Obesidade infantil: causas, riscos, como tratar e dicas para evitar

17 de abril de 2019

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Obesidade infantil é uma doença grave e particularmente preocupante, visto que os quilos extras muitas vezes levam crianças a apresentarem problemas de saúde que, no passado, eram típicos de adultos, como diabetes tipo 2, pressão alta e colesterol alto.

Muitas crianças com obesidade tornam-se adultos obesos, especialmente se um ou ambos os pais também sofre com o excesso de peso. A obesidade infantil também pode gerar baixa autoestima, sentimentos de inferioridade, estigma social (bullying) e depressão.

O que caracteriza?

Crianças com obesidade infantil estão acima do peso normal para sua idade e sua altura.

O índice de massa corporal (IMC), que avalia o peso em relação à altura, é a medida aceita de sobrepeso e obesidade.

O médico da criança deve usar gráficos de IMC para verificar se o resultado obtido está normal para a idade e o sexo dele e, se necessário, outros testes para avaliar o risco de problemas de saúde.

Se você está preocupado que seu filho esteja ganhando muito peso, fale com um médico. O profissional considerará a história de crescimento e desenvolvimento do seu filho, o histórico de peso por altura da família e o local em que a criança se encontra nas tabelas e gráficos. Isso é essencial para determinar se o peso está em uma faixa saudável ou não.

O que causa obesidade infantil?

O estilo de vida – pouca atividade e muitas calorias provenientes de alimentos e bebidas – é o principal contribuinte para a obesidade infantil.

Fatores genéticos e hormonais também podem desempenhar papel importante. Por exemplo, pesquisas recentes descobriram que mudanças nos hormônios digestivos podem afetar os sinais que permitem que uma pessoa saiba que está saciada.

Em geral, muitos fatores, geralmente combinados, aumentam o risco de uma criança desenvolver obesidade, tais como:

Dieta para obesidade infantil

O consumo regular de alimentos calóricos, como fast-food, salgados ​​e lanches em máquinas de venda automática, pode aumentar chance de obesidade infantil.

Doces e sobremesas também podem elevar o peso. Mais e mais evidências apontam para bebidas açucaradas, incluindo sucos de frutas, como responsáveis na gênese da obesidade em algumas pessoas.

Falta de exercício

Crianças que não se exercitam muito são mais propensas a ganhar peso porque não queimam tantas calorias.

Muito tempo gasto em atividades sedentárias, como assistir televisão ou jogar videogames, também contribui para o problema.

Fatores familiares

Se a criança vem de uma família de pessoas com excesso de peso, pode estar mais propensa geneticamente a ter obesidade infantil. Isto é especialmente verdadeiro em um ambiente em que  alimentos altamente calóricos estão sempre disponíveis e a atividade física não é incentivada.

Fatores psicológicos

Estresse pessoal, parental e familiar podem aumentar o risco de obesidade infantil. Algumas crianças comem demais como mecanismo para lidar com problemas e emoções, bem como para combater tédio.

Fatores socioeconômicos

Algumas comunidades têm recursos e acesso limitado aos supermercados. Como resultado, compram alimentos de conveniência e que não estragam rapidamente, como refeições congeladas, bolachas e biscoitos.

Além disso, pessoas que vivem em bairros de baixa renda podem não ter acesso a parques ou a um local seguro para se exercitar.

Riscos

A obesidade infantil pode ter complicações para o bem-estar físico, social e emocional:

Diabetes tipo 2

Esta doença afeta o modo pelo qual o corpo usa o açúcar (glicose). Obesidade e estilo de vida sedentário aumentam o risco de diabetes tipo 2.

Síndrome metabólica

A síndrome metabólica é um conjunto de condições que eleva o risco de doença cardíaca, diabetes e ou outros problemas de saúde. As condições incluem pressão alta, açúcar elevado no sangue, triglicerídeo (gordura) elevado, colesterol HDL (o colesterol bom, protetor) baixo e excesso de gordura abdominal.

Colesterol alto e pressão alta

Dieta de má qualidade pode levar a criança a desenvolver uma ou ambas as condições. Esses fatores podem contribuir para o acúmulo de placas nas artérias, o que pode fazer com que as artérias se estreitem e endureçam.

Asma

Crianças com excesso de peso ou com obesidade infantil apresentam maior probabilidade de ter asma.

Distúrbios do sono

Apneia obstrutiva do sono é uma doença potencialmente grave na qual a respiração é interrompida repetidamente durante o sono. Há maior risco do problema no caso de pacientes com obesidade na adolescência ou infância.

Doença hepática gordurosa não alcoólica (DHGNA)

Este problema de saúde, que geralmente não causa sintomas, faz com que depósitos de gordura se acumulem no fígado. A DHGNA pode causar danos ao fígado e evoluir na idade adulta para inflamação e fibrose, de modo a aumentar o risco de câncer de fígado.

Fraturas ósseas

Obesidade infantil aumenta a propensão a fraturas.

Como evitar obesidade infantil?

 

Criança em frente a donuts doce.

Sharomka/Shutterstock

Tratar e prevenir a obesidade infantil ajuda a proteger a saúde da criança agora e no futuro.

Se seu filho está com peso saudável, tome medidas para manter as coisas no caminho certo, como:

  • Limite ou evite o consumo de bebidas açucaradas
  • Ofereça muitas frutas e legumes
  • Faça refeições em família, sempre que possível
  • Evite comer fora, e quando o fizer, ensine a criança a fazer escolhas mais saudáveis
  • Ajuste os tamanhos das porções apropriadamente para a idade
  • Limite a TV e outro “tempo de tela” (como celular e tablet) a menos de duas horas por dia para crianças com mais de 2 anos e nada para as menores de 2 anos
  • Certifique-se de que a criança durma o suficiente (pelo menos 8 horas)
  • Leve o pequeno para consulta médica pelo menos uma vez por ano

Como tratar obesidade infantil?

Uma das melhores estratégias para reduzir obesidade na infância e adolescência é melhorar os hábitos alimentares e de exercício de toda a família.

Alimentação

Geralmente, os pais são as pessoas que compram mantimentos, preparam refeições e decidem onde a comida é consumida. Deste modo, mesmo pequenas mudanças podem fazer uma grande diferença na saúde da criança. Seguem algumas dicas:

  • Nas compras de alimentos: opte por frutas e legumes; reduza biscoitos, bolachas e refeições industrializadas preparadas; sempre tenha lanches saudáveis ​​disponíveis; acostume-se a prestar atenção nas informações nutricionais.
  • Limite ou corte as bebidas açucaradas: isso vale inclusive para suco de frutas, que têm pouco valor nutricional, mas muitas calorias.
  • Limite fast-food: muitas das opções do menu são ricas em gordura e calorias.
  • Faça das refeições em família um evento: este momento deve ser dedicado a compartilhar notícias e contar histórias. Desencoraje a refeição em frente à TV, computador ou videogame, visto que isso que pode levar a uma alimentação automática e sem consciência da quantidade ingerida.
  • Sirva tamanhos de porção apropriados: crianças não precisam de tanta comida quanto os adultos. Permita que seu filho coma apenas até ficar satisfeito, mesmo que isso signifique deixar comida no prato. Assim que o pequeno conseguir, deixe que ele própria se sirva.

Atividades físicas

Uma parte essencial do tratamento de obesidade infantil é a atividade física. Ele queima calorias, fortalece ossos e músculos e ajuda as crianças a dormirem bem à noite e ficarem alertas durante o dia.

Bons hábitos estabelecidos na infância ajudam adolescentes a manterem peso saudável e se tornarem adultos fisicamente ativos também. Para aumentar o nível de atividade, algumas dicas são válidas:

  • Limite a TV e o tempo do computador: limite a não mais do que duas horas por dia para crianças com mais de 2 anos. Outras atividades sedentárias – jogos de computador, celular, etc. – também devem ser limitadas.
  • Enfatize a atividade, não o exercício: crianças devem praticar atividades moderadas ou vigorosas por pelo menos uma hora por dia. A atividade do seu filho não precisa ser um programa estruturado de exercícios, o objetivo é fazer com que ele se mova, com brincadeiras livres, como brincar de esconde-esconde, pular corda ou pega-pega.
  • Encontre atividades que a criança goste: por exemplo, se ela é artisticamente inclinada, faça uma caminhada na natureza para coletar folhas e pedras para fazer uma colagem. Se gosta de escalar, leve-a a uma parede de escalada. Se gosta de ler, caminhe ou ande de bicicleta até a biblioteca ou livraria mais próxima.

Remédios

Existem medicamentos indicados para perda e manutenção de peso para adolescentes e, possivelmente, num futuro próximo outros serão aprovados para esta indicação.

Esses remédios para obesidade infantil só devem ser administrados sob prescrição médica e em conjunto com hábitos saudáveis.

Bariátrica para crianças obesas

A cirurgia bariátrica pode ser uma opção para adolescentes gravemente obesos que não conseguiram perder peso por meio de mudanças no estilo de vida. No entanto, como acontece com qualquer tipo de cirurgia, existem riscos potenciais e complicações em longo prazo.

É essencial discutir os prós e contras com o médico do paciente com obesidade infantil. A cirurgia em adolescentes ainda é considerada experimental e só deve ser feita dentro de um protocolo em hospitais adequados.

O médico pode recomendar a cirurgia principalmente se a criança representar uma ameaça maior à saúde do que os riscos potenciais da cirurgia. Para tanto, é importante que os pais e a criança se reúnam com uma equipe de especialistas em pediatria, incluindo um endocrinologista pediátrico, psicólogo e nutricionista.

Vale lembrar que a cirurgia bariátrica não representa uma cura milagrosa e não garante que um adolescente perca todo o seu excesso de peso e seja capaz de mantê-lo. Além disso, ela não substitui a necessidade de  dieta saudável e atividade física regular para pessoas com obesidade infantil.

Os textos, informações e opiniões publicadas nesse espaço são de total responsabilidade do autor. Logo, não correspondem, necessariamente, ao ponto de vista do Ativo Saúde

Marcio C. Mancini

Marcio C. Mancini

Médico endocrinologista e diretor da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (ABESO). É responsável pelo Grupo de Obesidade e Síndrome Metabólica da Disciplina de Endocrinologia e Metabologia do HC-FMUSP e supervisor do Ambulatório de Obesidade Mórbida e Chefe da Liga de Obesidade Infantil do HC-FMUSP.