Compulsão alimentar: o que é, sintomas e como tratar

Atualizado em 13 de fevereiro de 2019

|

O transtorno da compulsão alimentar periódica foi descrito pela primeira vez nos anos 1950. Contudo, sua elevação à categoria diagnóstica apenas ocorreu em 1994, quando foi incluído no apêndice B do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais IV (DSM-IV), com critérios provisórios para seu diagnóstico.

Saiba mais sobre a compulsão alimentar:

O que é?

Trata-se de uma síndrome caracterizada por episódios recorrentes de compulsão alimentar, sem qualquer comportamento de compensação para evitar um possível ganho de peso.

Incertezas quanto a seus parâmetros diagnósticos como caracterização da quantidade de alimentos ingeridos, duração de um episódio de comer compulsivo ou mesmo o valor da perda de controle sobre a ingestão alimentar tornam difíceis a homogenização de um grupo sindrômico.

Desta forma, estudos epidemiológicos podem revelar diferentes dados de caracterização da população portadora deste transtorno. Isto reforça a necessidade da manutenção de estudos para avaliação desta patologia.

Causas dos transtornos alimentares

De uma forma geral, a causa de transtornos alimentares é complexa e pouco entendida. Com relação ao transtorno da compulsão alimentar periódica, vários fatores podem estar envolvidos na sua gênese, incluindo os demográficos, socioeconômicos, genéticos, psicológicos, ambientais e individuais.Estudos sugerem que eventos na infância possam contribuir para tais distúrbios.

Embora seja reconhecida a taxa de hereditabilidade maior que 50%, ainda é difícil especificar causalidades, mesmo com os estudos orientados diretamente para os aspectos ligados à origem do transtorno já realizados.

Sinais e sintomas

O comportamento alimentar, é caracterizado pela ingestão de grande quantidade de alimentos em um período de tempo delimitado (até duas horas), acompanhado da sensação de perda de controle sobre o quê ou o quanto se come.

Para caracterizar o diagnóstico, esses episódios devem ocorrer pelo menos dois dias por semana nos últimos seis meses, associados a algumas características de perda de controle e não acompanhados de comportamentos compensatórios dirigidos à redução de peso (Spitzer, 1993; Apa,1994).

Associados

A compulsão alimentar também é acompanhada por sentimentos de angústia subjetiva, incluindo vergonha, nojo e/ou culpa.

Alguns autores afirmam que um comedor compulsivo abrange no mínimo dois elementos: o subjetivo (a sensação de perda de controle) e o objetivo (a quantidade do consumo alimentar).

Há um consenso geral no aspecto subjetivo da compulsão para seu diagnóstico, contudo, há controvérsias em relação ao aspecto objetivo, quanto ao tamanho e à duração de uma compulsão.

Prevenção

O estresse é um fator que pode levar ao aumento das compulsões alimentares. Durante situações estressantes, o cortisol é liberado estimulando a ingestão de alimentos e o aumento do peso (Gluck, 2001).

Estudo realizado por Geliebter et al. demonstrou que pessoas obesas têm uma capacidade gástrica maior do que as pessoas com peso normal, o que poderia limitar a quantidade de alimentos ingeridos e de saciedade.

Segundo o mesmo autor, desconhece-se a existência de um transtorno alimentar que tenha sido predisposto por uma grande capacidade gástrica (Geliebter, 2002). Estima-se a prevalência em transtorno da compulsão alimentar periódica, numa dimensão variada, em parte devido à variação das definições.

De fato, o transtorno da compulsão alimentar periódica, como é conhecido atualmente, é uma síndrome do comportamento alimentar com características ainda incertas e às vezes conflitantes.

Diferentes estudos já demonstram alguns sinais e critérios sugestivos de um diagnóstico sindrômico, contudo faltam diretrizes mais apuradas para organizar um grupo razoavelmente homogêneo e caracterizá-lo como categoria diagnóstica.

Tratamentos

O tratamento se encontra dentro de uma nova categoria diagnóstica, cuja criação é proposta pelo DSM-IV.

Terapias

Embora não existam abordagens terapêuticas definidas como superiores a outras, os tratamentos multimodais, com medicamentos associados a intervenções psicológicas e nutricionais têm sido considerados os mais apropriados.

Para Stefano et al., a função deste tipo de tratamento, é “estabelecer hábitos saudáveis de alimentação e ajudar o paciente a evitar a hiper-alimentação”, sendo as abordagens psicoterapêuticas mais indicadas: terapia cognitivo-comportamental, que pode ser associada a técnicas de hipnose, terapia comportamental, psicoterapia focal, psicoterapia interpessoal, psicoterapias psicodinâmicas, tratamentos de autoajuda, e intervenções psico-educacionais. Essas abordagens podem ser aplicadas individualmente ou em grupo.

A terapia cognitivo-comportamental, é a linha que tem sido mais estudada e tem demonstrado bons resultados. Convencional é em geral um tratamento de curto prazo (cerca de 12 a 16 sessões) que enfoca aspectos cognitivos do problema (pensamentos distorcidos) tais como a auto-avaliação centrada no peso e forma do corpo, baixa autoestima, perfeccionismo e outros aspectos, enquanto a parte comportamental enfoca hábitos alimentares inadequados.

Medicamentos

As classes de fármacos que têm sido usadas no tratamento do transtorno da compulsão alimentar periódica são os antidepressivos (especialmente os inibidores seletivos de recaptação da 5-HT, tais como; fluoxetina, fluvoxamina, sertralina e o citalopram), a sibutramina, um agente antiobesidade, e o topiramato, um estabilizador do humor.

Uma classe de fármaco que tem sido estudada como auxiliar na supressão da compulsão alimentar e perda de peso são os antagonistas canabinóide, como o rimonabanto, que provoca aversão ao alimento.

O problema da obesidade

A obesidade é um problema que está diretamente relacionado com a saúde pública, já que o número de indivíduos obesos vem aumentando nas últimas décadas, especialmente em países desenvolvidos.

O Brasil também apresenta um aumento significativo de casos de obesidade, especialmente na região sul do País, sendo seus índices semelhantes aos de países de primeiro mundo (1).

A comorbidade é muito comum na obesidade de longo tempo. O diabetes mellitus tipo II, a hipertensão arterial e doenças cérebro-vasculares, dentre outras, podem acompanhar a obesidade.

(Cercatto et at.) definem a “obesidade como “o excesso de gordura corporal em comparação com a massa magra”.

 

REFERÊNCIAS

APPOLINARIO J.C.;- COUTINHO, W.; POVOA, L.C.- O Transtorno do comer compulsivo no consultório endocrinológico: comunicação preliminar. J Bras Psiquiatr 44(Supl1): S46- S9, 1995.

BORGES, M.B.- Estudo do transtorno da compulsão alimentar periódica em população de obesos e sua associação com depressão e alexitimia [Dissertação]. São Paulo: Universidade Federal de São Paulo, 1998.

COUTINHO, W.- Estudo da compulsão alimentar periódica em pacientes que procuram tratamento médico para emagrecer [Tese]. São Paulo: Universidade Federal de São Paulo, 2000.

Dallman MF, Pecoraro N, Akana SF, La Fleur, Gomez F, Houshyar H, Bell ME, Bhatnagar S, Laugero KD, Manalo S. Chronic stress and obesity: a new view of “comfort food”. Proc Natl Acad Sci UAS 2003; 100: 11696-11701.

Stefano SC, Borges MBF, Claudino AM. Transtorno da compulsão alimentar periódica. Psiq Prática Médica 2002; 34: 118-120.

Gaetani S, Kaye WH, Cuomo V, Piomelli D. Role of endocannabinoids and their analogues in obesity and eating disorders. Eat Weight Disord 2008; 13: 42-48.

Könner A, Klöckener T, Brüning JC. Control of energy homeostasis by insulin and leptin: targeting the arcuate nucleus and beyond. Physiol. Behav2009; 97: 632-638

Os textos, informações e opiniões publicadas nesse espaço são de total responsabilidade do autor. Logo, não correspondem, necessariamente, ao ponto de vista do Ativo Saúde

Prof. Dr. Edson Credidio

Prof. Dr. Edson Credidio

Prof. Dr. Edson Credidio – MD - PhD - Pós - Doc – é nutrólogo, clínico geral, angiologista e cirurgião vascular, além de membro titular do American College of Nutrition – USA e autor de dezoito livros publicados.