Voltando a treinar depois de uma lesão: como lidar com a dor emocional?

Atualizado em 18 de janeiro de 2018

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É normal e necessário ficar um tempo afastado dos treinos depois de sofrer uma lesão. Muitas vezes, porém, mesmo quando a dor física passa, um tipo diferente de incômodo permanece: a dor emocional ou psicológica.

O medo de se machucar novamente também é perfeitamente normal e muito comum em quem está voltando a treinar. É o caso principalmente de atletas profissionais, embora também possa acometer atletas amadores que praticam esportes por hobby.

Foi o que aconteceu em 2015 com Giselli Souza, de 35 anos, que é corredora há oito anos e já fez quatro maratonas.

“Estava correndo e torci o tornozelo direito. Tive rompimento ligamentar e edema ósseo”, conta ela, que na época já tinha tudo pago para correr a Maratona de Chicago. “Fiquei muito triste, pois a maratona não é só o dia da prova, e sim algo que envolve um planejamento psicológico intenso”, lamenta.

“Senti bastante raiva, pois depositei muita expectativa nessa maratona. Passava por uma série de problemas pessoais, entre eles o fim de um relacionamento, excesso de trabalho e final de uma pós-graduação. A lesão foi como uma cereja do bolo nessa tempestade toda”, conta Giselli.

Felizmente, ela conseguiu negociar a participação em 2016 e não perdeu o dinheiro, mas a raiva sentida por ela ao longo do processo de recuperação da lesão, a privação de treinos e até a perda de um evento importantíssimo é  bastante normal e até compreensível.

Para o psicólogo do esporte Henrique Carpigiani Ribeiro, a raiva pode ser um sentimento positivo, mas demonstra o interesse que a pessoa sente pelo esporte.

Ele completa: “a raiva surge como um sentimento passageiro no caso de situações normais, a não ser, é claro, que a lesão tenha sido provocada pelo próprio atleta, pois gera sentimentos mais complexos, como culpa”, diz. “É normal ficar triste ou sentir raiva, o que preocupa mesmo é quando esses sentimentos ficam por muito tempo”.

Como tratar a dor emocional?

A dor emocional, como o próprio nome diz, é uma dor que não está relacionada ao físico da pessoa, e sim à mente. A recuperação, portanto, deve ser mental e depende sobretudo do atleta.

Para o psicólogo, a pessoa pode ficar até mais forte se passar por um processo rápido e consistente de aceitação.

Alguns fatores que auxiliam neste sentido são coletar o máximo de informações sobre o motivo da lesão e seguir as orientações à risca (feitas geralmente por fisioterapeutas e médicos) sem queimar etapas.

Para lidar com as dores psicológicas de uma lesão, o atleta em recuperação deve ocupar a cabeça com coisas produtivas, principalmente nos primeiros estágios da reabilitação.

Achar outro hobby e fazer novas atividades para preencher o tempo também são boas alternativas. “O importante não é só não ficar triste, mas também controlar a ansiedade pelo retorno à prática do esporte”, complementa Ribeiro.

Voltando a treinar

O processo de retorno aos treinos deve envolver um bom trabalho mental, sobretudo para que o atleta evite a ansiedade e o medo de correr ou praticar o esporte que está acostumado. Para que esse “medo” diminua, é importante que a pessoa conte com o apoio de especialistas.

“Neste período de volta, a participação de um treinador ou educador físico é fundamental, pois ele pode incentivar o sujeito a se recuperar o mais rápido possível e retornar aos treinos sem hesitar”, explica Julio Dotti, que é treinador da assessoria esportiva Limite Team, que organiza corridas.

“Às vezes, o evento traumático é tão grande para a pessoa que ela passa a ter medo de treinar só para não passar pelas dores de novo”, explica ele.

É justamente por isso que fortalecer a musculatura, além de ser essencial para a parte física, também servirá para dar mais confiança no retorno. “A musculação, no caso de um corredor ou ciclista, por exemplo, faz parte do ganho de confiança”, diz.

“É preciso tratar a lesão com um ortopedista e um fisioterapeuta e, principalmente, controlar a mente para poder seguir em frente. Voltar ao condicionamento físico anterior é rápido, basta seguir as orientações corretas”, finaliza o treinador.