Obesidade e câncer: entenda a polêmica relação

06 de setembro de 2018

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Várias evidências que ligam obesidade e câncer emanam de grandes estudos observacionais, com centenas de milhares de pessoas avaliadas. Apesar das limitações, há provas consistentes de que maior quantidade de gordura corporal está associada ao aumento (de duas a sete vezes) do risco de desenvolver vários tipos de tumores. Entenda:

Obesidade aumenta risco de câncer

A obesidade aumenta o risco de cânceres como os de endométrio (que é o revestimento interno do útero), de mama (em mulheres após a menopausa, principalmente nas que nunca usaram terapia hormonal), de ovário, de esôfago, de cárdia (a parte superior do estômago), de fígado, de rim, de pâncreas, de cólon e reto, de vesícula biliar, de tireoide, de mieloma múltiplo e de meningioma.

A explicação é que pessoas que sofrem de obesidade geralmente apresentam inflamação crônica de baixo grau que com o tempo danifica o DNA podendo levar ao câncer.

Inflamação local

Alguns cânceres dependem de uma inflamação local crônica. Como exemplo, o refluxo gastroesofágico é uma causa de adenocarcinoma de esôfago. A obesidade é um fator de risco para cálculos biliares, uma condição caracterizada por inflamação crônica da vesícula biliar, e uma história de cálculos biliares é um forte fator para câncer de vesícula biliar. A colite ulcerativa crônica e a hepatite causada pelo acúmulo de gordura ou esteatose são fatores de risco para diferentes tipos de câncer de fígado.

Alterações hormonais

Outra explicação da relação entre obesidade e câncer é que a gordura produz uma quantidade excessiva de estrogênio, hormônio feminino, associado a risco aumentado de câncer de mama, de endométrio e de ovário.

Quem apresenta obesidade geralmente tem aumento do nível de insulina e de IGF-1 (uma substância chamada de fator de crescimento semelhante à insulina-1), o que pode promover o desenvolvimento de câncer colorretal, de rim, próstata e endométrio, entre outros, pois são fatores que favorecem divisão e crescimento celular.

As células de gordura produzem hormônios que podem estimular ou inibir o crescimento celular, as assim chamadas adipocinas. Por exemplo, o nível de uma adipocina chamada leptina, que parece promover a proliferação celular, aumenta no sangue com o aumento da gordura corporal. E outra adipocina, a adiponectina (que é menos abundante em pessoas com aumento de peso) pode ter efeitos antiproliferativos.

Existem estudos com pessoas que foram submetidas a cirurgia bariátrica que analisam a relação entre perda de peso e redução de risco de câncer.

Por outro lado, o estudo Women’s Health Initiative mostrou que, em pessoas que foram diagnosticadas com câncer de mama, próstata ou colorretal, a obesidade pode piorar a chance de sobrevivência, além da qualidade de vida, recidiva, progressão e prognóstico.

Complicações e menor sobrevida

A obesidade está associada a linfedema relacionado ao tratamento em sobreviventes de câncer de mama, a incontinência urinária em sobreviventes de câncer de próstata tratados com prostatectomia radical, a aumento de recorrência local em pacientes com câncer retal e a maior mortalidade por mieloma múltiplo.

Atualmente, um estudo randomizado sobre obesidade e câncer, o National Cancer Institute Breast Cancer Weight Loss Study (NCI BCWEL) está recrutando participantes com o intuito de comparar a taxa de recorrência ou o prognóstico do câncer em mulheres com sobrepeso e obesas que participam de um programa de perda de peso após o diagnóstico de câncer de mama.

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Marcio C. Mancini

Marcio C. Mancini

Médico endocrinologista e diretor da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (ABESO). É responsável pelo Grupo de Obesidade e Síndrome Metabólica da Disciplina de Endocrinologia e Metabologia do HC-FMUSP e supervisor do Ambulatório de Obesidade Mórbida e Chefe da Liga de Obesidade Infantil do HC-FMUSP.