Autofagia e jejum: segundo Nobel de Medicina, essa combinação nos faria viver mais

08 de dezembro de 2016

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POR Camila Brogliato

Parece estranho imaginar que ficar sem comer pode melhorar nossa saúde, mas quem afirma isso é o ganhador do Nobel de Medicina e Fisiologia Yoshinori Ohsumi. Segundo ele, existe uma relação entre autofagia e jejum que poderia nos dar alguns anos a mais de vida. Mas você sabe o que essas duas coisas significam?

A autofagia é o processo natural que faz as células se reciclarem — e isso também acontece quando fazemos jejum. Essa renovação, pelo menos segundo Ohsumi, nos faria viver mais.

A tese de que o organismo como um todo seria capaz de se reciclar surpreendeu e conquistou o Nobel na categoria. Mas será mesmo? Abaixo, explicamos melhor o que é autofagia e quais benefícios esse processo poderia trazer para nossa saúde.

O que é autofagia?

O conceito de autofagia foi descoberto nos anos 1960, mas pouco se sabia sobre ele até o início da década de 90, quando Ohsumi começou a fazer experiências com levedura para identificar os genes envolvidos neste processo.

Ao compreender os mecanismos, o cientista conseguiu relacionar autofagia e jejum — e mostrar um processo semelhante que ocorre dentro de nossas células.

Mecanismo da autofagia intracelular: ilustração 3D do Nobel de Medicina 2016

Mecanismo da autofagia intracelular: ilustração 3D do Nobel de Medicina 2016

 

 

 

 

A autofagia está envolvida em vários processos, como no desenvolvimento do embrião, câncer e doenças neurológicas.

Mas as descobertas do Nobel de Medicina abrem portas para compreender o papel da autofagia não só nessas enfermidades, mas também no desenvolvimento de diabetes tipo 2 e de processos naturais do organismo, como a adaptação à fome e a resposta imunológica a infecções.

Quando o organismo está desnutrido, a autofagia é uma estratégia de sobrevivência que permite que a célula redistribua os nutrientes para manter as atividades essenciais.

Além disso, destrói organelas celulares (estruturas que ficam dentro das células e executam funções importantes para a manutenção da vida) já desgastadas ou envelhecidas, fazendo uma espécie de “controle de qualidade”.

A redução da autofagia leva ao acúmulo de componentes danificados, o que está associado à morte das células e ao desenvolvimento de doenças. Por essa lógica, manter o mecanismo ativo seria uma forma de prevenir problemas: este seria o principal link entre autofagia e jejum.

Perda de peso ou aumento da expectativa de vida?

Muita gente que quer perder peso costuma ficar em jejum, mas imaginar que a prática também ajuda a aumentar a expectativa de vida pode soar estranho aos ouvidos de quem é adepto de um estilo de vida saudável.

Afinal, uma alimentação equilibrada e rica em nutrientes é fundamental para ter uma boa saúde. Porém, o Nobel de Medicina afirma que o jejum faz as células se comerem — e isso renovaria o organismo por dentro.

Essa auto-limpeza no organismo é ativada quando a célula está em situações de estresse, como ficar algum tempo sem se alimentar. Nestes casos, a célula passa a “comer” partes internas para sobreviver, degradando tudo o que tem de ruim. Quanto mais o mecanismo funciona, maior a faxina.

Autofagia e jejum

O jejum induz ao processo de reciclagem celular, mas agora os especialistas precisam de novos estudos para entender a conexão entre a autofagia ativada pelo jejum e a longevidade das células, além de descobrir exatamente a frequência de jejum que seria benéfica e segura para o organismo.

São necessárias mais pesquisas para traçar uma indicação ideal do tempo que deveria durar o jejum para garantir esses benefícios.

Além dele, porém, outra forma de ativar a autofagia seria a restrição no consumo de alimentos. Mas, segundo estudos, a redução deve variar entre 20% a 60% do consumo de calorias total, priorizando carboidratos e proteínas.

Mas fique atento: privar-se de nutrientes por muito tempo faz o mecanismo funcionar de outra maneira e os efeitos acabam sendo negativos. Essa “faxina interna” deve durar tempo suficiente para trazer benefícios e não problemas.

Segundo especialistas, esse jejum não deve durar mais do que 24 horas e precisaria ser feito de forma periódica, apenas por pessoas saudáveis. E pode ser específico: cortar carboidratos e proteínas, por exemplo.

Mas quem pratica exercícios com foco em hipertrofia muscular não deve se arriscar. Isso porque muitas vezes o jejum pode acabar prejudicando o desempenho na academia e fazendo você perder músculos.

Cuidados básicos

Especialistas ressaltam que um eventual jejum para ter longevidade não deve excluir a água e sais minerais, para assim não provocar desidratação e o aumento da pressão arterial.

Da mesma forma, não faça nenhum tipo de jejum sem consultar um médico ou nutricionista antes.