Eclâmpsia e pré-eclâmpsia: pressão alta na gravidez oferece sérios riscos

Atualizado em 04 de janeiro de 2019

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POR Manuela Sampaio

Ter pré-eclâmpsia ou eclâmpsia na gravidez é o principal temor de muitas gestantes, já que quadros que elevam a pressão sanguínea são a principal causa de morte materna no Brasil. Há riscos também para o bebê, os quais incluem prematuridade e restrição de crescimento.

Algumas mulheres têm mais chances de desenvolver essas doenças, mas todas devem tomar os cuidados necessários para evitá-las e garantir saúde para si mesma e o bebê.

O que é pré-clâmpsia?

A ginecologista e obstetra Samira Haddad, presidente da Comissão Nacional Especializada em Urgências Obstétricas da Febrasgo, explica que pré-eclâmpsia é um tipo de síndrome hipertensiva da gestação que acomete mulheres grávidas após 20 semanas de gravidez até um curto período após o parto e causa concentração de proteína na urina.

Existem outras manifestações de pressão alta durante a gravidez além da pré-eclâmpsia: aquelas em que há hipertensão, mas sem proteína na urina; hipertensão já existente antes da gravidez; hipertensão prévia, mas piorada pela pré-eclâmpsia; e eclâmpsia.

Qual é a diferença entre pré-eclâmpsia e eclâmpsia?

Enquanto a pré-eclâmpsia é a hipertensão na gravidez, a eclâmpsia é uma das formas mais graves desta alteração, sendo caracterizada pela presença de convulsões devido a alterações nos vasos sanguíneos do cérebro resultantes da pressão anormal.

A pré-eclâmpsia pode evoluir para eclâmpsia, mas nem sempre há uma correlação clara entre as duas. “Por exemplo, algumas mulheres têm a eclâmpsia como primeira manifestação, sem terem apresentado quadro hipertensivo prévio”, explica a médica.

Causas

Segundo Haddad, o mecanismo que causa a pré-eclâmpsia ainda não está completamente esclarecido, mas as principais teorias giram em torno de problemas durante o processo de implantação e desenvolvimento da placenta, com desequilíbrio de fatores angiogênicos (referentes à formação de vasos sanguíneos), inflamatórios e relacionados às substâncias que agem sobre os vasos locais, que acabam por interferir com os mecanismos de regulação da pressão arterial como um todo.

É possível que, em mulheres com pré-eclâmpsia, esses vasos sanguíneos sejam mais estreitos ou respondam de forma diferente às substâncias que atuam sobre ele, alterando o fluxo sanguíneo.

A eclâmpsia, por sua vez, é causada por anormalidades nos vasos sanguíneos do cérebro em decorrência da pressão alta gerada pelo quadro de pré-eclâmpsia.

Fatores de risco

Os principais fatores de risco para pré-eclâmpsia e eclâmpsia no parto ou antes e depois dele, são:

  • Hipertensão crônica
  • Antecedente de pré-eclâmpsia em gestação anterior
  • Idade materna elevada
  • Baixa ingestão de cálcio na dieta
  • Doenças autoimunes (como lúpus e síndrome do anticorpo antifosfolípide)
  • Diabetes
  • Obesidade

Sintomas

 

gestante com dor de cabeça

Gestando com sintoma de pré-eclâmpsia

Pré-eclâmpsia

A pré-eclâmpsia é caracterizada por níveis de pressão arterial iguais ou maiores que 140 por 90 mmHg (o famoso 14 por 9) e pela presença de proteína na urina ou sinais graves de disfunção do fígado, dos rins, do sangue e do cérebro.

A mulher que apresenta pré-eclâmpsia pode ter sintomas como:

  • Dor de cabeça intensa
  • Dor no estômago
  • Inchaço (chamado de edema)
  • Alterações na visão

Eclâmpsia

A eclâmpsia é caracterizada pela presença de uma ou mais convulsões.

Alguns sinais indicam que há risco de que ela ocorra, como níveis de pressão arterial maiores ou iguais a 160 por 110 mmHg (16 por 10), ganho súbito de peso, edema repentino e generalizado (inchaço), dor de estômago e dor de cabeça intensa e alterações visuais.

Alterações no funcionamento de órgãos como rins e fígado também indicam maiores chances de desenvolvimento de eclâmpsia.

No pós-parto

Por ser uma condição específica da gestação e conceitualmente ocorrer após 20 semanas (momento em que termina o processo de implantação da placenta), a pré-eclâmpsia pode acontecer em qualquer momento após essa fase.

Ela é mais frequente no terceiro trimestre e pode ocorrer também no puerpério, principalmente até o décimo dia do pós-parto.

A eclâmpsia pós-parto não surge apenas em mulheres que tiveram hipertensão durante a gravidez, mas pode acometer também as que até então eram assintomáticas. Ela pode vir acompanhada de hipertensão, presença de proteínas na urina e sintomas como dor de cabeça, distúrbios visuais, dor no estômago e na parte superior direita do abdômen.

Diagnóstico

No passado, acreditava-se que esses quadros eram causados pelo contato com substâncias tóxicas, por isso, eclâmpsia e pré-eclâmpsia eram chamadas – e até hoje ainda são referidas assim – de toxemia gravídica.

Hoje, sabe-se que a pressão arterial e as alterações placentárias estão muito mais ligadas à predisposição genética e alguns acometimentos, por isso, a medida pressórica é fundamental para o diagnóstico, além do exame físico, que detecta edemas, entre outros sinais.

 

Mulher fazendo exame gestacional

Mulher fazendo exame gestacional

Os exames de laboratórios servem, principalmente, para detectar a presença de proteína na urina, mas também avaliam a função do fígado, dos rins e pulmões.

“Se a mulher apresentar pressão maior ou igual a 140 por 90 mmHg em dois episódios com intervalo de pelo menos 4 horas já é diagnosticada como hipertensão na gravidez e está indicada a realização de avaliação laboratorial adicional para classificação ou não de pré-eclâmpsia”, explica Samira Haddad.

Já a eclâmpsia é sempre a primeira hipótese diagnóstica para a ocorrência de convulsões na gestação após 20 semanas, independente a verificação ou não de hipertensão gestacional, devendo ser tratada como tal até que se prove o contrário.

Complicações

Riscos para a mãe

A especialista explica que as síndromes hipertensivas de uma maneira geral são as principais causas de morte materna no Brasil e na América Latina. No mundo, ficam em segundo lugar, atrás apenas das complicações hemorrágicas.

Além da morte materna, a mulher que sobrevive a essa complicação pode ter sequelas, como acidente vascular cerebral (AVC), insuficiência renal, risco de histerectomia (retirada do útero), entre outras complicações.

Uma complicação bem conhecida é a síndrome de HELLP: considerada uma variante da pré-eclâmpsia, surge por volta da 37ª semana e, além de elevar a pressão e causar proteinúria (proteína na urina), tem sintomas como náusea, vômito e dor abdominal e oferece risco de danos a órgãos e morte.

Riscos para o bebê

Para o bebê, as complicações incluem desde prematuridade e restrição do crescimento intrauterino até o óbito fetal ou neonatal.

No entanto, todas essas complicações podem ser efetivamente evitadas com diagnóstico precoce e tratamento adequado.

Tem cura?

De maneira geral, a pressão alta na gravidez tende a se resolver após o parto, normalmente depois de 6 a 12 semanas. No entanto, algumas mulheres podem permanecer hipertensas após esse período, sendo classificadas como tendo hipertensão arterial crônica.

Tratamento de pré-eclâmpsia e eclâmpsia

A pré-eclâmpsia pode ter diversos tratamentos, a depender de sua apresentação: com ou sem sinais de gravidade. É feito o uso de medicações anti-hipertensivas, controle laboratorial, internação hospitalar ou seguimento ambulatorial, entre outros.

“Já o principal tratamento de eclâmpsia é o uso da medicação chamada sulfato de magnésio e a resolução da gestação, por via vaginal ou cesárea, dependendo das condições maternas e fetais”, explica a médica.

Habitualmente, está indicada a interrupção da gestação quando a gravidez for a termo (com 37 semanas) para as formas não graves ou antes para as formas graves, a depender de uma avaliação individual feita pelo médico. A escolha da via de parto também deve ser individualizada e não há indicação absoluta de cesárea para pré-eclâmpsia.

Prognóstico

Como relatado anteriormente, podem existir sequelas para a mãe e para o bebê, principalmente para em casos de síndromes hipertensivas graves, mulheres que possuem comorbidades ou que receberam diagnóstico tardio ou não adequado.

No entanto, uma grande parte dos casos tende a se resolver em definitivo até 12 semanas após o parto.

Prevenção

A realização de um pré-natal de qualidade e com início precoce (idealmente antes de 12 semanas) é uma das medidas mais efetivas para classificação de risco, diagnóstico e adoção de medidas preventivas e de controle clínico, a fim de evitar o desenvolvimento de formas graves da doença e reduzir o número de desfechos graves e sequelas.

“Atualmente, existem evidências de que o uso de algumas medicações, como ácido acetilsalicílico e suplementação de cálcio, pode ser benéfico para mulheres com fatores de risco para pre-eclâmpsia”, explica a médica.

“Com relação à eclâmpsia, o sulfato de magnésio é a medida mais efetiva tanto na prevenção da ocorrência de convulsões quanto no tratamento, e seu uso deve ser instituído sempre que existirem sinais de gravidade, conforme os protocolos de assistência locais”, finaliza.

 

Fontes

Ginecologista e obstetra Samira Haddad, presidente da Comissão Nacional Especializada em Urgências Obstétricas da Febrasgo. CRM 16.227