Necessidades não satisfeitas podem virar doenças físicas e mentais

O tempo todo
Estou tentando me defender
Digam o que disserem
O mal do século é a solidão
Cada um de nós imerso em sua própria arrogância
Esperando por um pouco de afeição
Esperando por mim – Legião Urbana

De acordo com o dicionário Michaelis (2008), defender significa se livrar, preservar, resguardar, resistir e proteger. Pois bem, guardarei essa definição para logo mais. Antes, discorrerei um pouco a respeito da identificação e satisfação das necessidades à luz da Gestalt-terapia.

Consequências das necessidades não satisfeitas

De acordo com essa abordagem, para satisfazer uma necessidade precisamos passar pelas seguintes fases: 1- Sensação, 2- Consciência, 3- Mobilização de energia, 4- Ação, 5- Contato, 6- Retração. Esta sequência se refere a um ciclo de contato que, quando tudo corre bem, consegue satisfazer nossos anseios.

Por exemplo, quando há fome primeiramente é sentida uma sensação de incômodo na barriga ou estômago (1) que gera consciência e identificação acerca da necessidade (2). Logo, o indivíduo começa a pensar no quê e em qual lugar comer (3), para assim se dirigir ao local em que se encontra o alimento (4) e comê-lo (5). Satisfeito, a pessoa se dá conta do saciamento da fome (6). Embora neste exemplo de necessidade satisfeita tudo tenha corrido bem, nem sempre é assim.

Quando há necessidades não satisfeitas, por algum motivo, elas ficam em aberto — o que chamamos de Gestalt aberta —, gerando um gasto de energia constante. Basta se imaginar com fome o tempo todo, sem poder saciá-la, para entender tamanho incômodo.

Manifestações “sem motivo”

A questão é que por vezes levamos muito tempo para fechar uma Gestalt ou satisfazer uma necessidade, pois com muita constância, nem nos damos conta de sua existência. Isso causa gasto de energia, incômodos, medos inexplicáveis, ansiedade e outras condições que se manifestam sem nenhum motivo aparente.

Quando não se olha para tais manifestações, de forma a buscar a compreensão e o direcionamento da energia paralisada, é muito comum que o corpo comece a se comunicar por meio de sintomas ou doenças psicossomáticas, que são nada mais do que reflexos da necessidade que não conseguimos satisfazer.

Autorregulação

Darei um exemplo mais claro voltado à parte psicológica: uma pessoa é criada num ambiente com muita escassez de cuidados e afeto. Assim, não constrói em sua psiquê o suporte necessário para lidar com as adversidades, sentindo-se sempre inferior e incapaz. Em sua vida adulta, lida com diversas questões físicas, como dores de estômago, enxaqueca e alergias na pele, sem causa aparente ou diagnosticada. Apesar de ser bem-sucedida profissionalmente, não consegue estabelecer relacionamentos saudáveis, sujeitando-se sempre a  relações tóxicas. Além disso, não reconhece aquilo que dá certo em sua vida.

Este é um exemplo de necessidade não satisfeita ou Gestalt aberta, que no caso se refere a não ter tido cuidados e afetos indispensáveis de uma infância saudável. No entanto, a existência dessa necessidade não fica clara para a pessoa em questão e tampouco é possível satisfazê-la na integra, pois sua infância já passou. Mas o desprovimento de cuidados e afeto ainda se faz presente e, por não ser reconhecido ou ajustado, fica roubando energia de outros aspectos da psiquê e também do corpo.

Isso acontece porque o corpo cria automaticamente a ânsia de se autorregular e comunicar que algo não vai bem. Assim, se no momento presente não há possibilidade de entrar em contato com a causa da dor, o organismo cria defesas psíquicas para proteger desse incômodo, ou seja, por para fora aquilo que está descompensado.

Sim, aprendemos a nos proteger sem nem perceber isso.

 

Vela acesa entre várias apagadas.

Ian Dyball/Shutterstock

“Compreender os próprios buracos”

Retomando a definição de defesa do início desta reflexão: nos defendemos daquilo que julgamos ser perigoso e lidar com emoções ou buracos existenciais por vezes se torna muito difícil por tamanha dor psicológica que pode surgir.

Como forma de autorregulação, o corpo encontra meios de direcionar a energia e transformar em sintoma físico àquilo que teve origem emocional.

A psicoterapia é uma forma de compreender os próprios buracos e conseguir olhar para eles sem medo. Ressalto que isso acontece com o tempo pois acredito que até nossas defesas mais bizarras tem uma função.

Não é tarefa do psicólogo derrubar essas barreiras, mas criar um contexto que acolha o cliente e o ajude a compreender e atualizar a função do uso delas, para que o próprio cliente se dê conta da necessidade ou não de se defender e ressignifique suas questões emocionais para um possível estado de melhora mental e física.

Referências:
– LEGIÃO URBANA. Esperando por mim. Álbum: A Tempestade. EMI, 1996.
– MICHAELIS. Moderno Dicionário da Língua Portuguesa. Editora Melhoramentos: São Paulo, 2008.
– PARENTE, N. M. A., agosto de 2018. Disponível em <http://nmaparente.wixsite.com/nataliapsiquelogias/gestalt> Acesso de 15/08/2018.

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Natália Menezes Aguilar Parente

Natália Menezes Aguilar Parente

Psicóloga (CRP 06/92570) graduada pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, especialista em Gestalt-terapia pelo Instituto Sedes Sapientiae. Com o olhar voltado exclusivamente para as pessoas, seu trabalho gira em torno de fazer com que estas entrem em contato com aquilo que mais as afligem para que possam transcender suas dificuldades e chegarem a um estágio de harmonia da alma.