Zika prejudica memória e sistema motor de adultos, descobre estudo brasileiro

Atualizado em 05 de setembro de 2019

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Estudo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) descobriu que o vírus Zika pode causar prejuízos de memória e problemas motores em adultos.

A pesquisa, publicada no periódico científico Nature Communications e divulgada pela agência Brasil, teve início em 2015, ano no qual teve início o surto da doença no Brasil. Até então, já sabia-se que o micro-organismo se multiplicava no cérebro de fetos, mas não fora relatada a infecção em neurônios maduros.

“Nessa época, o que mais nos chamou atenção foi a relação da doença com a microcefalia, mas também começaram a aparecer complicações em pacientes adultos”, afirmou a neurocientista Claudia Figueiredo, uma das coordenadoras da pesquisa.

Complicações neurológicas por Zika em adultos

Em laboratório, os cientistas colocaram o vírus zika em tecidos nervosos saudáveis de pacientes adultos, colhidos em cirurgias no cérebro, e perceberam que os neurônios infectados se multiplicavam. Também foi observada a presença do micro-organismo no liquor, que é o líquido que envolve o encéfalo.

A partir dessas descobertas, os pesquisadores decidiram entender os efeitos da infecção em cérebros de camundongos adultos. O experimento, por sua vez, constatou o acometimento preferencial de áreas relacionadas à memória e ao controle motor.

“Percebemos que justamente essas funções foram alteradas nos pacientes com quadros mais graves de zika, os quais o sistema nervosos central foi afetado. O vírus não só se replicou, mas também gerou prejuízos na memória e no sistema motor”, explicou a pesquisadora, que ressalta que ainda não se sabe porque a doença afeta algumas pessoas de maneira leve e acomete o sistema nervoso de outras.

Mesmo 30 dias após a infecção ter sido controlada no roedor, o déficit de memória persistiu, o que é grave pois 30 dias do animal equivalem de dois a quatro anos da vida de humanos.

Nova fase do estudo

O acometimento da memória está associado a quadros inflamatórios muito intensos, os quais podem ser tratados com anti-inflamatórios. De acordo com os cientistas da UFRJ, a descoberta pode favorecer a criação de políticas públicas para tratamento de complicações neurológicas por Zika em adultos.

A nova fase da pesquisa, que depende de novo apoio financeiro, visa entender se pacientes cuja infecção por zika afetou o sistema neurológico estão mais suscetíveis a transtornos neuropsiquiátricos, como depressão e ansiedade, assim como os efeitos de outras doenças transmitidas por mosquitos, como a chikungunya.