O que é constelação familiar, como funciona e para que serve

Atualizado em 13 de novembro de 2019

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POR Redação

Embora tenha sido desenvolvida há mais de duas décadas, a constelação sistêmica – ou constelação familiar, como é mais conhecida – vem ganhando espaço e fama há poucos anos.

A terapia, recentemente implementada como prática integrativa no Sistema Único de Saúde (SUS) e como meio de resolução de conflitos familiares no Judiciário, trabalha as relações no campo energético.

O que é constelação familiar?

Criada pelo psicoterapeuta, psicanalista, teólogo e filósofo alemão Bert Hellinger, a constelação sistêmica atua no campo morfogenético, relacionado a um tipo de energia coletiva. Para o criador da terapia, todos os indivíduos estão conectados energeticamente com seus antepassados e esse sistema de relações pode impactar profundamente sentimentos, comportamentos e ações.

Segundo Jorge Alejandro Seligman, constelador, terapeuta gestalt e coach de programação neurolinguística, a teoria da constelação sistêmica parte da premissa de que todas as pessoas estão conectadas uma com as outras pelo amor, formando um sistema de vinculações. “Quando esse sistema está arrumado, o amor flui com muito sentido e as pessoas sentem plenitude, felicidade e têm saúde. Mas quando há um desarranjo no sistema, o amor fica cego e alguém sofre”, explica. Esse sofrimento inclui repetição de comportamentos nocivos, vícios, dificuldades financeiras, problemas emocionais, doenças físicas e outras tantas condições.

“Não há como explicar o que é a constelação familiar ou sistêmica a partir da razão porque ela atua no campo do sentir, do inconsciente. Nas sessões, ela faz com que percebamos, sintamos e enxergamos o que temos dificuldade para lidar a partir de um olhar amplo e sistêmico”, explica a consteladora sistêmica e psicóloga Vanessa Thalita Romanini Amadeu.

A terapia, portanto, visa equilibrar esse sistema e muitas vezes é indicada para auxiliar na solução de desarranjos familiares, dificuldades financeiras, problemas de saúde e desajustes profissionais.

“Muitas vezes, repetimos em nossas vidas acontecimentos que ocorreram com familiares no passado, motivados por um tipo de lealdade ao sistema familiar do qual fazemos parte. O que observamos é que esse movimento de repetição nos coloca em contato com problemas de relacionamento, financeiros, emocionais e até profissionais”, explica Valéria Pedroso, consteladora sistêmica familiar e organizacional.

A constelação sistêmica, então, atuando no inconsciente por meio de um trabalho no campo energético, mostra esses conflitos e permite sua reorganização, ação que pode ter efeitos no campo prático e real, com dissolução de conflitos e até redução de sintomas físicos.

Constelação sistêmica no SUS

Desde de 2018, o SUS oferece a constelação familiar como um tipo de tratamento preventivo. Ao lado de terapias como acupuntura, homeopatia, osteopatia e quiropraxia, é disponibilizada como forma promover a saúde.

Constelação sistêmica no Judiciário

No Sistema Judiciário, a técnica é aplicada por alguns tribunais, especialmente para resolver problemas familiares. O objetivo é exteriorizar conflitos e reequilibrar o sistema familiar. Na prática, observa-se que os processos que ganham esse tipo de atenção correm de maneira mais rápida e eficiente.

Quais são os preceitos da constelação familiar?

Durante os estudos e a criação do modelo, foram observadas três leis regem e equilibram todas as relações. Os problemas, portanto, podem surgir quando esses preceitos não estão organizados.

Lei do pertencimento

Dentro de um sistema, seja ele familiar, profissional ou qualquer outro que esteja sendo constelado, há a necessidade de incluir todos os membros independentemente da história de vida, vínculos ou emoções sentidas.

Muitas vezes, as pessoas tendem a naturalmente excluir familiares com algum tipo de dependência química, que foram mortos ou se suicidaram, fetos abortados e portadores de deficiência física ou mental. É essencial que esses indivíduos sejam colocados no campo para que haja equilíbrio e afrouxamento, o que pode evitar os comportamentos de repetição futuros.

“A consciência individual tende a afastar o que está ruim e se aproximar do que é bom. Mas a vida é muito maior e duas almas têm o mesmo valor. É dessa valorização que podemos sanar os assuntos desajustados”, explica o constelador Jorge.

“Não podemos excluir nada e nem ninguém porque tudo aquilo que é excluído, se reatualiza e aparece novamente. Se minha família exclui um alcoólatra, pode ser que apareçam mais alcoólatras nas próximas gerações”, exemplifica Vanessa.

Lei da hierarquia

Além da inclusão de todos os agentes na vida e, durante a terapia, no campo energético, é essencial respeitar as hierarquias. Pai e mãe devem ter mais poder e respeito de seus filhos, filhos não devem assumir os papéis e as responsabilidades dos pais, o irmão mais novo deve assumir a função dele e não de irmão mais velho e assim consecutivamente para que haja sempre equilíbrio.

“Avós criam netos como se fossem seus filhos, filhos se colocam em cima dos pais, esposos se colocam acima das esposas, irmão mais novo se coloca acima do mais velho. Essas trocas rompem o equilíbrio”, exemplifica Jorge.

Lei do equilíbrio

Por fim, o terceiro preceito das relações e sistemas saudáveis é o equilíbrio.

Além de incluir todos e respeitar as hierarquias e funções, é essencial que tudo o que for dado seja também recebido para que não haja desarranjos energéticos.

É preciso, no entanto, ter atenção às diferentes maneiras de dar e receber. “Eu dei um copo de açúcar para uma vizinha e fico esperando ela me trazer de volta. Nessa expectativa constante de ter de volta o copo de açúcar, eu nem noto que uma colega me trouxe uma caixa de bombons e que, portanto, eu já recebi. Com isso, meu sistema acha que estou em falta e fica em desequilíbrio”, exemplifica Vanessa.

Como funciona uma sessão?

Ao buscar a terapia, é comum deparar-se com dois formatos: coletiva ou individual.

Constelação sistêmica coletiva

Na prática coletiva, um grupo de pessoas acompanha o trabalho. Geralmente, o tema é oculto, ou seja, antes de iniciar o cliente se reúne unicamente com o terapeuta e conta sua história. Nesse momento, a dupla decide quantas pessoas da família ou do sistema trabalhado terão de se representadas.

De volta ao grupo, o cliente escolhe pessoas para representar esses familiares ou membros do sistema. Essas pessoas se levantam, vão ao centro e a partir de então se conectam com a energia daquele sistema e passam a agir e sentir emoções de acordo com o que está acontecendo.

Tudo é possível, graças ao campo mórfico, que transmite sensações e sentimentos que fazem as pessoas agirem de determinadas formas.

Durante a terapia, o papel do facilitador (constelador ou terapeuta) é prestar atenção nos movimentos dos participantes, entender seus sentimentos e, aos poucos, ir desfazendo emaranhados e desarranjos energéticos até que, dentro do tema escolhido, todas as leis passem a existir.

No fim, quem está constelando passa a enxergar a própria história por outro ângulo, de fora, e consegue entender muitas coisas que antes não via, não sabia, não entendia, não sentia ou se recusava a aceitar.

Constelação sistêmica individual

No trabalho individual, o objetivo é o mesmo: desfazer os emaranhados energéticos do campo mórfico e fazer reinar as três leis básicas. O que muda, no entanto, é que tudo acontece somente na presença do constelador e do constelado e os indivíduos são representados por bonecos, figuras, cristais ou quaisquer outros objetos.

“As formatos são diferentes, mas o resultado dos dois é o mesmo”, comenta Valéria.

Diferença entre constelação familiar x sistêmica

De acordo com os profissionais, não há diferença entre as duas terapias. O que ocorre, na verdade, é que a família é um dos sistemas que podem ser constelados. Ou seja, existe a constelação sistêmica familiar, assim como existe a constelação sistêmica empresarial, de saúde, emoções, etc.

O que pode ser constelado?

Todos os setores da vida são passíveis de serem constelados. Problemas familiares, doenças, dificuldades financeiras e falência empresarial são os temas mais comumente trabalhados.

Para isso, no entanto, é necessário que a questão seja de fato originada por uma desordem sistêmica, não física.

Quem pode recorrer à constelação familiar?

Como é uma terapia ligada especialmente ao autoconhecimento, é comum que pessoas que já estão em trabalho terapêutico busquem esse tipo de cuidado.

A psicóloga clínica Maria Soledad Domenic indica o tratamento para clientes que buscam autoconhecimento e, sobretudo, para aqueles que trazem conflitos ou repetições de padrões. “Por exemplo, pessoas que estão sempre se envolvendo em relações abusivas, que têm dificuldade para se realizar no trabalho ou contam com problemas financeiros constantes”, explica.

A experiência pode trazer consciência sobre inúmeras situações inconscientes que afetam sua vida.

Benefícios

As repercussões da constelação sistêmica podem aparecer por até dois anos depois da sessão e variam de acordo com o tema que foi trabalhado.

Imediatamente após a sessão, muitas pessoas citam o alívio como um dos benefícios. Diminuição da tensão, maior compreensão da vida e das relações também são comuns.

Em longo prazo, os resultados estão alinhados de acordo com o tema trabalhado, mas geralmente envolvem redução da culpa, diminuição dos julgamentos, aceitação dos pais, compreensão de seus familiares e parceiro, reaproximação de pessoas que estavam afastadas, dissolução de brigas, mágoas e rancores, cura de doenças, redução de determinados sintomas físicos, ajustes financeiros e promoções.

Pessoas que já estão em processos terapêuticos podem ter ganhos ainda maiores. Dissolução de tensões profundas e conflitos internos, bem como conscientização sobre as relações com familiares, parceiros e amigos também estão entre os benefícios da prática.

O que acontece depois que a constelação termina?

Como o trabalho atua no campo energético e do inconsciente, nem sempre os efeitos são sentidos imediatamente. Valéria diz que costuma orientar seus pacientes a esquecerem que constelaram para deixar o tempo agir.

Segundo Jorge, como a terapia faz muitos movimentos energéticos, pode ser que afete o corpo. “A pessoa  pode ficar muito impactada. Então, nos primeiros 15 dias podem aparecer sintomas como insônia ou sonolência, cansaço excessivo, aumento ou diminuição do apetite e até aumento do estresse e da ansiedade”, lista.

Posteriormente – e sem data para acontecer – podem ocorrer mudanças mais notáveis, como reaproximações familiares, suspensão dos comportamentos de repetição, maior compreensão das pessoas e situações.

“Não é mágica para curar tudo. Ela funciona muito bem quando está dentro de um processo terapêutico, quando temos um antes, e notamos a necessidade da constelação, e um depois, com um trabalho posterior para resolver aquilo que foi visto e conscientizado”, explica a psicóloga.

Preço

Os preços variam de acordo com a região, formação do profissional e tipo de terapia. Em capitais, a participação em grupos de constelação pode custar de R$ 10 a R$ 50, como convidado. Já para constelar em grupo, os preços variam de R$ 500 a R$ 1 mil

Os atendimentos individuais têm preços diferentes e variam de R$ 400 a R$ 800.

 

Referências

Constelador, terapeuta gestalt e coach de programação neurolinguística Jorge Alejandro Seligman,

Consteladora sistêmica e psicóloga Vanessa Thalita Romanini Amadeu.

Consteladora sistêmica familiar e organizacional Valéria Pedroso.