Agrotóxicos: eles fazem mal para a saúde ou não?

31 de outubro de 2017

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POR Vinicius de Vita Cavalheiro

Uma pesquisa inédita do Greenpeace, divulgada nesta terça-feira (31), revelou que 36% de alguns alimentos muito comuns à dieta do brasileiro têm agrotóxicos não permitidos no Brasil ou acima do limite estipulado por lei. Foram analisados 113 kg dos seguintes alimentos: arroz branco, arroz integral, feijão preto, feijão carioca, mamão formosa, tomate, couve, pimentão verde, laranja, banana nanica, banana prata e café.

Os resultados do levantamento conduzido pela ONG, famosa por sua atuação global na defesa do meio ambiente, convergem com testes feitos pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) com amostras recolhidas em 2014 e 2015. Segundo a agência informou na época, 58% dos alimentos apresentavam quantidades variadas de agrotóxicos em sua composição.

Além dela, a Associação Brasileira de Defesa do Consumidor (Proteste) também já realizou testes e encontrou resultados semelhantes: após analisar oito tipos de alimentos, mais de um terço deram positivo para a presença de agrotóxicos ilegais.

Então, por mais que o campo da recente pesquisa do Greenpeace seja muito restrito, especialistas acreditam que os resultados dificilmente seriam diferentes se o levantamento tivesse utilizado uma amostragem maior.

A pergunta que não quer calar é: se a presença de agrotóxicos nas nossas refeições é incontestável, quais efeitos eles podem ter para nossa saúde?

Para entender melhor essa questão, é necessário saber exatamente o que são os agrotóxicos e por que eles são tão polêmicos e detestados por ONGs como o Greenpeace.

O que são os agrotóxicos?

Os agrotóxicos, também chamados de defensivos químicos, são produtos utilizados na agricultura para controlar insetos, doenças ou plantas daninhas que causam danos às plantações.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), existem mais de mil tipos de inseticidas e herbicidas que são usados em todo o mundo para garantir que safras não sejam prejudicadas pela ação de pragas. O problema é que, segundo diversos estudos já realizados, a exposição a alguns agrotóxicos pode causar danos muitas vezes irreversíveis à nossa saúde.

E foi justamente daí que algumas entidades não-governamentais como o Greenpeace se engajaram no combate ao uso de agrotóxicos na agricultura, visando encontrar meios alternativos para proteger as plantações.

Indícios de que agrotóxicos fazem mal à saúde

A verdade é que essas entidades não são contra os agrotóxicos à toa. A própria OMS reconhece que alguns pesticidas, especialmente os mais baratos e antigos do mercado, como o famoso DDT, podem permanecer no solo e na água mesmo muitos anos depois de utilizados.

Desde o século XIX até muito pouco tempo, o DDT foi utilizado como a principal arma de combate ao mosquito transmissor da malária, até que se descobriu que ele na verdade, além de cancerígeno, tem efeito cumulativo no organismo — assim como muitos outros agrotóxicos.

Mas foi somente em 2001, durante a Convenção de Estocolmo, na Suécia, que o uso do DDT foi restringido e/ou banido definitivamente da agricultura pelos países signatários do acordo, que também concordaram em não utilizar mais outros tipos de inseticidas e químicos de uso industrial.

Mas são todos os agrotóxicos que fazem mal à saúde?

A Organização Mundial da Saúde diz, por via de regra, que inseticidas são mais tóxicos para seres humanos do que herbicidas. Em todo caso, a extensão dos potenciais danos dos agrotóxicos depende muito de sua composição, da sua função na agricultura e do tempo de exposição das pessoas a eles.

Isso porque os efeitos seriam diferentes dependendo da dose e até da forma como uma pessoa teve contato com o agrotóxico: ingestão, inalação ou contato direto com a pele.

Mas a OMS garante: para um agrotóxico ser aprovado hoje, ele precisa passar por rigorosos testes de segurança alimentar e ambiental. Além disso, nenhum agrotóxico aprovado e utilizado nas lavouras atualmente é considerado genotóxico — ou seja, não causa prejuízos ao DNA e, portanto, não provoca mutações genéticas e nem câncer.

No entanto, a entidade esclarece que efeitos colaterais são esperados a partir de um determinado nível de exposição aos agrotóxicos, podendo levar a alguns problemas de saúde de longo prazo e até a dificuldades de reprodução.

Brasil: campeão mundial no consumo de agrotóxicos

Muita gente se assusta quando descobre que o Brasil lidera o ranking mundial de consumo de agrotóxicos. A Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) estima que 70% dos alimentos in natura consumidos por aqui têm algum resíduo de agrotóxico. Desses, pelo menos um terço contém substâncias não autorizadas pela Anvisa.

E ao mesmo tempo em que o consumo desses produtos cresceu 93% em todo o mundo, no Brasil o crescimento foi de impressionantes 190% nos últimos dez anos, segundo dados divulgados pela Anvisa.

Qual risco eu corro por consumir alimentos com agrotóxico?

A Organização Mundial da Saúde diz que a população em geral é exposta a níveis muito baixos de resíduos de agrotóxico em alguns alimentos e na água, de modo que o consumidor final não está sob risco elevado de envenenamento e nem tem chances elevadas de desenvolver algum problema de saúde — embora a probabilidade exista, a depender muito do nível de exposição.

As principais populações-chave para os perigos dos agrotóxicos, de acordo com a entidade, são os trabalhadores da lavoura que aplicam os inseticidas e outras pessoas que têm contato com os agrotóxicos logo depois que eles são aplicados.

Dados oficiais dão conta de que cerca de 20 mil pessoas em países em desenvolvimentos (como o Brasil) morrem todos os anos em decorrência do contato indireto com agrotóxicos, por meio principalmente de inalação e manipulação dos defensivos.

O que tem sido feito para combater o uso dos agrotóxicos?

A OMS trabalha em duas frentes: no banimento definitivo de agrotóxicos que comprovadamente provoquem efeitos negativos à saúde das pessoas e que tenham potencial para permanecer na natureza por muitos anos e na definição de limites máximos para o uso de agrotóxicos nas lavouras, de modo a garantir que a exposição das pessoas a eles não seja prejudicial.

Hoje, porém, cabe a cada país determinar quais agrotóxicos podem ser usados e em quais níveis eles são permitidos para consumo.

No Brasil, quem faz o controle dos agrotóxicos, regulamenta quais poderão ser utilizados na agricultura e monitora o cumprimento da legislação é o próprio Ministério da Saúde, por meio da Anvisa, que criou, em 2002, o programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos (PARA).

Já o controle ambiental fica por conta do IBAMA, e todos os dados são repassados ao Ministério da Agricultura.

Quais alimentos têm agrotóxicos?

O levantamento do Greenpeace identificou níveis acima do permitido por lei e até mesmo a presença de agrotóxicos proibidos no Brasil em alimentos muito comuns na mesa dos brasileiros, como arroz, feijão, banana, tomate, laranja e café.

A pesquisa foi feita em três feiras livres de São Paulo e Brasília entre os dias 11 e 13 de setembro, e os testes foram realizados com alimentos comprados nas centrais de abastecimento da capital paulista e da capital federal, bem como na zona cerealista paulistana.

O Greenpeace usou dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) para selecionar os alimentos que os brasileiros mais costumam colocar no prato e, também, os alimentos com longo histórico de presença de agrotóxicos, como tomate, couve e pimentão.

A ONG diz que o mais preocupante de tudo é a presença de mais de um tipo de agrotóxico, o que, segundo ela, pode levar à interação entre diferentes pesticidas e a eventuais efeitos colaterais que as autoridades internacionais de vigilância não são capazes de monitorar.

Somente o pimentão apresentou sete tipos diferentes de agrotóxicos, incluindo alguns proibidos por lei, e três em quatro amostras de mamão deram positivo para pelo menos quatro inseticidas diferentes.

Em estudos anteriores, a própria Anvisa já havia identificado a presença de agrotóxicos acima do permitido em diversas frutas muito queridas por brasileiros, entre elas a laranja e o abacaxi. Na ocasião, foram analisados 12 mil amostras de 25 alimentos diferentes.

Como identificar alimentos que têm agrotóxicos dos que não têm?

Nenhum alimento com agrotóxico vem com um selo escrito “este alimento possui agrotóxicos”, nem mesmo o termo “defensivos químicos”, usado muitas vezes para tirar a carga negativa de cima dos inseticidas. Mas, de qualquer forma, é possível identificar os orgânicos e os que possuem quantidades exacerbadas de agrotóxicos.

Alimentos orgânicos certificados, que vêm com um selo de certificação ou dentro de uma embalagem específica, e frutas e hortaliças da época ou da sua região são opções mais seguras e, em tese, livres de defensivos químicos — ou pelo menos de quantidades muito alta deles.

Preste atenção especialmente na cor do pedúnculo (o cabinho da fruta). Se ele estiver com uma cor mais clara, puxada para o branco, é sinal de que tem agrotóxicos. Da mesma forma, desconfie de frutas “perfeitas”, grandes, com cor forte, sem manchas ou buracos. Frutas orgânicas e maduras (ou seja, prontas para consumo) sempre têm pequenas imperfeições em razão da oxidação.

A recomendação, porém, é não deixar de consumir frutas e hortaliças por causa dos agrotóxicos. Por mais que a exposição de longo prazo a esses produtos possa causar malefícios à saúde, os reais perigos que eles nos oferecem ainda não podem ser mensurados. Por outro lado, os benefícios desses alimentos para o organismo já foram comprovados em diversas ocasiões pelos mais variados estudos, e deixar de comê-los também pode trazer prejuízos — principalmente no longo prazo.

Para ajudar, o Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec) criou um mapa que mostra onde tem feiras orgânicas no Brasil. Clique aqui para conferir.

Lavar resolve o problema?

Todo alimento orgânico in natura precisa ser lavado antes de consumido, e o próprio processo de lavagem e higienização com água e hipoclorito de sódio, bem como a retirada de cascas e folhas externas já ajudam a reduzir os níveis de agrotóxicos. Isso, porém, somente no exterior do alimento — os resíduos que estão dentro permanecem mesmo após a higienização.

Por isso, lavar ajuda a reduzir os níveis de defensivos químicos que permaneceram no alimento, mas não resolve totalmente a questão. Para ajudar, você pode mergulhar a fruta, por exemplo, em vinagre, cloro ou água sanitária. Isso ajuda a eliminar os resíduos de agrotóxicos.

Devo sempre tirar a casca das frutas?

Apesar de muitas vezes as cascas das frutas possuírem resíduos, removê-las não evita o consumo de agrotóxicos, porque eles também estão presentes no interior dos alimentos. Então, na maioria dos casos, você estará perdendo mais uma oportunidade de consumir nutrientes importantes (que estão presentes em abundância nas cascas) do que evitando um “envenenamento” por agrotóxicos.

De todo modo, é sempre possível remover a casca e, em vez de descartá-la, reutilizá-la em receitas específicas. Você pode conferir algumas ideias de receitas com cascas de frutas aqui.