Teste do coraçãozinho: como simples exame pode salvar a vida do bebê

24 de outubro de 2018

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No Brasil, cerca de 29 mil crianças nascem com cardiopatia congênita por ano (1% do total). Segundo o Ministério da Saúde, 80% dessas crianças (ou 24 mil) precisam ser operadas, metade delas no primeiro ano de vida, mas somente 9 mil conseguem chegar à cirurgia de correção.

O baixo número dessas operações em relação à demanda acontece não só por causa da baixa aptidão dos serviços de saúde para realizar essas cirurgias, mas também devido ao diagnóstico tardio.

Exames de triagem neonatal

Os testes de triagem neonatal servem para diagnosticar doenças ou alterações congênitas que podem prejudicar o desenvolvimento dos recém-nascidos e que terão melhor prognóstico caso sejam descobertas precocemente.

É nesse sentido que exames de triagem neonatal têm grande impacto para a saúde do bebê, sendo o teste do coraçãozinho ou oximetria um deles. A sua simplicidade não é correspondente ao grande benefício que pode acarretar para muitas vidas. Isso porque há uma estimativa de que menos de 50% das cardiopatias congênitas são diagnosticadas no pré ou no pós-natal imediato. Ao reverter esse quadro, podemos salvar vidas.

Quanto mais cedo a malformação cardíaca for diagnosticada, melhores as chances de sua cura, seja com tratamento medicamentoso, cateterismo ou cirurgia, ou de convivência com o problema mantendo uma boa qualidade de vida.

O que é o teste do coraçãozinho?

 

Teste do coraçãozinho.

beerkoff/IStock

O teste do coraçãozinho é muito simples mas só pode ser realizado entre 24 e 48 horas de vida do recém-nascido e serve para detectar a oxigenação do sangue dele.

Após esse período os resultados do exame já não são tão conclusivos.

Como é feito?

É utilizado um sensor externo de pulso (oxímetro), que é colocado inicialmente na mão direita e, em seguida, em um dos pés do bebê, para a medição do nível de oxigênio no organismo dele.

Se o nível for abaixo de 95%, o recém-nascido não deve ter alta da maternidade, permanecendo em observação para, se preciso, iniciar o tratamento adequado.

Quando deve ser feito?

Trata-se de um teste simples e que é oferecido pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Mas há ainda muitos recém-nascidos que recebem alta hospitalar sem realizá-lo.

Ele pode ser feito por todos os bebês que tenham até 48 horas de vida para apresentar bons resultados.

Por que fazer?

O teste do coraçãozinho é eficiente para indicar a anomalia em 75% dos casos, índice que é bastante bom.

O exame deve fazer parte do arsenal de diagnóstico neonatal do hospital em que a criança nascer. Se não fizer, os pais devem exigi-lo. São medidas simples que podem salvar muitas vidas.

Cardiopatia congênita: entenda

O nome cardiopatia congênita é dado aos problemas cardíacos presentes já ao nascimento dos bebês.

Estão mais suscetíveis ao problema crianças com retardo de crescimento intrauterino ou distúrbios do ritmo cardíaco. Mas há risco também quando ocorrem alterações genéticas, inclusive a Síndrome de Down.

Além disso, a hereditariedade conta bastante, já que pais ou irmãos com cardiopatias congênitas aumentam em duas vezes a chance de o bebê apresentar o problema.

Outras condições da mãe podem contar para o desenvolvimento intrauterino e, consequentemente, causar a cardiopatia. É o caso de mães com lúpus ou diabetes mellitus; que tiveram rubéola ou outras infecções demandantes do uso de medicamentos teratogênicos (que causam danos na formação dos órgãos do embrião); usuárias de drogas ilícitas e álcool.

Em 20% dos casos, a regressão total da doença é espontânea. Nos outros 80%, a malformação pode variar desde problemas mais simples, como a valva aórtica bicúspide (o normal é ela ser tricúspide), que podem não precisar de cirurgia mas apenas de acompanhamento de cardiopediatra, até os mais complexos, como a transposição das grandes artérias, malformação em que há uma mudança completa na circulação sanguínea, com impactos importantes na oxigenação do sangue.

Os textos, informações e opiniões publicadas nesse espaço são de total responsabilidade do autor. Logo, não correspondem, necessariamente, ao ponto de vista do Ativo Saúde

Vanessa Guimarães

Vanessa Guimarães

Médica Assistente da Unidade de Terapia Intensiva Cirúrgica Infantil, médica da Equipe de Transplante Cardíaco Pediátrico, coordenadora do 276 ECMO TEAM do Instituto do Coração do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (InCor - HCFMUSP), coordenadora da Pós-graduação em Pediatria da FACIS (Faculdade de Ciências da Saúde de São Paulo) - módulo Cardiologia, médica do corpo clínico do Hospital Sírio Libanês (HSL) e do Hospital do Coração (HCor). CRM 118641