Prevenção de obesidade infantil e preconceito: entenda relação

06 de setembro de 2018

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Nos últimos 40 anos, o conhecimento científico sobre nutrição humana cresceu de forma exponencial. No mesmo período, no entanto, a obesidade em todo o mundo se tornou o maior desafio epidemiológico que a medicina já enfrentou. Ou seja, pela primeira vez na história parece que quanto mais sabemos sobre um assunto menos sabemos como resolvê-lo.

Os números da obesidade não respeitam classe social, religião, idade, gênero e nem diferenças culturais e vem crescendo em todos os continentes. Só entre as crianças, o aumento foi de 50% nos últimos 40 anos.

Então nada mais natural do que a busca incessante por uma explicação.

Prevenção da obesidade infantil e preconceito

Todos os anos, centenas de estudos são publicados discorrendo sobre teorias isoladas que expliquem o aumento de peso de todo o mundo. Alguns apontam para o sedentarismo, outros para qualidade e quantidade alimentar. Já culparam a microbiota intestinal, a falta de sono, a ansiedade, a publicidade, o hábito de fazer dietas restritivas, os automóveis, os tipos de partos e até os ares condicionados já forma apontados como responsáveis pela epidemia de obesidade. Mas o fato é que trata-se de um grande quebra-cabeça e nós nem sabemos ainda quantas peças tem.

A obesidade infantil é ainda pior porque na busca pelos “culpados” os pais em geral são tratados de forma tão inadequada pela sociedade e pelos profissionais de saúde que estudos já comprovaram que a qualidade de vida das famílias com filhos acima do peso é a mesma de crianças diagnosticadas com câncer.

Artigos nacionais e internacionais falam sobre o preconceito que crianças obesas sofrem na escola. Isso não parece novidade, o que surpreende é que, segundo um estudo norte-americano, nos últimos 40 anos a rejeição pela criança obesa por parte de colegas da mesma idade piorou 40%. E mais grave do que isso é o preconceito de profissionais de saúde também ter aumentado, gerando consequências emocionais ainda mais graves.

Saúde psicológica

O motivo pelo qual pais e mesmo crianças procuram ajuda médica ou nutricional para tratamento de obesidade nem de longe é “preocupação com a saúde”. Cuidar da saúde faz parte do discurso sim de profissionais e de pacientes, mas o que mais leva crianças obesas ao consultório é sofrimento emocional, que inclusive pode piorar dependendo do como a questão é abordada pelo profissional.

Frases por parte dos profissionais como “seu filho precisa emagrecer porque obesidade pode causar infarto no futuro” ou por parte dos pacientes como “Doutor, eu sei que ele precisa emagrecer porque não quero que ele tenha diabetes no futuro” são comuns, mas não retratam os reais motivos da busca pelo tratamento e nem a urgência na busca de resultados.

O Hospital Universitário da Universidade de São Paulo (USP) em 2011 mencionou que das 60 crianças que haviam passado por atendimento no Ambulatório de Obesidade Infantil, 53 haviam chorado na primeira consulta e nenhuma por medo de infarto ou diabetes, mas por sofrimento emocional que envolvia também experiências ruins em serviços de saúde.

Em 2017, a Academia Americana de Pediatria publicou um artigo que alerta profissionais para o estigma vivenciado por crianças e adolescentes com obesidade em serviços de saúde. No documento, a sociedade alerta sobre a importância da empatia por parte de profissionais que lidam com crianças obesas e suas famílias e ressalta a importância da EMPATIA e do NÃO JULGAMENTO norteando qualquer tratamento.

Caráter dos programas de prevenção de obesidade infantil

É importante refletir antes da implementação de programas de “prevenção de obesidade infantil” e principalmente definir antes de tudo o que NÃO É um programa de prevenção.

Pesar e medir crianças em escolas e expor seus estados nutricionais para os colegas não previne obesidade. Falar para uma criança sobre a função dos nutrientes no corpo e sobre todas as doenças e mortes que a obesidade pode causar também não. Apontar o dedo para um culpado também não faz parte da prevenção de obesidade infantil, assim como acusar pais e crianças de serem preguiçosos e “sem força de vontade”.

O que previne obesidade é promover saúde em todas as crianças, e não somente naquelas que estão acima do peso, mesmo porque crianças magrinhas podem ter um estilo de vida tão ruim quanto ou até pior do que crianças com excesso de peso.

Já temos evidências suficientes para afirmar que se quisermos atuar na prevenção da obesidade infantil o mais importante é, primeiro, não causar danos.

Os textos, informações e opiniões publicadas nesse espaço são de total responsabilidade do autor. Logo, não correspondem, necessariamente, ao ponto de vista do Ativo Saúde

Denise Lellis

Denise Lellis

Doutora em Medicina pela USP; Pediatra da Liga de Obesidade Infantil do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP; Pediatra com título e especialista pela Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e membro do American College of Lifestyle Medicine.