Dieta Alcalina: ela realmente é tão boa quanto dizem?

14 de novembro de 2017

|

POR Lucas Coelho

A Dieta Alcalina, também conhecida como Dieta do pH, é um plano alimentar em que alimentos ácidos devem ser consumidos em pequenas quantidades, a fim de evitar que o pH do organismo seja desregulado por essa acidez.

Cercada de expectativas miraculosas, a Dieta Alcalina é constantemente debatida por suas premissas que têm sido cada vez mais refutadas pela ciência. No entanto, isso não quer dizer que a dieta seja de todo ruim, porque a verdade é que existem aspectos positivos nas recomendações deste polêmico plano alimentar.

Porém, como em qualquer dieta, a melhor coisa é sempre consultar um nutricionista se você estiver disposto(a) a dar uma chance à Dieta Alcalina para entender exatamente como ela pode ajudar a atingir seus objetivos de emagrecimento.

Entendendo a Dieta Alcalina

Antes de qualquer coisa, é preciso entender o conceito de alimentos alcalinos e ácidos. Você deve se lembrar das aulas de química e biologia na escola em que o professor ensinou sobre o tal do pH. Pois é, é exatamente disso que estamos falando. Cada alimento tem um pH diferente e causa impactos diferentes no organismo depois de metabolizado no processo de digestão.

Funciona assim: quando digeridos, os alimentos deixam resíduos em nosso corpo que podem ser classificados entre alcalinos, ácidos ou neutros. A premissa da Dieta Alcalina é que esses resquícios interferem diretamente no pH do organismo, e que quanto mais ácido estiver o nosso pH, mais vulnerável nosso corpo estará a diversas doenças e outros problemas de saúde. Quando os resíduos são alcalinos, o efeito é justamente o contrário, conferindo proteção extra ao organismo.

Diversas reações químicas que acontecem dentro do corpo resultam em substância ácidas, e quando o pH sofre variações, o organismo tenta manter o equilíbrio às custas de alguns nutrientes. A dieta de alimentos alcalinos, então, tenta auxiliar neste aspecto, evitando todo esse esforço.

Mas será verdade? O corpo humano funciona exatamente assim?

Origem da Dieta Alcalina

A Dieta Alcalina surgiu originalmente como uma forma de combater pedras nos rins e infecções urinárias por meio da alimentação. Nesses casos, o que é consumido tem, sim, relação direta com o pH da urina, que se torna mais ácida ou alcalina dependendo dos resíduos que ela precisa eliminar.

Um estudo de 2013 feito pelo Departamento de Nefrologia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), especializado em diagnosticar os tratamentos de doenças do sistema urinário, corroborou a ideia de que uma dieta mais vegetariana promove a alcalinização da urina.

A redução no consumo de proteína animal, especialmente, pode reduzir a excreção de ácido úrico. Isso ajudaria particularmente a resolver o problema de cálculos renais de cistina.

O pH do sangue

Existe, no entanto, a crença de que essa capacidade de alcalinizar se estende para todas as partes do nosso corpo, o que não é verdade. O estômago, por exemplo, é sempre ácido e, se deixar de ser assim, seu aparelho digestivo terá grandes problemas. A acidez é necessária justamente para que a digestão aconteça corretamente.

Recorrentemente, ouve-se que a Dieta Alcalina torna o sangue menos ácido e isso seria ótimo para o organismo, criando um ambiente menos propício para doenças e infecções. Neste caso, porém, não há muito o que sua alimentação possa fazer.

O corpo tem diversos mecanismos para manter o pH do sangue no nível ideal, e nenhum deles é influenciado pela comida que entra na nossa boca. Todo o funcionamento do organismo nesse sentido serve justamente para evitar qualquer interferência externa. A respiração é um exemplo de processo que evita a acidificação ao eliminar gás carbônico.

Relação entre pH e câncer

O entendimento de que o pH do sangue não é alterado pela alimentação acaba derrubando o principal argumento dos que defendem a Dieta Alcalina: o de que ela seria importante na prevenção do câncer, pois os tumores crescem em ambientes ácidos.

Em primeiro lugar, não há consenso em relação à origem das células cancerígenas. As pesquisas sobre a relação direta entre acidez e o surgimento de tumores não são conclusivas, uma vez que o câncer também se desenvolver em tecidos mais alcalinos do corpo. Além disso, estudos mostram que, na realidade, os próprios tumores tornam seu ambiente mais ácido, pouco tendo relação com o pH original da região onde surgiram.

É um assunto ainda muito polêmico e incerto, por isso já alertamos: não se deve mergulhar de cabeça na Dieta Alcalina e esperar que tudo o que é prometido irá acontecer.

Mas é uma dieta boa ou não?

Apesar de não haver comprovação científica sobre a capacidade da Dieta Alcalina de prevenir o câncer, existem pontos positivos mesmo assim. De acordo com a nutricionista Adriana Ávila, “a ingestão de frutas, verduras e legumes – que são essencialmente recomendações da dieta – pode ser importante na proteção contra alguns tipos de câncer, como reto, cólon e esôfago”.

Isso acontece não da forma como a Dieta Alcalina promete, mas por que os alimentos simplesmente são mais saudáveis e tem propriedades que ajudam a prevenir o desenvolvimento de tumores no corpo.

Os defumados, por exemplo, contêm nitritos e nitratos, substâncias listadas como ácidas e que aumentariam o risco de câncer. O álcool em excesso e produtos industrializados cheios de conservantes também são reconhecidamente cancerígenos e estão excluídos da dieta.

De maneira geral, as recomendações deste programa alimentar trazem alguns pontos positivos, mas, talvez, baseados em premissas incorretas.

O cardápio da Dieta Alcalina

A lista de alimentos que devem ser consumidos na Dieta Alcalina começa pelas frutas: todas elas estão liberadas. Até mesmo as frutas ácidas, como limão e abacaxi? Sim, porque depois de digeridas elas têm um efeito alcalino no organismo.

Verduras e legumes em geral também devem complementar as refeições, com castanhas e amêndoas, feijões de vários tipos, quinoa, aveia, gergelim, girassol, semente de abóbora e semelhantes. Não poderia faltar a batata-doce, além de cogumelos, chás, coco, óleo de peixe, algas marinhas, azeite de oliva e vinagre de maçã.

Enfim, a orientação é evitar açúcares em geral, diminuir também o consumo de sal, adoçantes e amido. Alimentos processados e industrializados, ricos em sódio e gorduras, também devem ser cortados, assim como o leite e seus derivados e quase todos os tipos de carne e ovos.

Os pontos vantajosos da Dieta Alcalina são as substâncias antioxidantes que combatem os radicais livres, responsáveis pelo envelhecimento celular; a redução do inchaço por causa dos alimentos com menos sódio; e o aumento do consumo de frutas, vegetais e legumes de maneira geral.

Dessa forma, mesmo com a ingestão de frutas consideradas ácidas, a dieta acaba sendo útil para evitar úlceras e outros problemas estomacais semelhantes, além de beneficiar a pele, melhorar o humor e reduzir a sensação de fadiga.

Exemplo de cardápio

Abaixo, separamos um exemplo de como é um cardápio da Dieta Alcalina para você entender um pouco mais sobre o dia a dia de quem segue este plano alimentar na prática.

Lembramos sempre que este cardápio é somente um exemplo e que ele não deve ser seguido sem a recomendação de um profissional. A consulta com um nutricionista é de suma importância, pois o cardápio deve ser montado tendo em vistas as suas necessidades energéticas. Cardápios encontrados na internet não são garantia de sucesso em dieta nenhuma.

Café da manhã

  • 1 copo de 200 ml de água com gotas de limão espremido 10 minutos antes de iniciar a refeição;
  • 1 copo de 200 ml de suco verde batido sem açúcar (2 maçãs com casca + 1 pepino com casca + 1 folha de couve);
  • 1 banana com 1 colher de sopa de farelo de aveia ou de linhaça dourada + 1 colher de chá de mel;

Lanche da manhã

  • 1 xícara de chá de chá-verde;
  • 2 fatias de melão com 1 colher de sobremesa de mix de sementes (gergelim, girassol e abóbora);

Almoço

  • 1 prato de sobremesa de salada verde (alface, acelga, couve crua, rúcula) com cebola, cebolinha e aipo;
  • 2 colheres de sopa de frango desfiado;
  • 2 colheres de sopa de purê de batata sem leite;

Lanche da tarde

  • 5 amêndoas sem sal;
  • 1 copo de 200 ml de suco de limão batido com 1 colher de sobremesa de farinha de linhaça dourada;

Jantar

  • 2 pratos fundos de sopa de abóbora;

Lanche da noite

  • 1 xícara de chá de camomila sem açúcar;
  • 1 rodela de abacaxi cozido com raspas de limão.

Desvantagens e cuidados

A Dieta Alcalina não deve ser encarada de maneira extremamente restrita. Como avisa a nutricionista Adriana Ávila, “quando há ingestão muito reduzida de carnes, fica comprometida a oferta de proteína, ferro, zinco e vitamina do complexo B. Sem leite e seus derivados, também pode ocorrer uma deficiência de cálcio.”

O Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido, por exemplo, orienta contra a decisão de se cortar grupos inteiros de alimentos do cardápio, como as versões mais radicais deste programa sugerem.

Outra promessa comumente associada à Dieta Alcalina é em relação à saúde dos ossos, pois, supostamente, a alcalinização seria importante contra a osteoporose.

No entanto, não há comprovações científicas neste sentido. É preciso muito cuidado, especialmente para os mais idosos, pois se houver uma defasagem grande de proteínas na alimentação a saúde óssea pode deteriorar rapidamente.

Uma dieta para a vida?

A Dieta Alcalina não é recomendada no longo prazo. É possível experimentá-la para testar seus benefícios, ou seguir algumas de suas orientações em direção a uma alimentação mais saudável, mas simplesmente excluir os alimentos e substâncias consideradas “ácidas” não é o melhor caminho.

“As pessoas que queiram seguir este tipo de dieta precisam ser alertadas quanto às deficiências nutricionais que podem ocorrer”, conclui Ávila. “Somente um nutricionista pode cumprir este papel”.