com a paciente e a família, possam tomar a melhor decisão.

Nas raras ocasiões em que o câncer de mama acomete homens, o tratamento segue a mesma linha.

12. Quando é necessário fazer a mastectomia preventiva?

A mastectomia preventiva consiste na retirada da mama como forma de evitar o desenvolvimento do câncer de mama. A lógica é simples: onde não há mama, não há câncer.

Foi o que fez a atriz Angelina Jolie, por exemplo, que após uma avaliação de risco descobriu que existia uma probabilidade muito grande de ela vir a desenvolver o câncer de mama no futuro. Em posse dessa informação, ela resolveu fazer a mastectomia preventiva.

Este procedimento, que reduz em 95% as chances de surgimento do tumor, só é recomendado para casos como o dela, em que a paciente tem alto risco de desenvolvimento de câncer de mama.

Mas apenas um médico especializado no assunto é autorizado a realizar todos os exames para definir se o paciente é ou não de alto risco e indicar ou não a mastectomia preventiva.

13. Quando é indicada a reconstrução mamária?

A reconstrução mamária, também chamada de mamoplastia, é o procedimento cirúrgico pós-mastectomia que consiste em reconstruir a mama que foi retirada por causa do câncer.

A reconstrução pode ser feita de forma parcial ou total e ser realizada de forma imediata, ou seja, logo após a retirada da mama, ou tardia, de acordo com o caráter da doença.

Alguns fatores podem dificultar ou até mesmo impedir a mamoplastia, como obesidade, anorexia ou problemas circulatórios. Em alternativa à reconstrução mamária estão a implantação de prótese ou a decisão de não usar nada.

14. Quando é indicada a reconstrução tardia da mama?

Quando a mamoplastia não é feita imediatamente após a remoção da mama, a paciente pode ser submetida ao processo de reconstrução depois.

Casos de câncer de mama em que a simples remoção já é suficiente para impedir o avanço da doença, a reconstrução costuma ser feita no mesmo dia.

Mas mulheres com tumores mais agressivos, que exigem radioterapia após a cirurgia, ou que tenham doenças pré-existentes que comprometem a reconstrução imediata devem esperar o fim do tratamento para fazer a mamoplastia, quando a pele já estiver recuperada dos efeitos da radioterapia.

Fontes:
Drauzio Varella (site)
A.C. Camargo Cancer Center
INCA
Organização Mundial da Saúde